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Teresina consolida a cultura de viver o carnaval antes dele acontecer

Seja nas ruas ou festas em bares e restaurantes, não faltam opções a cada fim de semana para os teresinenses aproveitarem as prévias carnavalescas.

20/01/2018 08:39h

O ano mal tinha começado quando o primeiro grito de carnaval – expressão que anuncia o início das primeiras festas voltadas a folia de momo – foi dado. Em Teresina, no primeiro fim de semana do ano, a cidade já se dividia entre opções de festas particulares e de rua para anunciar a proximidade do carnaval. Mas o cenário não é exclusivo deste ano: a Capital do Piauí tem se consolidado como um reduto de prévias carnavalescas. Aqui, para quem gosta da folia, o carnaval já começou.

Sejam nas ruas com entrada gratuita ou festas em bares e restaurantes; organizadas de forma independente por grupos de amigos ou familiares, não faltam opções a cada fim de semana.

O fato é que com o cenário de prévias, não só ganha o folião. O mercado formado para atender a demanda das festividades que se espalham pela cidade é fortemente aquecido. Vendedores ambulantes, depósitos de bebidas, lojas de fantasias, empresas de equipamentos de som e estrutura destacam-se em demanda durante o período.

Nesta edição, O Dia traz a opinião de foliões, gestores culturais e artistas para debater a consolidação da cultura de prévias em Teresina. Enquanto o Carnaval da Capital busca oxigenar-se, as prévias já mostraram a que vieram: dar opções aos foliões teresinenses que querem viver o espirito da festa da alegria – mesmo antes dela acontecer de fato.

Os porquês da folia antecipada

Marlon Rodner é coordenador de Música da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, entidade que dá apoio aos bailes pré-carnavalescos e carnavalescos em Teresina, e faz uma avaliação do contexto que levou a Capital do Piauí a ter suas prévias fortalecidas ao longo dos anos. 

“Do carnaval em si, o que temos nos atentado é que a maioria da população teresinense é constituída de filhos de fora e a gente vê que aproveitam a época para voltar para sua cidade. As cidades do interior fazem carnavais e um carnaval diferente do nosso, que leva grandes bandas, enquanto aqui trabalhamos os artistas locais. Nos últimos anos, temos fortalecido os blocos para não deixar a festa ligada só a Avenida e tem sido positivo”, comenta. 

E se Teresina fica esvaziada durante os dias ‘oficiais’ da folia de momo, é natural que festas que antecedem a data oficial ganhem uma maior proporção. Foi assim com o Corso, que atualmente se destaca como a maior prévia carnavalesca da cidade.

Mas nem sempre foi assim. A festa existe a mais de 80 anos na capital e começou de forma tímida. Foi só no final da década de 1990 que o evento ganhou força e só nas décadas seguintes que virou fenômeno do momento. Transformando-se, em 2012, como o maior corso do mundo.

O título foi comprovado com a vinda de um representante do Guinness Book, o livro dos Recordes, que registrou a marca de 343 veículos decorados no desfile, número que consta na publicação até hoje.

“O corso tomou essa proporção que tem hoje se consolidando realmente como um zé pereira, como a grande prévia de Teresina, mas é claro que também temos acompanhado com satisfação a retomada dos bailes carnavalescos dos clubes e festas de rua”, destaca Marlon. (Glenda Uchôa)

A cada ano, um aprendizado

A festa que já reuniu mais de 300 mil pessoas pelas ruas de Teresina exige uma logística única. É por isso que cada ano de realização, o feedback dos entes públicos envolvidos e do próprio folião deixam aprendizado para o que deva ser alterado ou extinto para a próxima edição. Este ano, o Corso terá a presença de paredões de som e cerca de 200 metros de pontos de distribuição sonora.

“Este ano foi decidido teremos a participação de paredões de som que fazem parte da Associação Piauiense dos Amantes de Som Automotivo (APISOM). Também teremos um Bandão tocando frevo e marchinhas distribuído pela Avenida, além de 200 metros de sonorização, com caixas de som instaladas para os locais onde não estiver atingido por essas bandas de fanfarra”, explica Marlon. Neste ano, o Corso acontece dia 3 de fevereiro na Avenida Raul Lopes. (Glenda Uchôa)

“As prévias são a melhor época para extravasar”, afirma foliã 

São sete irmãs e muito mais que o mesmo sangue, elas têm um outro denominador comum: a paixão pelas prévias carnavalescas de Teresina. Conhecidas como ‘As Guimarães’, a família é um verdadeiro reflexo de como as prévias tem ocupado lugar de importância dentro da cultura da cidade.

“A gente passa o ano se preparando para brincar nas prévias da cidade. Somos sambistas de carteirinha, mas as prévias são a melhor época para extravasar. Somos sete irmãs e cinco estão sempre juntas: somos conhecidas como As Guimarães, sempre animando as prévias da Capital”, explica Tatiana Guimarães, a Taty, uma das irmãs apaixonadas pela folia antecipada do carnaval.

Além dos redutos de samba, Taty explica que é presença constante na Banda Bandida, prévia carnavalesca que acontece aos sábados em Teresina. Mas elas não se limitam apenas ao que a Capital oferece - as Guimarães também organizam suas próprias prévias – são os gritos de carnaval - e de independência - feitos anualmente.

Um dos anos, por exemplo, as foliãs organizaram o “Bloco do Cateter”, no período em que uma das irmãs enfrentada um tratamento contra o câncer. Sinal de que nem mesmo uma doença tira o pique da folia, o que faz toda diferença no modo como, mesmo em meio as dificuldades, as irmãs conseguem ver o lado feliz da vida.

Para este ano, Taty lembra que acontecerá o “GuimaFolia”, festa organizada por elas para brincar o período carnavalesco da cidade. “Teresina é linda, é acolhedora, mas ainda não sabe utilizar seu potencial turístico. Mas a animação chama a atenção. A gente vê nos locais que investem em shows... Um exemplo é nosso Corso, que tem uma bela história e cresceu. De todo modo, somos apaixonadas pelas festas da nossa cidade”, confirma a foliã, que guarda em fotos as lembranças das muitas prévias que passou e, certamente, espaço para as muitas que tem por vir. (Glenda Uchôa)

Baile dos artistas e o resgate das marchinhas

As marchinhas animam o público e fazem parte da tradição carnavalesca no Brasil. Por muito tempo, o estilo foi esquecido nas festas da folia de momo, sendo substituída por outras vertentes musicais como axé ou swingueira. No entanto, a tradição vem sendo resgatadas e prévias carnavalescas como o Baile dos Artistas trazem à tona modo tradicional de brincar o período em Teresina.

De acordo com João Vasconcelos, coordenador do Complexo Cultural Clube dos Diários/Theatro 4 de setembro, o baile é a festa de carnaval mais tradicional entre os artistas da cidade e tem como objetivo manter viva as memórias das festividades que historicamente aconteciam na Galeria do Theatro. 

“O outro ponto é que movimentamos a classe artística, que se permite utilizar fantasia mesmo fora do período de carnaval, mas que também convida o público a fazer isso e a brincar esse período de forma tradicional”, destaca.

Nesta edição, que é a quarta consecutiva da festa, uma novidade: as crianças também terão seu momento festivo. “O baile deste ano terá uma novidade, que é o Baile Mirim, às 17horas, no mesmo dia 2 de fevereiro; e para os adultos a festa acontece às 21horas”, explica.

Em ambos os cenários, o baile faz a disputa do rei e rainha da festa, tanto mirim quanto adulto, que participam da competição através da escolha da melhor fantasia ao embalo de muitas marchinhas.

Ao todo, a festa terá 12 horas de duração com a apresentação de quatro bandas e acontece na galeria do Theatro 4 de Setembro no próximo dia 2 de fevereiro. A entrada é a doação de um kilo de alimento. (Glenda Uchôa)

Giro da economia 

Enquanto os foliões aproveitam as prévias para descarregar as energias e apreciar a alegria das opções que se distribuem pela cidade, muitos também utilizam o período para lucrar durante o período. Os vendedores ambulantes são um exemplo claro de que a cultura de prévias faz a economia girar dentro de Teresina.

Há dois anos, João Santos aproveita as prévias da Banda Bandida, Centro da cidade, para garantir uma renda extra para sua família. “As coisas estão difíceis e é com esses bicos que conseguimos equilibrar o orçamento. É o segundo ano que venho e a gente consegue vender cerca de 50 cervejas, além das outras opções, por noite”, considera.

Estabelecida como um carnaval fora de época que acontece de forma aberta ao público, é comum vendedores de bebidas e alimentos se concentrarem ao longo do espaço festivo.

Os bares da redondeza também costumam lotar durante o período, fazendo com que a preparação para a época seja intensa. O folião Pedro Sousa comemora não só a opção do local para se divertir, mas entende isso como um benefício geral para a cidade. “A população tem que se apropriar desses espaços e o poder púbico também. É visível que é bom para quem vem e para quem consegue uma renda através disso”, finaliza.  (Glenda Uchôa)

Por: Glenda Uchôa

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