Em Teresina, funcionário dorme no trabalho porque não tem ônibus para voltar para casa

Dilema do transporte de Teresina tem feito a população se expor à violência tarde da noite nas paradas.

26/09/2021 13:16h - Atualizado em 26/09/2021 17:17h

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Que Teresina vive um caos com um sistema de transporte falho e ineficiente já não é mais novidade. Que os teresinenses têm dificuldade de ir e vir dentro da cidade e acabam gastando mais do que possuem para poder se locomover também não é mais algo novo. Mas em meio a essa crise dos ônibus na capital, um fato tem chamado a atenção. Até os ônibus que ainda circulam, não fazem todas as viagens que têm que fazer e acabam deixando os usuários na mão.

E tem gente que, sem condição de voltar para casa por outros meios, não vê outra saída que não pernoitar no local de trabalho até que, no dia seguinte, consiga uma condução. É esse o caso do impressor Adalmir Barbosa, 57 anos. Trabalhando em uma empresa no Centro de Teresina, ele sai do serviço por volta das 22 horas todo os dias para tentar a sorte na parada e pegar a última viagem do ônibus que faz linha para o bairro onde mora.

Só que não é sempre que ele passa. E quando isso não acontece, Adalmir se vê obrigado a retornar para a empresa, dorme por lá e no dia seguinte pega o ônibus na primeira viagem para retornar para casa. À reportagem do Portalodia.com ele relatou a situação.

“Eu pego a linha 507, Jardim Europa. Tem dia que passa na hora e tem dia que nem vai. Ele passa por volta das 22h20 no Centro via Shopping e quando eu consigo pegar, chego em casa já é mais de 23h. Mas não tenho certeza se ele vai passar todo dia e quando ele não passa, eu volto pra empresa. Se tenho condição de chamar um carro, eu chamo, mas se não, o que acontece na maioria das vezes, eu fico por lá mesmo, durmo lá e no dia seguinte saio bem cedo pra pegar o primeiro ônibus para casa”, relata.

A dificuldade em chamar um carro por aplicativo, ele diz, é porque os motoristas ficam com medo de pegar corridas para o Centro de Teresina tarde da noite e a tarifa, por conta das pessoas nas paradas chamando veículos ao mesmo tempo, sobe para os valores dinâmicos.

Adalmir conta que anda de ônibus em Teresina há três décadas e que nunca pensou que viveria algo parecido. Ele comenta que o sistema de transporte da cidade “parece que foi piorando ao longo do tempo”. O impressor reclama do fato de não haver ônibus suficiente rodando na capital, da demora e do risco a que se expõe todos os dias tarde da noite na Frei Serafim, tendo que esperar por uma condução que talvez não venha.

“Antes tinha ônibus a noite inteira, tinha o Corujão, tinha os horários certos. Hoje, não passa nada e quando passa, não tem nem horário. A gente que adivinhe onde ele está e vá na sorte pra parada com medo de ser assaltado. Quando demora demais e eu sei que ele não vem mais, eu prefiro voltar pra empresa, fico lá com o vigia e de manhã cedo, quando estiver claro e tiver mais movimento, eu vou pra parada de novo”, finaliza Adalmir.

Foto: Assis Fernandes/ODIA

Usuários denunciam descumprimento da quantidade de voltas


Outro que também procurou o Portalodia.com para denunciar problemas com o transporte de Teresina foi o designer gráfico Glauber Calland. Todos os dias, ele sai por volta das 21 horas do trabalho e pega a linha 603 Parque Jurema Miguel Rosa em sua última viagem. Só que nos últimos dias, ele diz que tem ficado só na espera mesmo. É que o carro que, segundo ele, deveria passar por volta das 21h20 na Frei Serafim não está passando.

“A última viagem dele tem sido 20h e quem pegou, pegou. Quem não pegou, boa sorte. Tem uns dois meses que ele estava passando normal, mas nos últimos dias, não passou mais nesse horário e essa semana fomos surpreendidos com a informação de que a última viagem não existe mais. Eu sempre peguei esse ônibus nesse horário de 21h e agora nem isso tem mais. A saída é ficar pagando mais caro pra ir de aplicativo. Eu vou pra parada, nada do ônibus, então tenho que voltar pro trabalho e chamar um carro”, explica Glauber.

Mas enquanto tem aqueles que ainda tentam a sorte nas paradas, há os que até isso já desistiram de fazer. É o caso da vendedora Joyce Lima, que trabalha no shopping. Ela sai do serviço às 22h todos os dias de segunda a sábado e já fechou contrato com uma amiga que mora na direção dela para conseguir carona e voltar para casa. Ela diz que é mais vantajoso e menos arriscado que ficar esperando por uma condução que não sabe se vem.

“Eu divido a gasolina com essa minha amiga, pago R$ 60 todo mês porque moro perto do shopping e é caminho pra ela. Antes da pandemia até dava pra ir pro trabalho de ônibus, mas a volta já era mais complicada por causa do horário e da demora. Depois dela, ficou tudo pior, porque os ônibus que passam só rodam em horário comercial e quem fica até mais tarde no serviço, fica desassistido. E se você trabalha no final de semana, desista, porque nem ônibus tem”, diz Joyce.

O outro lado

O Portalodia.com entrou em contato com a Superintendência de Trânsito (Strans) de Teresina, que disse que os ônibus estão circulando dentro de uma ordem de serviço e lembrou que a cidade está em meio a uma pandemia. A assessoria informou que iria checar com o setor de fiscalização o cumprimento dos horários dos ônibus, mas até a publicação desta matéria, a reportagem não teve retorno. O espaço segue aberto para futuros esclarecimentos.

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