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Apesar de virtuosismo técnico, longa '1917' não desenvolve personagens

O longa "1917" acompanha os dois soldados britânicos numa missão arriscada durante a Primeira Guerra Mundial.

23/01/2020 10:16h

Um dos jovens soldados no centro de "1917" faz pouco caso das glórias oferecidas pelos campos de batalha ao revelar ao amigo que trocara por uma garrafa de vinho francês uma medalha que recebera por sua bravura. "Eu estava com sede", ele justifica. "Que desperdício", responde o companheiro.

Poderia ser o ponto de partida para um exame mais profundo dos dois personagens e suas diferentes visões sobre a guerra, mas o diretor Sam Mendes desperdiça a chance e muda de assunto. Quando o filme chega ao fim, sabemos tão pouco sobre os seus protagonistas quanto no início.


O longa "1917" acompanha os dois soldados britânicos numa missão arriscada durante a Primeira Guerra Mundial. Eles têm poucas horas para levar uma mensagem urgente do comando militar até uma posição avançada onde um regimento entrincheirado se prepara para atacar os alemães.

Os generais britânicos descobriram que o exército inimigo está pronto para reagir à ofensiva. Como as comunicações com a linha de frente foram cortadas, a mensagem levada pelos dois soldados é a única maneira de suspender o ataque antes que o regimento seja trucidado pelos rivais.

Composto por longas sequências editadas como se formassem um plano único sem cortes, com emendas quase imperceptíveis, o filme é uma impressionante exibição de competência técnica e eficiência logística, em que cada cena foi planejada minuciosamente antes das filmagens.

O recurso permite que o espectador acompanhe a ação quase em tempo real, com a câmera inquieta se movendo constantemente para não perder de vista os dois soldados enquanto eles percorrem as trincheiras e as ruínas de lugarejos destruídos por bombardeios até alcançar seu objetivo.

Mas, com o tempo, se percebe que o virtuosismo técnico é uma armadilha, aprisionando os personagens nos limites estreitos que Mendes estabeleceu e impedindo que a trama se desenvolva e ofereça ao espectador algum entendimento do que foi um dos conflitos mais sangrentos da história.

Há momentos de tirar o fôlego, como a queda espetacular de um avião após um combate aéreo observado à distância pelos protagonistas. Mas eles parecem ter entrado no filme só para satisfazer o exibicionismo do diretor, sem cumprir nenhuma função relevante para a história.

Interpretados por George MacKay e Dean-Charles Chapman, os dois soldados encontram pelo caminho um punhado de atores do primeiro time, de Colin Firth a Benedict Cumberbatch, mas ninguém perde tempo com reflexões. Tudo passa, como se apenas o cumprimento da missão confiada aos garotos importasse.

Os encontros com o inimigo são igualmente decepcionantes. Só em uma cena o rosto de um soldado alemão é visto com alguma nitidez, mas ele desaparece depois de pronunciar uma palavra e após uma luta corporal que o artificialismo da encenação de Mendes esvazia de interesse e emoção.

No fim, um letreiro dedica o filme a Alfred Mendes, avô do diretor que lutou na Primeira Guerra e sobreviveu para contar o que viu. Se ele conseguiu extrair alguma lição da dramática experiência, é uma pena que seu neto não tenha conseguido traduzi-la ao levar para a tela as suas histórias.


1917

Produção Reino Unido/EUA, 2019

Direção: Sam Mendes

Elenco Dean-Charles Chapman, George MacKay, Colin  Firth e Benedict Cumberbatch

Classificação 14 anos. 

Estreia nesta quinta (23)

Avaliação Regular

Por: Ricardo Balthazar - Folhapress

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