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Intervenções na mobilidade urbana em Teresina penalizam espaço para ciclistas

Dados da União de Ciclistas do Brasil revela que a implementação do sistema de transporte Inthegra acabou por extinguir 25% a estrutura cicloviária da Capital.

26/05/2018 07:49h - Atualizado em 26/05/2018 08:23h

Carlos Augusto, aos 66 anos de idade, traz na memória uma cidade que viu mudar e se expandir de perto. Para ele, sempre foi especialmente fácil notar a nova via que surgia, a Avenida que se tornava pavimentada ou criada nas diferentes zonas da cidade, por acompanhar tudo enquanto pedalava por Teresina. Essa experiência de transitar de bicicleta pela cidade, não o faz titubear ao afirmar: “como ciclistas, somos esquecidos pelo poder público”, considera.

A impressão do senhor se converte em números. Teresina, que até ano passado tinha pouco mais de 40 quilômetros de malha cicloviária - entre ciclovias e ciclofaixas -, por conta das recentes intervenções para implementação do novo sistema de transporte público urbano da capital, o Inthegra, teve cerca de 25% de sua estrutura cicloviária extinta.

Essa redução de espaços se deve ao estreitamento de cerca de dez quilômetros de ciclovias referentes às Avenidas Presidente Kennedy, na zona Leste, e Miguel Rosa, na zona Sul de Teresina, que foram estreitadas para dar lugar aos corredores exclusivos de ônibus.


“Como ciclistas, somos esquecidos pelo poder público”, diz o senhor Carlos Augusto (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Os dados são da pesquisa levantada pelo membro da União de Ciclistas do Brasil (UCB) e arquiteto, Luan Rusvell.

Outro grande déficit acrescido a esta realidade foi a retirada total da ciclovia presente na Avenida Duque de Caxias, na zona Norte de Teresina, uma das principais rotas de circulação das pessoas que utilizam o transporte não motorizados na Capital.

“Desde criança que ando em Teresina de bicicleta e sempre vejo que as mudanças nunca vêm para melhorar a realidade do ciclista. Estamos sempre expostos e, agora, com ciclovias que disputam lugar com pedestres, árvores e postes”, destaca o aposentado Carlos Augusto.

A Prefeitura de Teresina, desde 2015, possui um Plano Diretor Cicloviário no qual aponta diretrizes para o cenário. Entre os aspectos destacados estão a prioridade no sistema viário para modos de transporte movidos a propulsão humana (seguido pelo transporte coletivo e, por último, pelo transporte individual motorizado).


Foto: Jailson Soares/O Dia

O documento também aponta o investimento neste setor como forma de redução das desigualdades e promoção da inclusão social, equidade no uso do espaço público de circulação, além da integração entre os modos e serviços de transporte urbanos.

Em um período de crise de combustíveis, se torna urgente discutir outras formas de transporte dentro da cidade. As ciclovias, de certa forma negligenciadas dentro das intervenções urbanas, agora se mostram como opção mais que viável para a promoção de um transporte independente e socialmente positivo.

Expostos: Ciclistas relatam insegurança

Luis Cláudio é pai de três fi­lhas e se esforça para participar das atividades da vida diária de todas. É dele a responsabili­dade, por exemplo, de sempre deixar duas delas na escola, a Jordânia, de 9 anos, e Bianca, 12 anos. E para fazer isso, Luis usa seu meio oficial de loco­moção: a bicicleta. Como pai, trabalhador e usuário de um veículo não motorizado, ele fala do medo que grande par­te dos ciclistas também apon­tam: a insegurança no trânsito.

A sensação, segundo os usuá­rios do transporte, é de estarem expostos dentro da malha viá­ria da cidade. Isso porque nem todas as zonas de Teresina pos­suem ciclovias ou ciclofaixas destinadas a essa categoria de condutor, o que acarreta, in­variavelmente, que muitos dos ciclistas disputem espaços nas vias com carros e motocicletas.

“Pensaram nas paradas e es­queceram os ciclistas. É claro que ter um transporte público que funcione é muito impor­tante, mas nós não poderíamos ser negligenciados. A bicicleta é um meio que promove a saúde da população e não é in­centivada dentro do arranjo da cidade”, destaca Luis Cláudio.


"É claro que ter um transporte público que funcione é muito impor­tante, mas nós não poderíamos ser negligenciados", diz Luís Cláudio (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Ele costuma percorrer cerca de 20 quilômetros, diariamen­te, com o uso da bicicleta. Ao transportar as filhas, o cuida­do é redobrado, mas mesmo assim situações de risco são comuns no cotidiano da famí­lia. “Vamos do Parque Piauí ao bairro Três Andares e o cui­dado é enorme, mas estamos expostos. Nas ciclovias que existem, temos que disputar o lugar com pedestres, árvores, postes e elas não estão interli­gadas”, acusa.

Os apontamentos de Luis também são compartilhados por Altemar Dutra, que não se sente seguro dentro da malha viária da Capital. Para ele, pou­co adianta utilizar as ciclovias, já que para chegar ao Centro da Cidade, seu objetivo diário, ele sempre tem de sair do local destinado aos ciclistas.

“As ciclovias vão se compli­cando no percurso. Em algu­mas partes, ainda tem material da construção dos terminais que inviabiliza nossa passa­gem. É hora de ter mais aten­ção para quem anda de bicicle­ta em Teresina”, solicita.

Novas ciclofaixas estão em locais desertos, diz ciclista

Os ciclistas que residem no bairro Primavera, zona Nor­te de Teresina, e precisam se deslocar para o Centro, por exemplo, costumavam passar pela Avenida Duque de Ca­xias, e utilizar as ciclovias ao longo de toda a via. Contudo, desde que foram iniciadas as obras de construção do corre­dor exclusivo do novo sistema de integração de transporte público da região, essas vias destinadas aos ciclistas foram extintas.

Quem precisa transitar to­dos os dias pelo local sente a dificuldade que é dividir o espaço na avenida com carros, motocicletas e ônibus. Jairo Paulo Araújo dos Santos (30) passa pela via praticamente todos os dias e enfatiza que o passeio exclusivo para os ci­clistas era o principal meio de locomoção para quem faz uso desse transporte.


Foto: Jailson Soares/O Dia

“Eu me sentia mais seguro andando pela ciclovia, porque a gente não tinha que ficar se preocupando com os carros, mas agora que tiraram ficou muito ruim, porque temos que desviar dos veículos e é perigoso. Colocaram as faixas de ciclistas em outras mais para dentro do bairro [aveni­das Roraima e União], mas essa é o nosso caminho prin­cipal”, comenta.

Ele enfatiza que mudar a rota das pessoas não é mui­to favorável, sobretudo para vias com pouca movimenta­ção de pedestres e veículos, sujeitando os ciclistas a ris­cos como assaltos. “O cor­reto mesmo é a gente pegar a avenida principal, que é a que a gente usa todo dia, desde sempre. Mas eles tira­ram esse privilégio da gente. Eu mesmo não vou deixar de andar pela avenida que sem­pre ando para ir por outra mais longe e mais perigosa”, enfatiza.

O autônomo Josimar Go­mes (50) reside no bairro Mocambinho e também passa pelo local diariamente. Ele co­menta que a ciclovia era bas­tante utilizada e os usuários foram muito prejudicados, beneficiando apenas os moto­ristas. O morador ainda acres­centa que tem receio de andar na mesma via que os carros, mas prefere se arriscar do que ir para outras ruas menos movimentadas.


Foto: Jailson Soares/O Dia

“Eu tenho medo, mas a gen­te anda porque é o jeito. A op­ção que deram foi andarmos por outras ruas, no morro, mas é deserta e perigosa. De­viam ter aprimorado a avenida de um jeito que a gente não fossemos prejudicados, mas só querem beneficiar os moto­ristas”, argumenta.

Contraponto

Em nota, a Superintendên­cia Municipal de Transporte e Trânsito (Strans) informa que as ciclovias da Avenida Duque de Caxias foram transferidas para as ruas perpendiculares por conta da implantação do Corredor Norte e que faixas estão sendo pintadas com for­ma de orientar os ciclistas.

Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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