Cotistas ainda enfrentam preconceito em instituições de ensino superior

Estudantes relatam ‘olhares tortos’ e comentários preconceituosos de professores e colegas

19/07/2017 07:48h

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A inserção do sistema de cotas ou ação afirmativa para alunos negros, indígenas e de escolas públicas ingressarem em Instituições de Ensino Superior, durante muito tempo, sofreu severas críticas. Mesmo após cinco anos da criação da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012), os intitulados “cotistas” continuam passando por diversas situações constrangedoras, racistas e preconceituosas. 
O cotista e estudante de direito, Lucas Viana, destaca que, em se falando de preconceito, não se deve personalizar desigualdades. Para ele, existe preconceito sim contra os cotistas, pois muitos ainda se baseiam na meritocracia (mé- rito acima de tudo) dentro da universidade. Por isso, ele defende e luta por mais debates voltados à temática, a fim de mostrar às pessoas a importância do sistema, o sucesso e a inclusão social com a qual trabalha, de forma a desmistificar muitos tabus que existem ao redor do assunto. 

Alunos destacam importância da Lei de Cotas no Brasil (Foto: O Dia)
“As pessoas acham que colocar uma reserva de vagas para alunos de escola pública, negros e indígenas, vai quebrar a meritocracia tão prezada na universidade. Só que a meritocracia não atende a necessidade de todos. Já soube de vários casos de professores dizendo que não deveria ter cota, que as pessoas negras cotistas não deveriam estar ali. Soube até de um caso cuja professora falou que, depois que adotaram o número de cotas, aumentou a quantidade de pessoas analfabetas. O que é totalmente errado porque eles se baseiam em achismo, não consideram a prática, os dados”, argumenta Lucas. 

A estudante de Comunicação Social, Milleny Medina, também é cotista de escola pública além de negra, e relata que somente ao entrar na universidade teve consciência sobre o que é ingressar no Ensino Superior através da ação afirmativa. “Quando pisei na sala e vi que a maioria eram pessoas brancas de escola particular, me senti à parte, mas, ao mesmo tempo, orgulhosa de estar representando o meu povo. Na minha sala não percebo, mas sei que o preconceito na universidade existe, principalmente nos cursos mais elitizados, como direito, medicina e engenharias. Meus amigos sofrem com os olhares dos colegas que têm mais condições financeiras”, comenta. 
Adaptação é questão de tempo 
A adaptação é outro ponto criticado por pessoas que são contra o sistema de ação afirmativa. Alguns alegam que o estudante de escola pública, por meio das cotas, não será capaz de acompanhar a turma. O advogado Francisco Bruno Alves, que se formou em uma faculdade de Teresina através do Prouni, outro tipo de cota só que para ingresso em faculdades particulares, explica que, embora haja uma dificuldade de adaptação no primeiro semestre, visto que se trata de uma realidade muito superior ao ensino das escolas públicas, o cotista interessado tem a mesma capacidade de acompanhamento. 
“A partir do momento que o aluno pega o ritmo, ele consegue se desenvolver tanto quanto os alunos de ampla concorrência. Com dificuldade menor ou maior, ele consegue. Até porque os cotistas são os melhores alunos de escolas públicas. Não é que eles sejam ruins, eles só não tiveram as estruturas adequadas para se desenvolverem no Ensino Médio. Mas quando eles são submetidos às mesmas condições que os de escolas particulares, eles vão sim conseguir acompanhar” fala. 
Além disso, em pesquisa realizada, pelo estudante Lucas Viana, com 90 alunos (40 não cotistas e 50 cotistas negros) dos seis cursos mais concorridos da Universidade Federal do Piauí, foi constatado que os alunos cotistas são perfeitamente qualificados para estarem nas universidades, visto que a diferença do rendimento de um em relação ao outro é bem pequena. Os dados indicam que 96,9% dos alunos não cotistas e 88,2% dos alunos cotistas negros preenchem a nota mínima prevista pela Ufpi para aprovação por média. 
“Sistema de cotas traz igualdade”, diz diretora 
A diretora de assuntos acadêmicos da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Francisca Ealdina, comenta que é através das cotas que os alunos com poucas oportunidades e de vulnerabilidade social têm acesso à educação superior. Segundo ela, o sistema de cotas traz igualdade de acesso aos alunos que não tiveram educação de qualidade. Enquanto alguns acreditam que a ação afirmativa é uma porta desigual para ingresso em universidades e faculdades, a diretora defende se tratar da mesma porta e das mesmas oportunidades. 
Mesmo com essa possível igualdade que o sistema de cotas propõe a alunos de escolas públicas e privadas, é possível comprovar, em números, que ainda está muito longe para a quantidade de alunos cotistas ser igual a de alunos da ampla concorrência. Na Uespi, dos 12.039 alunos em regime regular devidamente matriculados, somente 2.019 são cotistas, o que corresponde a aproximadamente 17% do total de alunos. 
Desde a adesão ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), em 2012, a Universidade reserva 30% das vagas de ingresso na instituição para estudantes cotistas, sendo 15% para alunos oriundos de escolas públicas e 15% para alunos autodeclarados negros, oriundos de escolas públicas. Na instituição, os estudantes cotistas têm prioridade em seleções internas de programas assistenciais (Bolsa Trabalho, Auxílio Moradia e Auxílio Alimentação) oferecidos.
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Edição: Virgiane Passos
Por: Karoll Oliveira

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