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Livro sobre 'Dois Papas' explicita as contradições de Bento 16 e Francisco

O roteirista conta que a inspiração do filme surgiu quando ele assistia à missa inaugural de Francisco, em Roma, em 2013.

06/02/2020 10:30h

É difícil ler "Dois Papas", livro em que o roteirista Anthony McCarten compila a pesquisa que realizou para o filme homônimo da Netflix, sem se perguntar como seria o longa como um thriller.


Afinal, não faltam contradições nas biografias dos protagonistas da ficção, os pontífices Bento 16 e Francisco.

O primeiro é acusado de ter negligenciado as denúncias contra um padre que molestou crianças por quase 30 anos na Alemanha –na época em que os primeiros casos foram encaminhados à Igreja, Joseph Ratzinger era arcebispo de Munique.

Já o segundo tem suas possíveis conexões com a ditadura militar argentina analisadas a fundo no livro.

Enquanto o filme perdoa Jorge Bergoglio por seu envolvimento na captura de dois padres jesuítas pela ditadura argentina nos anos 1970, a pesquisa de McCarten explora as incongruências deste e de outros episódios, como a declaração de uma família de que o ex-cardeal sabia da prática de entregar os bebês paridos nos centros de tortura a pessoas ligadas ao regime.

McCarten diz que a decisão de lidar com esses e outros eventos mais superficialmente nas telas tem a ver com os limites do audiovisual. "Claro que um livro de não ficção permite construir um retrato mais fiel. Um filme só pode ter determinado número de eventos", diz.

Não que o autor seja assim tão obediente aos ditames da linguagem cinematográfica. Vide sua decisão de estruturar "Dois Papas" em torno de um diálogo, contradizendo a regra número um dos manuais de roteiro –transformar as palavras em imagens.

"Insisto em contar em vez de mostrar", afirma. "Mas essas palavras devem pôr muita coisa em jogo. Nesse caso, o futuro de uma religião de 2.000 anos, o que traz um peso tão grande para essa conversa que espero que ela rivalize com uma cena de ação."

O roteirista conta que a inspiração do filme surgiu quando ele assistia à missa inaugural de Francisco, em Roma, em 2013. Na ocasião, se perguntou qual fora a última vez em que um papa havia renunciado. A resposta do Google o surpreendeu: há mais de 700 anos.

A princípio, a ideia era criar uma peça sobre os eventos que levaram à abdicação de Bento 16. Mas o texto do espetáculo –que estreou meses antes do filme, sob o título "O Papa"– chegou às mãos do diretor Fernando Meirelles, então à procura de um fio narrativo para o longa que desenvolvia sobre o papa Francisco.

Ambas as obras se baseiam na pesquisa histórica robusta agora apresentada no livro. Esta incluiu não só a leitura de biografias sobre Ratzinger, Bergoglio e o antecessor deles, João Paulo 2º, como de documentos eclesiásticos e notícias.

McCarten, que assinou outros três roteiros baseados em eventos reais nos últimos tempos –"A Teoria de Tudo", "O Destino de uma Nação" e "Bohemian Rhapsody"– diz que essa fidelidade com os fatos é imprescindível.

E se até agora ela não lhe rendeu um Oscar (ele foi indicado nas categorias de roteiro pela segunda vez por "Dois Papas"), ao menos tem garantido prêmios a seus protagonistas.

Eddie Redmayne venceu a láurea há seis anos por seu retrato do astrofísico Stephen Hawking em "A Teoria de Tudo". Gary Oldman, por viver Winston Churchill em "O Destino de uma Nação". Rami Malek, pelo Freddie Mercury de "Bohemian Rhapsody". Neste ano, tanto Jonathan Pryce quanto Anthony Hopkins foram indicados por suas performances como Francisco e Bento, nesta ordem. 

"Levo muito a sério a noção de que esses filmes deveriam ser fidedignos. E é só depois de saber os fatos com muita propriedade que é possível tomar decisões criativas na narrativa, como combinar dois personagens num só, ou trocar uma data, sem prejudicar a verdade de uma cena", afirma.

"Mas 'Dois Papas' é minha licença poética mais arriscada. Porque não temos registro dos debates e conversas entre esses dois homens."

Alguns especialistas no Vaticano criticam o filme justamente por isso. Para eles, o diálogo azeitado entre dois sacerdotes de personalidades e opiniões antagônicas seria impossível.

McCarten discorda. "Alguns críticos gostariam de sugerir que há uma grande divisão entre eles. Mas minha pesquisa mostrou que eles mantêm um elo forte, o que é natural. A única pessoa que consegue entender o fardo daquela posição é outro papa", afirma.

Fonte: Folhapress

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