Com galerias inacabadas, moradores do Satélite convivem com alagamentos durante as chuvas

Na Rua Santa Quitéria, o medo é que as casas desabem com deslizamento de terra em uma encosta. Moradores construíram muretas para se proteger das enchentes.

27/10/2021 12:47h - Atualizado em 27/10/2021 12:56h

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Em meio ao período mais quente do ano, o que muitos teresinenses mais querem é uma chuva para amenizar o calor. Mas o que é significado de alívio para alguns pode se tornar um verdadeiro pesadelo e sinônimo de medo para outros. É o caso de dona Gorete Oliveira, dona de casa e moradora do bairro Satélite. A residência dela fica localizada no cruzamento das Ruas Lions Club com Rua Bela em uma área íngreme e de galerias a céu aberto que se torna um verdadeiro rio quando chove. Para ela, que já viu sua casa alagar em anos anteriores, chover é sinônimo de preocupação.

Ela reclama da falta de estrutura das vias que impossibilita o escoamento adequado da água quando chove. Água essa que se acaba se acumulando em sua porta e lhe causando prejuízos. “Está com 36 anos que morro aqui e o problema nunca foi resolvido. Isso aqui sempre foi alagado e a água já chegou a levar tudo daqui de casa. Essa já é a terceira ou quarta vez que eu construo parte destruída da minha casa por causa da chuva e essa galeria daqui do bairro tem mais de 30 anos que começaram e nunca terminaram. Só colocaram umas manilhas que não resolvem nada”, dispara dona Gorete.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

Ela reclama da inércia do poder público em resolver esse problema do bairro Satélite que já é histórico. Em enchentes anteriores, dona Gorete diz que a água que vem com força das ruas laterais, e que estão um nível acima da sua, saiu destruindo tudo que via pela frente, levando inclusive objetos de dentro de sua residência e de casas nas proximidades. “Daqui para dezembro e janeiro já começa o inverno e já começa minha aflição, porque eu não posso abandonar minha casa ou ir para o vizinho toda vez que fica bonito para chover. E se eu não tiver para onde ir? A gente fica com medo de ir dormir, acordar e perder tudo”, acrescenta.

Os transtornos não se limitam apenas à água invadir as casas porque não tem por onde escoar. Motociclistas que passam pela região da rua Lions Club do bairro Satélite reclamam também da dificuldade de trafegar pelo trecho quando chove. O local, segundo eles, “vira uma piscina, danifica seus veículos e pode até levar quem não tiver mais cuidado”. Os moradores dizem que já presenciaram vários acidentes com motociclistas e até com motoristas que tentaram atravessar o trecho durante a chuva.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

“Na última que deu, o motoqueiro quase foi levado para dentro do bueiro, a moto dele foi parar longe com a força da água”, finaliza dona Gorete.


Dona Gorete Oliveira convive com o medo das enchentes toda vez que chove mais forte - Foto: Assis Fernandes/O Dia

Moradores construíram muretas para se proteger da água na chuva

Na tentativa de impedir que a água invada suas casas quando chove mais forte em Teresina, alguns moradores da Rua Lions Club e da Rua Bela, no bairro Satélite, levantaram muretas na porta das residências como bloqueio. A medida foi tomada por conta própria mediante doações dos próprios moradores para amenizar os impactos da demora na ação pelo poder público no local.

Na residência de dona Sônia Maria Alves da Silva, ainda é possível ver os estragos causados pelas chuvas que caíram este ano e em anos anteriores: na parede, a marca da água que invadiu a residência chega quase na altura da cintura e a estrutura da residência está bem comprometida com rachaduras por conta da umidade do reboco. Dona de uma lojinha de confecções na Rua Bela, ela diz que ficou em um prejuízo de mais de R$ 20 mil com as últimas chuvas porque a água invadiu sua casa e levou inclusive todas as suas mercadorias.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

“Os móveis que tenho dentro de casa foi tudo doado. Cama, colchão, tudo foi doação de moradores e da igreja. Eu não sei mais nem dizer quanto que tive de prejuízo, mas foi mais de R$ 20 mil, porque destruiu minha lojinha inteira. A água vem lá das ruas de cima e vem com força. O quarto dos meus filhos acabou os móveis todos, as portas foram arrancadas, meus manequins de roupa saíram sendo levados na enchente e eu nunca recebi nenhum centavo, nem uma manifestação da prefeitura. Eles não olham para cá e nem querem olhar. Se fala em chover, eu já fico com medo, porque sei que para mim vai ser sofrimento”, diz dona Sônia.



Dona Sônia Silva fala dos prejuízos que já teve com a falta de estrutura do bairro e as fortes chuvas - Foto: Assis Fernandes/O Dia

A mureta que ela levantou em frente à sua residência pode ser vista também em todas as outras casas da rua. Rua esta que não tem pavimentação, apresenta vários esgotos a céu aberto e galerias acumulando lixo nas calçadas.

E quem for mais à frente pela Rua Bela para acessar a Rua Santa Quitéria, se depara não somente com os buracos e esgotos que tornam a via quase intrafegável, mas também com casas construídas em terrenos íngremes e instáveis. A própria Rua Santa Quitéria termina em uma encosta, um local de difícil acesso até mesmo para que mora lá. O medo dos moradores neste caso é da chegada do período chuvoso que pode trazer junto o deslizamento de terra e causar acidentes. Eles se sentem ameaçados pelo próprio local onde vivem.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

Quem dá mais detalhes da situação é a dona Maria Eterna da Silva. Aos 82 anos, ela mora com o filho em uma casa construída na margem da encosta ao final da Rua Santa Quitéria. Quem quiser chegar ao local precisa fazer esforço na subida e, muitas vezes, pisar em terreno incerto. Ela reclama do fato de o poder público nunca ter terminado de pavimentar a rua e construir a via até o fim para facilitar o ir e vir de quem precisa passar pelo local.

“É muito perigoso porque a gente desce com medo. Quando eu quero ir visitar minha filha, eu tenho que sair de casa com ela segurando meu braço, porque aquela descidinha é nas piçarras, se escorregar, cai. E quando chove, o medo que a gente fica de descer tudo? Meu marido até cimentou lá do outro lado para segurar a terra, a gente já pelejou para construírem a entrada ou ao menos a rua até o final, já fizemos vários abaixo-assinados, eu tenho quase 35 anos aqui e nunca fizeram nada”, afirma dona Maria Eterna.


Dona Maria Eterna da Silva fala da dificuldade de acesso à própria casa - Foto: Assis Fernandes/O Dia

O outro lado

O Portalodia.com entrou em contato com a Superintendência de Ações Administrativas Descentralizadas (SAAD) Leste para questionar sobre os projetos de infraestrutura e urbanização para o bairro Satélite. Por meio de nota, a SAAD informou que as gerências estão cientes da denúncia e que tomarão as medidas cabíveis para resolver a situação, logo após a perícia no local citado. 

“Reafirmamos a necessidade da população utilizar o aplicativo AMI, que tem como objetivo aproximar a população da administração pública municipal. Por ele, as pessoas poderão fazer denúncias, elogios e sugestões sobre a gestão”, disse a Superintendência.

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