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Cobranças familiares podem desencadear transtornos

Apesar dos cenários diversos, psicóloga destaca que não se deve culpabilizar as famílias, porque cada uma tem o seu papel.

31/08/2019 08:50h - Atualizado em 31/08/2019 09:17h

As cobranças para ser um bom aluno, o melhor da escola, o mais inteligente, iniciam na infância e muitas vezes os pais não sabem o peso que essas exigências acarretarão na vida adulta de seu filho. A psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas de Teresina (Caps AD), Elizandra Pires, comenta que essas cobranças se intensificam na época do vestibular, quando se exige que o jovem decida sua carreira ainda na adolescência, e se estendem em outras áreas da vida, como pessoal, afetiva e familiar.

“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas. Apesar disso, não se deve trabalhar com a perspectiva de culpabilizar as famílias, porque cada família tem o seu papel”, pontua.


“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas". - Elizandra Pires


A autoexigência de Girassol, por exemplo, teve início ainda na infância, que sempre esteve em busca da perfeição. “Para mim, a autocobrança pesa e, querendo ou não, eu venho de uma família que se cobra muito e são muito perfeccionistas, que não se envolvem, fazem tudo certo e não se permitem errar, mesmo sabendo que a gente tem a condição de errar”, explica.

De acordo com a psicóloga, essa cobrança assusta os jovens, que tendem a não conseguir alcançar o que lhe é imposto, tornando-se adultos frustrados. “Eu acho que a nossa sociedade cobra muito para que você reproduza determinada atitude. Se você perguntar a um menino o que ele quer ser quando crescer e ele disser ‘vendedor’, pode ser que a família diga que ele não precise mais estudar. A tendência da família é dizer que está investindo na criança para que ela seja médica, advogada ou engenheira”, ilustra Elizandra Pires.


Elizandra Pires destaca que a família repassa os valores para a criança ainda em crescimento pessoal - Foto: Assis Fernandes/O Dia

A especialista frisa que a família deve ter ciência de que é o primeiro grupo de contato da criança, no qual são repassados os valores para este ser que ainda está em crescimento pessoal. “A gente tem que pensar que um ser humano saudável e feliz é aquele que faz o que gosta, gente que produz e tem sucesso em qualquer profissão, desde que seja algo que ele goste. A família pode proteger para não desenvolver esses fatores, assim como pode ser um fator de risco para desenvolver esses transtornos”, aponta.

As imposições sociais e seus reflexos

“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela? É a mesma coisa que dizer ‘você tem que ser médica’ e se a pessoa não conseguir ser médica, como vai ficar a vida desse adulto? Como que ele vai se relacionar?”. É com este exemplo que a psicóloga Elizandra Pires demonstra que as imposições feitas ainda na infância podem se refletir na vida adulta.


“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela?


Mas também, fora dessa fase também ocorrem outras imposições que impactam negativamente a vida das pessoas: as imposições sociais. Íris, de 29 anos, é um exemplo. “Eu não me acho boa suficiente para ter pessoas ao meu lado e acho que não vou ter filhos, não porque eu não queira, mais porque acho que nunca vou encontrar alguém. Isso é algo que tenho trabalhado na terapia, que eu preciso me amar para amar outra pessoa; que eu não preciso de ninguém para ser alguém. Só que a sociedade impõe isso, esse negócio das tias perguntarem ‘você já casou?’, da sociedade perguntar a uma mulher de 30 anos porque ainda está solteira, esse tipo de coisa faz você ficar mal. Vejo meus irmãos casando, meus amigos tendo filhos, então praticamente todo dia eu tenho uma ‘bad’, porque eu fico me perguntando se isso não vai chegar pra mim”, conta.

Outro fator perigoso é ser ambicioso demais, o que move o ser humano é sempre querer crescer, ter algo melhor, mas isso pode ser doentio. “A gente vive sempre em falta, quando o sonho é comprar uma casa e consegue comprar, ainda continua insatisfeito e pensa ‘agora quero comprar o carro top’ e se você não consegue, aí vêm os sintomas de ansiedade e depressão. Aí você trabalha, consegue o carro dos sonhos, mas mesmo assim quer mais”, reflete Elizandra Pires.

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Por: Sandy Swamy - Jornal O Dia

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