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Impossível lembrar de Elizeth Cardoso e não associá-la ao termo "Divina"

Título que ganhou pela beleza de sua voz que, por décadas, foi considerada a mais bela do País.

20/01/2020 11:14h

Se estivesse viva, neste ano ela estaria fazendo 100 anos. Nascida no Rio de Janeiro, em 1920, ela veio a falecer em 1990, também no Rio, deixando o Brasil órfão de uma intérprete que encantou o mundo. Na infância, acompanha as serestas do pai e o bloco carnavalesco da mãe. Aos 5 anos, canta a marcha “Zizinha” no palco da sociedade carnavalesca Kananga do Japão. Abandona os estudos aos 10 anos. Aos 13, trabalha em um varejo de cigarros, depois em uma peleteria, uma fábrica de sapólio e um salão de beleza. Começa a cantar profissionalmente em 1936, na Rádio Guanabara, apresentada por Jacob do Bandolim (1918-1969). Estreia com os sambas “Do Amor ao Ódio”, de Luís Bittencourt (1915-?), e “Duas Lágrimas”, de Benedito Lacerda (1903-1958). No Programa Suburbano, impressiona o compositor Noel Rosa (1910-1937), que lhe ensina seu samba “Quem Ri Melhor”. Participa dos programas Samba e Outras Coisas, da Rádio Educadora, e Rádios Novidades, na Rádio Transmissora, com o maestro Fon-Fon (1908-1951).

Apresenta-se com o humorista e compositor Grande Otelo (1915-1993). Em 1939, casa-se com o cavaquista Ari Valdez (ca.1906-ca.1961), integrante da companhia de Teatro de Pedro Gonçalves e De Chocolat (1887-1956), com a qual faz turnê em Belém do Pará, Recife e Salvador. Separam-se pouco tempo depois, mas, da união, nasce o compositor Paulo Valdez. Em 1940, trabalha como taxi-girl no Dancing Avenida, depois como crooner da orquestra do clube. É convidada para ir a São Paulo, onde canta no Dancing Salão Verde e na Rádio Cruzeiro do Sul. Em 1948, conhece o compositor Evaldo Rui (1913-1954), que a leva para o programa Alvorada da Alegria, na Rádio Mauá. Participa de um programa noturno, com Jacob do Bandolim e Blecaute (1919-1983). Em 1949, volta à Rádio Guanabara, em diversos programas, especialmente Clube do Samba, apresentado pelo cantor e compositor Ataulfo Alves (1909-1969). 

Em 1950, grava as músicas “Canção de Amor”, de Chocolate (1923-1989) e Elano de Paula (1923-2015), e “Complexo”, de Wilson Batista (1913-1968). O sucesso do disco garante-lhe contrato de dois anos com a Rádio Tupi, apresentações na televisão e participações no cinema. Atua nos filmes Coração Materno (1951), É Fogo na Roupa (1952), O Rei do Samba (1952), Na Corda Bamba (1957), Com a Mão na Massa (1958) e Garota Enxuta (1959). Em 1958, lança Canção do Amor Demais, com composições de Vinícius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994), com violão de João Gilberto (1931). O disco é considerado marco inaugural da bossa nova. 

Em 1964, Elizeth interpreta “Bachianas n. 5” de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e de São Paulo. No ano seguinte, regrava as músicas do show Rosa de Ouro no álbum Elizete Sobe o Morro. Apresenta Bossaudade, na TV Record, ao lado do cantor e compositor Cyro Monteiro (1913-1973). A convite do Itamaraty, apresenta-se em Cannes, na França, com Clementina de Jesus (1902-1987), Zimbo Trio e Wilson Simonal (1939-2000). Em 1968, faz um espetáculo com  Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e Conjunto Época de Ouro no Teatro João Caetano. O show é gravado em LP pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ).

Inesquecível

De acordo com a crítica especializada, a sensibilidade musical de Elizeth Cardoso deixa à música popular brasileira uma obra expressiva. Constrói sua formação musical “de ouvido”, convivendo durante a infância com carnaval de blocos e ranchos, serestas e reuniões de músicos na casa de Tia Ciata. Ouvinte assídua de rádio, conhece bem o repertório de sua época, tendo por influências as cantoras Odete Amaral (1917-1984), Aracy de Almeida (1914-1988) e Marília Batista (1917-1990). Com o tempo, apura seu estilo, incorporando elementos característicos dessas intérpretes, como os vibratos e o prolongamento da consoante “r” – por exemplo, nas frases do samba “Barracão”, de Luis Antônio (1921-1996) e Oldemar Magalhães (1912-1990), gravado pela cantora em 1968. É um recurso utilizado também pelos locutores de rádio. Favorecendo-se de sua amplitude vocal, interpreta com êxito tanto sambas como as Bachianas de Villa-Lobos.

Elizeth participa de um momento decisivo para a música popular, no qual convergem três movimentos: a estética e o repertório da chamada Era de Ouro do rádio, a invenção da bossa nova e a realização de espetáculos que se remetem a gêneros musicais considerados tradicionais. Parte de sua carreira vincula-se à fase em que o rádio é o principal meio de divulgação da música popular. Nesta fase, registra canções de compositores como Pixinguinha (1897-1973), Ary Barroso (1903-1964), Custódio Mesquita (1910-1945), Noel Rosa e Tito Madi (1929). Até então, seu repertório constitui-se, sobretudo, de sambas-canções, gênero do qual ela se torna referência.

Por: Marco Antônio Vilarinho

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