Urbanização aumenta disparidades de uma sociedade já segregada

A história do pedreiro que contribuiu para construção de grandes condomínios e hoje mora de favor, ilustra o problema social

03/06/2017 09:18h

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Delfina Fernandes, de 76 anos, tem um ritual diário: ao fim da tarde, senta na calçada da casa, ao lado da irmã, enquanto observa o fluxo lento de carros e pessoas que passam pela rua de calçamento. Apesar da cena parecer pacata, a senhora afirma que o medo de assaltos a deixa sempre sobressaltada. “Hoje em dia, a gente não sossega mais”, afirma. 

A poucos metros dali, em um dos condomínios de apartamentos que se distribuem ao longo da Avenida Marechal Castelo Branco, quem escolhe descansar e acompanhar o fim de tarde dentro das grades e dos muros não sente a mesma sensação. Aportado por estruturas reforçadas, aparelhos e equipe de segurança, o medo de alguma intervenção da violência urbana não acaba por completo, mas se dissipa pelo amparo disponível na grande estrutura de moradia.

Os dois cenários escancaram uma realidade vigente na sociedade: a propagação de grandes empreendimentos de habitação aumenta as disparidades socioeconômicas de uma sociedade brasileira já bastante segregada. Quem vive do lado de fora das grandes fortalezas residenciais se expõe a uma realidade que se polariza nesses contrastes urbanos. 

Expostos 

Na casa que divide com outras quatro pessoas, Delfina tentou, com o orçamento disponível na renda de todos os moradores, deixar a casa o mais segura possível. Isso significou a inserção de grades de ferro nas portas e janelas, mas a falta de um forro no teto e a baixa altura da casa são preocupações para a professora aposentada. “Queria aumentar as paredes, elas são muito baixas e fica fácil alguém subir pelo teto, mas a gente nunca teve condições”, explica. 


Delfina Fernandes, de 76 anos, mora em uma casa simples, ao lado de condomínios de luxo (Foto: Jailson Soares/ODIA)

Os muros altos, que cotidianamente fazem parte da sua rotina, são dos grandes prédios residenciais que se concentram à esquerda de onde ela mora. Lá, cercas elétricas, câmeras de segurança e grades isolam os moradores do convívio externo. Mas nem sempre foi assim, como lembra a aposentada. “Quando cheguei aqui, na década de 70, não tinha todos esses prédios. Era um aqui outro acolá, mas não tantos assim. Meus primos, que moravam ali naqueles terrenos, todos saíram. Receberam uma indenização pouca e foram morar em outro lugar. Graças a Deus eu continuei aqui”, comemora Delfina. 

Eliete Sousa, de 63 anos, também lembra como era o bairro há poucas décadas. A senhora que vive em uma casa humilde, a mesma que construiu com o marido na chegada à região, fala dos incômodos em relação ao cenário. “Quem tem dinheiro pode morar aí nesses prédios. Quem não tem, como nós, vive aqui mesmo. É mais perigoso, mas é nossa única opção”, comenta. 

Enquanto as classes alta e média-alta estão “trancadas” em sua própria forma de convívio e, por isso, raramente têm de sair desses espaços graças às amenidades proporcionadas dentro deles, os demais sentem-se cada vez mais expostos à violência da sociedade. No entanto, a arquiteta e urbanista, Indira Matos, destaca que há uma falsa sensação de segurança tanto para quem vive fora quanto dentro dos grandes empreendimentos residenciais. “As pessoas se isolam e esse isolamento, ao contrário do que muitos pensam, potencializa cenários mais violentos”, destaca. 

Nesta reportagem, ODIA discute os diversos fatores que levam à propagação do atual arranjo urbano, cenários para o reforço da segregação social.

Contradição

A zona Leste de Teresina se constituiu, ao longo dos anos, como uma área nobre da cidade. A região atrai investimentos de alto porte, tanto empresariais quanto residenciais, reforçando esse perfil delineado historicamente. No bairro Morros, vários empreendimentos residenciais – condomínios de casas e apartamentos – se distribuem para atender a demanda de pessoas que busca um estilo de moradia cada vez mais aportado de segurança. Observando para além dos grandes muros, o cenário é de contradições. 


O pedreiro Antonio Silva mora de favor, após ter construído grandes condomínios (Foto: Jailson Soares/ODIA)

A vida de Antônio da Silva deixa claro o porquê das discrepâncias. Até antes da crise atingir em cheio o setor de construção civil, ele trabalhava como pedreiro para uma das grandes empresas do setor na Capital. Foi com esse trabalho que ele contribuiu para a construção de alguns dos residenciais que fica a poucas quadras de onde ele mora, mas em uma realidade totalmente diversa. “Fiz as escadas de mármore de muitos daqueles condomínios”, comenta. 

Hoje, após perder o emprego, Antônio mora de favor em uma casa junto com a esposa e a filha. Os índices de violência da região preocupam o trabalhador, que já criou estratégias para não ser alvo de criminosos. “Quando é de tardezinha, a gente já não sai de casa. Aqui é um perigo danado, porque eles assaltam de mão armada, levam moto e tudo da gente”, desabafa em tom de preocupação. 

Cachorros protegem também a residência, que é simples e sem muitos recursos de segurança. “Pra gente, resta a sorte”, afirma. 

Ao longe, os grandes conglomerados de casas e prédios de luxo expõem as fronteiras que separaram realidades que convivem tão próximas:  a desigualdade de renda e oportunidades.

*A reportagem completa está na edição de Fim de Semana do Jornal O DIA.

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O DIA

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