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Vidas por um fio: as pessoas precisam dar mais atenção para a saúde mental

No mundo, o Brasil é o 1º país com mais casos de ansiedade, o 2º em estresse e o 5º em depressão. Mas todos estes transtornos podem ser prevenidos a partir de terapias e autoconhecimento.

31/08/2019 08:39h - Atualizado em 31/08/2019 09:15h

Com 18,6 milhões de brasileiros, ou seja, 9,3% da população vivendo com ansiedade, o Brasil lidera o ranking mundial de casos da doença. A depressão também acomete milhões de brasileiros e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o país ocupa o 5º lugar no ranking mundial de casos dessa doença. Os números reforçam a importância de se discutir os temas e aproveitando o início da campanha Setembro Amarelo, que se volta para o bem-estar e para a saúde mental da população no intuito de prevenir o suicídio, o Jornal O DIA traz esta reportagem especial, cujas publicações também vão se estender ao longo do mês, sempre marcadas pelo símbolo da campanha: o laço amarelo. 

Para representar as personagens que preferiram manter suas identidades preservadas, foram usados nomes de flores, como Íris, de 29 anos. Íris é estudante, trabalha, é prestativa, brincalhona, faz todos ao seu redor sorrir e, aparentemente, não tem nenhum problema. Mas poucos sabem o que realmente acontece em sua vida. “Não sei se é ansiedade. A terapeuta disse que é princípio de depressão. Começou com algo pessoal que aconteceu há um ano. Eu fiquei arrasada e mexeu muito com meu psicológico. Eu nunca tive autoestima elevada, sempre achei que não era uma boa funcionária, uma boa filha, uma boa amiga, que não era boa em nada”, conta.

Segundo Íris, a baixa autoestima faz com que ela não consiga realizar atividades profissionais que tem capacidade. “Principalmente quando eu sou colocada para fazer algo que não tenho costume de fazer. Sempre me dá taquicardia, suo frio, minha cabeça ficava a mil, me cobro, fico aflita, nervosa. Todo dia é um desafio para eu me superar enquanto pessoa, tentando ser melhor. Se hoje eu penso que fui péssima, amanhã, ao invés de me superar, eu fico internalizando isso, que depois de amanhã vai ser pior do que foi hoje. Como se eu não fosse boa, sabe?”, explica Íris.

Já Margarida, de 26 anos, relata que seu transtorno de ansiedade começou na época em que fazia mestrado. “Com a questão da pressão por produção para colocar no currículo, acabei desenvolvendo o transtorno, pois o programa depende da sua produção para ser bem avaliado e isso pesa muito na hora de você levar aquilo adiante. Quando o mestrado encerrou, eu tirei uma tonelada das costas e depois veio a questão do trabalho. Parece que dobraram a quantidade de coisas que eu fazia”, expõe. 

A jovem conta que, ao sair da rotina, nada mais entra no eixo durante o dia. “Para quem tem transtorno de ansiedade é como se a gente vivesse em uma linha reta, qualquer coisa que saia dessa linha te deixa doida. Situações que são atípicas são horríveis para mim. Eu tenho minhas coisas para fazer e, quando algo me tira daquele planejamento, acaba comigo, emocionalmente e psicologicamente, e se manifesta com mais força com calafrio, palpitação, tremedeira, suor, a pressão baixa, sensação que o peito está apertando. É uma sensação de apreensão com o desconhecido”, cita.


Foto: 123RF

Ansiedade: a distorção da realidade

Bromélia, de 29 anos, se recorda de ouvir as pessoas comentando sobre transtorno de ansiedade, mas nunca tinha conseguido entender bem o que era a doença. Em 2016, quando ingressou na universidade, se deparou com casos mais severos, de suicídio de alunos e, por conta do cenário, passou a participar debates sobre saúde mental. 

“Nesse período, eu procurei um psicólogo. Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade. Cheguei a frequentar algumas sessões, mas deixei de ir. Em 2017, estava passando por problemas pessoais graves e acumulou com a universidade e eu dei um surto. Me isolei de todo mundo, comecei a ter alguns sintomas preocupantes”, comenta.

Bromélia fala que o pensamento acelerado é seu principal obstáculo na luta contra a ansiedade e a faz criar cenários distorcidos. “Em determinadas situações, é como se fosse um véu, um filtro, que destorce a realidade. Pequenas coisas, que não têm significado se eu tivesse bem, criam uma proporção gigantesca. Eu começo a distorcer, acho que as pessoas estão contra mim, que eu não sou suficiente, que não dou conta daquilo, e começo a pensar muito rápido sobre isso, não consigo controlar meus pensamentos. Dependendo da situação, começo a sentir falta de ar, o coração começa a bater acelerado e tenho palpitações”, revela.


Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade" - Bromélia


A ansiedade também afeta Girassol, de 23 anos. Ela sente os sintomas desde os 16. “Eu percebi que tinha problema de ansiedade ainda no Ensino Médio, devido ao vestibular. Entrei cedo na universidade, ainda estava cursando o primeiro semestre do terceiro ano, com apenas 16 anos. Então, percebi que estava me limitando a fazer certas atividades, estava com dificuldade de escutar coisas simples, fazer uma resenha, um resumo do colégio, eu não conseguia me concentrar e fui me isolando”, diz.

Girassol revela que, quando está em crise, não consegue desenvolver atividades simples. “Tem gente que pode acreditar que estou procrastinando, mas quando você sabe executar uma atividade e a ansiedade não deixa, você perde o controle, não consegue se concentrar, iniciar ou terminar algo. Quando percebo já estou em crise”, detalha.

Taquicardia, falta de apetite, insônia

Nenúfar tem 28 anos e, ao passar por problemas em um relacionamento amoroso, começou a perceber alguns sinais de que precisava de ajuda. “A primeira vez que percebi que havia algo errado eu estava passando por um período conturbado. Estava escrevendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e estava passando por problemas no relacionamento. Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência. Tudo isso acompanhado de um sentimento ruim, uma aflição que não tinha fim, que não passava e não dá para explicar de onde vem”, descreve.


Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência.


Os sintomas do transtorno também afetam Amarílis, professora voluntária, atriz, criadora de vídeos de cordel e humor, estudante de administração, filha única adotada e amante da causa animal. “Tudo me afeta. Quando alguém me olha torto, meu mundo desaba. Coisas pequenas mesmo, que não era para a gente ligar, mas, por conta de estar abalada, acaba afetando. Uma crítica, um problema familiar, pensando mil coisas que não existem. Por exemplo, eu namoro e do nada penso que ele está me traindo. Eu monto um começo, meio e fim e tudo é algo trágico. É isso que é a ansiedade e depressão”, pontua.

Jasmim, de 23 anos, também revela que os sintomas físicos da ansiedade e depressão foram muito fortes e causaram grande impacto em sua vida. “Quando se está em crise, você pensa que não vai conseguir fazer nada, que não tem jeito, sente o coração acelerado, as mãos geladas, soam muito, sente muita dor no corpo, febre sem explicação, você só consegue chorar, por tudo. Como a crise foi muito forte, eu comecei a sentir parte do meu rosto com sensação de dormência”, lembra a jovem que também se percebeu doente na fase final de concluir seu curso superior, em meio a desafios pessoais e profissionais.

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Por: Sandy Swamy - Jornal O Dia

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