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“Não há evidência para investir mais em internações", diz especialista

Ricardo Cruz destaca que a volta ao modelo clássico não compreende as dimensões clínicas nas quais estão inseridas o usuário.

25/05/2019 10:27h - Atualizado em 27/05/2019 10:41h

Ricardo Cruz, que é psicólogo clínico e mestrando em prevenção e assistência a usuários de álcool e drogas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também reforça que o modelo centrado em internações, que já aconteceu no Brasil e é retomado através da reedição da lei, não é efetivo dentro do cenário do país.

O especialista destaca que a volta ao modelo clássico não compreende as dimensões clínicas nas quais estão inseridas o usuário: o contexto que em ele vive e suas relações sociais, meios que têm grande importância para o tratamento. 

“Eu acredito nos conceitos trazidos pela redução de danos, que não é contra a abstinência, ela só não considera que o cuidado em saúde tem que ser fio condutor a abstinência. Mas nesta política, eles vão trazer que o tratamento é a abstinência”, destaca.

A redução de danos, entre seus muitos conceitos, considera que o sujeito precisa se inserir no tratamento, e o tratamento precisa ser construído junto à pessoa que usa drogas, respeitando suas singularidades e possibilitando a reinserção a suas atividades. “Sou psicólogo clínico e eu afirmo: é mais fácil um menino que fuma tabaco e quer parar o vício me procurar que um que fuma cannabis, porque tem uma série de preconceito e rótulos que fazem ele não buscar ajuda”, destaca.


Ricardo Cruz defende a redução de danos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Ricardo levanta ainda a necessidade de entender qual o aparato científico que embasa as propostas reeditadas pela lei. O pesquisador lembra que em pesquisa realizada pelo psicofarmacologista Elisaldo Carlini, um dos maiores especialistas mundiais em drogas, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que mais de 80% das pessoas que utilizam substâncias ilícitas não se tornam dependentes. 

“Porque que o governo está investindo tanto na internação? Quais os dados? Cadê os programas de prevenção? Se querem desqualificar dizendo que é um discurso ideológico, estou falando cientificamente, não há evidência para se investir mais em internações e menos em programas comunitários”, afirma.


“Eu acredito nos conceitos trazidos pela redução de danos, que não é contra a abstinência, ela só não considera que o cuidado em saúde tem que ser fio condutor a abstinência", afirma Ricardo Cruz.


Para ele, a história do mundo mostra que lidar com cenários sociais, incentivando a exclusão, não trouxeram efeitos positivos para o mundo. “Lembramos que as mulheres que se rebelaram na idade média foram queimadas; os leprosos, excluídos; os loucos, por muito tempo, apenas presos. Eu considero que o grande vilão socialmente criado, agora, são os usuários de drogas, voltados para um sistema de exclusão e isolamento social. Tem que ter internação? Sim, em casos necessários e a própria reforma psiquiátrica já garantia a internação: a voluntária, involuntária e a compulsório, todas associadas por uma conduta médica. Mas, agora, o nosso receio é que tem uma generalização da internação”, explica.

O profissional acredita que se o uso de drogas tem sido feito por três olhares, sendo eles o da saúde, que vê como doente o usuário; o da justiça, que o vê como criminoso e o da religião que o vê como um pecador, se faz necessário que se enxergue de uma quarta forma: o da responsabilização pelos erros, quando existirem, e a manutenção do apoio quando este precisar da sua garantia de saúde e dos direitos sociais.

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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