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85,9% das mães jornalistas afirmam que se sentem sobrecarregadas na pandemia

A pesquisa foi realizada pela comissão nacional da FENAJ, onde foram ouvidas 629 mães jornalistas para o levantamento.

27/08/2020 09:52

A Comissão Nacional de Mulheres da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), realizou uma pesquisa sobre condições de trabalho durante a pandemia das mulheres jornalistas que são mães. No levantamento, a principal função exercida dentro do jornalismo pelas mulheres que são mães é de Assessora de Imprensa (40,06%), seguida da atuação como repórter (15,9%). 

Para 63,4% dessas mulheres, a responsabilidade com a criança é compartilhada com o pai. Mas a segunda maior ocorrência é de mulheres jornalistas que são mães solo e também as únicas responsáveis pelos filhos (22,4%). Nesse cenário, ainda que a maioria tenha declarado que compartilha cuidados e responsabilidades sobre os filhos com o pai, 85,9% das mães assinalaram que se sentem sobrecarregadas na pandemia.

O regime de trabalho da maioria está sendo feito em home office (59,78%), seguido pelas profissionais que estão em regime misto, ou seja, mesclando trabalho remoto com atividades presenciais. Ao todo, 629 profissionais jornalistas de todos os estados do Brasil, responderam a pesquisa.

Quanto à questão salarial, 57,82% não tiveram alterações no salário e na jornada de trabalho durante a pandemia e outras 16,4% foram impactadas pela legislação que instituiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, com base na Lei Nº 14.020/2020 (oriunda da Medida Provisória 936), seja com redução salarial ou suspensão do contrato de trabalho.

Mães jornalistas estão sobrecarregadas na pandemia. Foto: Reprodução/Pixabay

Das mães jornalistas, 7,6% estão desempregadas e 15,1% das participantes precisaram solicitar o benefício emergencial, sendo que 5,56% receberam o valor de R$ 600, outras 4,13% o valor de R$ 1.200, destinado às mães que são as únicas responsáveis pelos filhos/as ou são chefes de família e 5,41% solicitaram, mas não receberam.

Outras 26,7% dessas mulheres são responsáveis pelos cuidados de outras pessoas. Em questão aberta, as jornalistas relatam que essa situação inclui majoritariamente familiares idosos que precisam de apoio durante a pandemia. Em questão aberta relacionada à sobrecarga de trabalho, os relatos abordam a dificuldade de atender os filhos durante aulas remotas; de conciliar esta e outras responsabilidades com o trabalho jornalístico; sobre como são cobradas por desempenho no teletrabalho sem ter qualquer empatia por parte dos superiores hierárquicos; e ainda, a respeito da sensação de estarem o tempo todo tendo que se colocar à disposição para o trabalho. E quem continua exercendo o trabalho presencial ou misto não tem qualquer suporte para a situação das aulas estarem suspensas e pelo risco de não estar em isolamento.

Volta às aulas

A maioria das mães jornalistas (82,3%) têm filhos que cursam até o 5º ano do ensino fundamental, ou seja, desde bebês até crianças com 10 ou 11 anos de idade, em fase de intenso aprendizado. Ainda que apenas 21,5% das crianças/filhos em idade escolar não estejam em aula remota e que as mães descrevam relatos de esgotamento por ter que assumir essa dimensão do acompanhamento do ensino em casa, 88,4% são contra o retorno das aulas nos próximos meses.

Ao menos 47,1% das mães não vão permitir que os filhos retornem às aulas presenciais em 2020, e outras 18,6% cogitam retirar os filhos da escola caso a frequência presencial venha a ser obrigatória. “Essa questão situa as jornalistas no debate geral sobre a educação no contexto da crise de Covid-19, fazendo coro a trabalhadoras de outras categorias que já se pronunciaram sobre os riscos de retorno de crianças, adolescentes e jovens aos espaços educacionais”, aponta Aline de Oliveira Rios, integrante da Comissão de Mulheres pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor/PR) e uma das responsáveis pela sistematização dos dados.

Para além da escuta

Conforme relatório e avaliação da Comissão Nacional de Mulheres da FENAJ, uma das principais questões evidenciadas pela pesquisa é a maneira como a invisibilização da sobrecarga de gênero penaliza as mulheres, abstendo-se de ser objeto de políticas públicas e de ações práticas de enfrentamento.

Rose Dayanne Santana Nogueira, diretora da FENAJ, integrante da Comissão de Mulheres pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Tocantins (Sindjor/TO) e uma das responsáveis pela sistematização dos dados, afirma que outras questões também refletem que as condições de trabalho modificadas pela pandemia escancaram a necessidade de regulamentação do home office, de equidade no ambiente de trabalho e de reflexão sobre os rearranjos familiares durante a pandemia, em que o isolamento é um dos fatores que tem deixado as mães à beira da exaustão.

Com esse caráter de denúncia da sobrecarga, a pesquisa mapeia uma série de abusos que têm ocorrido nos ambientes de trabalho no Brasil, com jornadas abusivas, excesso de trabalho, aumento da cobrança por parte dos superiores (mesmo entre aquelas que tiveram redução de salários e jornada), acúmulo de funções e as frequentes cobranças para dar conta de prazos, de plantões (incluindo quem está em teletrabalho) e de inúmeras reuniões, além daquelas que estão sendo obrigadas a participar de cursos – sem qualquer empatia com o fato da existência do cuidado com os filhos e dos afazeres domésticos.

Diante de tantas questões, a Comissão Nacional de Mulheres da FENAJ irá encaminhar os resultados da pesquisa aos Sindicatos filiados para que possam orientar possíveis medidas que tenham também como objeto a preocupação com as questões de gênero no trabalho.

A pesquisa também será enviada a órgãos de proteção ao trabalho como um esforço para chamar a atenção para a realidade das mulheres trabalhadoras, que não é exclusiva, mas se acentua, no contexto da pandemia, demonstradas nesse recorte com as mães jornalistas.

Fonte: Informações Ascom
Por: Sandy Swamy
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