Perspectiva 2021: “Temos um baixo teto de recuperação econômica para 2021”

Analisando a trajetória econômica brasileira desde a década de 80, economista retrata cenário desafiador, potencializado pela pandemia do coronavírus

31/12/2020 09:02h

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A singularidade do ano de 2020 somada aos percalços econômicos enfrentados pelo Brasil nos últimos anos trarão reflexos importantes para os próximos 365 dias. Analisando toda essa conjuntura, o economista Fernando Galvão é categórico ao afirmar que “temos um baixo teto de recuperação econômica para 2021”.

Segundo o especialista, o cenário de incertezas, provocado, sobretudo, pela pandemia do novo coronavírus, exige cautela por parte dos cidadãos, dos governos e das empresas. “Se a gente olhar o comportamento de 2020 e tentar pensar no que pode acontecer em 2021, nós não conseguimos baixar a poeira das incertezas. Quando a gente está em um cenário de muita incerteza, a gente não consegue olhar o longo prazo e o médio prazo com exatidão, com precisão. A gente consegue ver, no máximo, curto e curtíssimo prazos. E nesse contexto é preciso cautela, é preciso muita precaução, sobretudo no que diz respeito a se preparar para o inesperado”, pontua.

Foto: Jailson Soares/ODIA

Galvão explica que essa insegurança compromete as tomadas de decisões no presente e impacta diretamente no futuro. “O futuro é fruto das decisões que a gente toma agora, no presente. O detalhe é que tomar decisões agora está muito complicado. Expandir os gastos da família, por exemplo, é delicado nesse exato instante, ou uma empresa expandir suas operações, seus investimentos, também é delicado. Do ponto de vista dos governos, que precisam fazer com que se gere mais com o mínimo de recursos aplicados possíveis... tudo isso faz com que a engrenagem econômica possa estar girando mais rapidamente ou mais lentamente. Um ambiente contaminado de incertezas dificulta e nos impede de olhar no futuro”, pondera.

Trajetória econômica

Considerando a economia brasileira desde a década de 80 até os dias atuais, Galvão mostra-se pessimista quanto à recuperação das perdas para 2021. “A economia brasileira está em um momento de muitas dificuldades. De 1980 a 2014, a economia cresceu, em média, 2,8%, é um percentual muito baixo e, olha, que tivemos bons desempenhos econômicos nesses anos. Se a gente pegar a recessão de 2015/2016, derrubou a atividade econômica para baixo de zero. A recuperação vai se dar em 2017/2018, só que foi uma recuperação que só se conseguiu crescer 1,3%, muito abaixo dos 2,8%. Em 2019, a gente cresceu 1,1%. Então, antes da Covid, já se estava desacelerando e, em 2020, fomos atingidos em cheio por esse iceberg”, detalha.

Quando tudo isso se acumula ao longo dos anos, Galvão destaca que se chega a um patamar de incapacidade brasileira de gerar riquezas, que repercute também na capacidade do país de honrar os compromissos financeiros adquiridos.

“Então, apesar dos juros baixos, a 2%, a nossa capacidade de crescimento está tão pequena que está sendo colocada em xeque. A gente vai ter dificuldade de rolar nossa dívida [externa] de longo prazo e isso é um fator cronicamente limitador da nossa capacidade de recuperação econômica. Então, com os impactos da Covid, deterioração da dívida e o teto baixo do PIB brasileiro, nossa credibilidade internacional está comprometida, mesmo tendo o mais baixo patamar de taxa de juros da história”, explica.

Associado a esses fatores, o economista elenca os altos índices de desemprego e a alta informalidade como catalisadores da queda do rendimento das famílias e da capacidade de consumo, que são importantes vetores de ativ idade econômica. “Se o consumo tiver deprimido, fica comprometido o investimento das empresas, que é outro grande vetor de crescimento econômico. Eu vou investir em um mercado de consumo que tá baixo?”, indaga o especialista.

Outro ponto destacado por Galvão dentro desse cenário desafiador é a alta inflação nos preços dos alimentos, que está se espraiando para outros setores. “A gente pode dizer que têm alguns tipos de inflação, a inflação de custo, onde as empresas repassam para as pessoas; tem a inflação de demanda, que é quando muita gente quer comprar um produto; e o outro tipo de inflação, que é muito perigoso, é a inflação inercial, ou seja, quando alguns setores da economia aumentam os preços independente de demanda ou de custo para tentar majorar seus preços, suas margens de ganho, e isso se torna muito perigoso porque você tem um aumento artificial dos preços e a gente está num cenário de alto desemprego e alta informalidade. Quando a gente coloca tudo isso dentro do caldeirão econômico, temos um baixo teto de recuperação econômica para 2021”, analisa.

Especialista sugere economia colaborativa e criativa como alternativa para o futuro

As profundas e aceleradas transformações desencadeadas pela pandemia do novo coronavírus nos levam a refletir sobre qual será o futuro da sociedade. No âmbito econômico, Fernando Galvão faz sua aposta: “é através de uma economia colaborativa, compartilhada e criativa, construindo redes de pessoas, de governos e de empresas, que a gente é capaz de superar esses grandes desafios”.

O economista cita como exemplo desse novo viés econômico um grupo de amigos teresinenses que, diante da alta do preço da carne bovina, se organizou para comprar um boi, na zona rural da cidade, e assim conseguir o alimento por um preço mais vantajoso. “Nem todo mundo consegue fazer isso, mas foi a alternativa encontrada por esses amigos. Eles ratearam a carne do boi e, em média, o preço do quilo ficou R$ 18, sendo que hoje, nos supermercados, a média do preço do quilo da carne bovina é R$ 30, se for carne nobre, sobe para R$ 60 o quilo. Então, esse é um exemplo de organização do mercado de consumo para tentar driblar essas altas de preços no mercado de carnes. Precisamos encontrar outras alternativas e estratégias para o consumo de outras coisas também. As redes sociais podem ajudar nisso. Se você criar grupos para compartilhar onde encontrar preços mais baixos, a gente consegue se esquivar um pouco de preços altos”, exemplifica.

Galvão pontua também que essa lógica pode ser aplicada a governos e empresas. “O Consórcio Nordeste, por exemplo, se juntou exatamente para fazer compras conjuntas mais em conta, porque, assim, se tem um poder de barganha maior e depois os Estados rateiam o resultado dessas compras. Para os municípios que elegeram seus representantes agora, uma alternativa são os consórcios municipais, seja de gestão da água, dos resíduos sólidos, ou em outras áreas. A gestão pública precisa buscar essas alternativas, mais de rede colaborativa, compartilhada e criativa”, indica o economista.

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Por: Virgiane Passos, do Jornal O Dia

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