“O objetivo da Parada é dialogar com a sociedade”, diz Marinalva Santana

Multidão se reúne neste domingo na Avenida Raul Lopes para reafirmar sua luta pelo fim da intolerância na sociedade.

01/09/2018 08:04h - Atualizado em 01/09/2018 08:34h

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Neste domingo, dia 2 de setembro, um dos mais importantes cartões postais de Teresina, a Ponte Estaiada, acenderá suas luzes para assumir as cores do arco-íris. O ato acontece em reconhecimento ao dia em que milhares de pessoas estarão reunidas, sob aquela estrutura na Avenida Raul Lopes, em busca de um objetivo comum: o de celebrar a diversidade e cobrar respeito às causas do público LGBTTs (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais). O evento conhecido como Parada da Diversidade, que acontece há 17 anos na Capital, mais que uma festa, é um marco para a reafirmação da luta pelo fim da intolerância na sociedade.

E vem da trajetória de pessoas como Marinalva Santana, coordenadora do Grupo Matizes, a busca por dar visibilidade – e corpo - à essa luta. “O objetivo da Parada é dialogar com a sociedade. É dizer que sempre existimos, em todas as profissões, em todos os lugares, em todas as famílias e nós queremos só igualdade de direitos”, destaca.


"Sempre existimos, em todas as profissões, em todos os lugares, em todas as famílias e nós queremos só igualdade de direitos” (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Por reivindicar direitos, a festa da Parada é precedida de uma semana de debates, palestras e rodas de diálogos que acontecem nas diferentes zonas de Teresina, a Semana do Orgulho de Ser. Uma forma de atrair o despertar da consciência para uma cultura de aceitação entre todos os públicos, não só gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transexuais, mas a sociedade de forma geral.

Os reflexos dessa busca são percebidos na própria Parada. Têm participado, cada vez em maior número, setores organizados que representam grupos de militância de vá rias frentes, como a dos deficientes físicos, pessoas de religião de matrizes africanas e cristãs, militantes da causa feminista, além de famílias e grupos de jovens.


"Sempre existimos, em todas as profissões, em todos os lugares, em todas as famílias e nós queremos só igualdade de direitos”, diz Marinalva


“Hoje, vemos a Parada acontecer com a presença de muitas famílias com suas crianças, a presença de muitos jovens. É a prova de que esse é um espaço para celebrar o respeito, a convivência fraterna entre as pessoas. Este ano, a expectativa é que mais gente se aproxime dessa festa, porque temos uma atração que é muito famosa entre as crianças e os jovens”, destaca Marinalva.

Para garantir o evento, o Matizes tem que responder a uma série de requisitos, como a liberação de mandato no Juizado da Criança e do Adolescente por conta da participação de menores de idade, a aprovação e intervenção da Secretaria Municipal de Transportes e Trânsito (Strans), vistoria do Corpo de Bombeiros, realização de plano de gerenciamento de resíduos sólidos, colaboração das Polícias Militar e Civil, entre outros. “As pessoas pensam que fazemos a Parada em um estalo de dedos, mas cumprimos uma verdadeira via crucis para garantir que o evento aconteça”, ressalta.

Programação

Este ano, a Parada da Diversidade contará com a presença de Pabllo Vittar, que subirá ao palco às 21h. Mas o evento começa bem antes, às 16h, com trio elétrico e a presença de Djs e performances de drags para animar o público.

Luta por inclusão passa por diversas frentes

A inclusão assume também, desde o início, uma das permanentes bandeiras dentro da Parada da Diversidade. É que como forma de fortalecimento recíproco, tanto o Matizes apoia diversas causas e instituições, quanto o caminho inverso também acontece. Amparo Sousa, presidente da Associação de Deficientes Físicos de Teresina, participa do evento desde a primeira edição.

“Só fortalece quando os segmentos apoiam uns aos outros. Estamos lutando pela inclusão e o Matizes sempre esteve presente em nossas caminhadas e nossas lutas, nada mais justo que também participemos dessa luta em favor da igualdade e da diversidade”, explica Amparo.


Cadeirantes participam da abertura da Parada (Foto: Arquivo O Dia)

Ao tempo que as pessoas com deficiência física cobram a inclusão em uma perspectiva de poderem ter acesso ao mercado de trabalho, a transitar dentro da cidade com segurança e poderem assumir importância dentro das políticas públicas, o mesmo acontece no ambiente da causa LGBTT com suas bandeiras em busca de aceitação dentro da sociedade.

“Queremos mudança de pensamento. Nós temos que ser respeitados dentro da sociedade e é isso que a causa LGBTT também procura”, destaca Amparo.

Atualmente, cadeirantes fazem parte da solenidade de abertura da Parada da Diversidade, ocupando a comitiva de frente que dá início ao percurso.


Amparo Sousa: “Queremos mudança de pensamento. Nós temos que ser respeitados dentro da sociedade e é isso que a causa LGBTT também procura”.


Presença familiar como forma de celebrar o respeito

Dar concretude ao respeito entre as pessoas e aceitação das formas diversas de amar não têm sido uma luta apenas do público LGBTT. Para casais heterossexuais, ter em mente a tônica do respeito é uma forma de construir um mundo mais justo para todos e todas. A família da jornalista Viviane Bandeira e do fisioterapeuta Alexandre Mota é um exemplo disso. O casal faz questão de levar a família para a Parada da Diversidade como forma de garantir, na prática, essa busca pela igualdade.

Viviane e Alexandre são pais de Laura, de 5 anos, e Luisa, de 2 anos. E é primeiramente em casa que o casal tenta estabelecer lições práticas para mostrar a importância do respeito em todos os âmbitos. Laura e Luisa nunca aprenderam, por exemplo, a questionável diferença entre brinquedos de meninas e meninos. “A gente ensina que meninos e meninas podem fazer tudo o que quiserem, desde que não causem problemas a ninguém”, destaca Viviane.

A jornalista sabe que inserir este tipo de conceito, ainda na primeira infância, é importante para que as cenas que acompanhou, enquanto trabalhava como professora, por exemplo, fiquem em um passado distante. Na escola, ela lembra que a reprodução de violências ao público LGBTT é muito intensa. “Eu via aquilo enquanto trabalhava e sabia que a sociedade tinha que mudar. Por isso, acompanho a Parada da Diversidade desde a primeira edição. Era uma forma de dar apoio à causa”, declara.


Alexandre e Viviane levam as filhas Laura e Luisa todos os anos para a Parada da Diversidade (Foto: Jailson Soares/O Dia)

A experiência de participar enquanto apoiadora do evento, posteriormente, deu lugar à sua atuação como profissional. Viviane, enquanto jornalista, cobriu, por muitos anos, a Parada e também fez do seu papel, enquanto formadora de opinião, uma porta para desbancar estereótipos.

Com a formação da família, os conceitos de Viviane continuaram intactos e até se ampliaram. “Depois que tive as meninas, eu entendi que já não era mais a Viviane cidadã apenas, eu tinha a missão de educar para respeitar e se fazerem ser respeitadas as minhas filhas. Hoje, tem muita mulher morrendo por ser mulher, muito gay morrendo só por ser gay, mas do mesmo jeito que eu tenho a liberdade de viver como eu sou, todas as pessoas têm também. Então, se eu não levar minhas filhas para celebrar o amor de ser quem é, elas não vão aprender. A Parada é sim um lugar para as famílias”, considera.

Alexandre também tem o mesmo entendimento. Para ele, mostrar na prática que o  respeito à diversidade é fundamental para se viver em sociedade é uma missão já assumida como pai.

“O que a gente busca é manter a inocência e o respeito que já vêm com as crianças. Infelizmente, quando participamos da Parada, por não ser tão comum ver famílias, nós quase viramos também uma atração. Mostrar que respeitamos dando o exemplo é a melhor opção, elas veem os pais fazendo e entendem que aquilo é normal”, avalia.

Este ano, mais uma vez, a família se prepara para engrossar o coro dos presentes que percorrerão a Avenida Raul Lopes em busca de respeito e garantia de direitos. “Não perdemos por nada”, finaliza Viviane.


"Mostrar que respeitamos dando o exemplo é a melhor opção", afirma Alexandre Mota


Parada é construída em colaboração e com busca por ideal

Paulo é uma das pessoas que não só viu, mas contribuiu para que a primeira Parada da Diversidade ganhasse as ruas de Teresina há 17 anos. As quase duas décadas de empenho para fazer com que o ideal do evento, que é o de informar e garantir respeito às várias formas de existir, se ampliasse na cidade, segundo ele, tem dado bons frutos.

“Quando o Matizes nasceu, eu já era amigo da Marinalva de longas dadas. Então, sempre fui colaborador da Parada, sempre fiz a divulgação necessária, sempre me empenhei para que trabalhássemos a questão de gênero, de diversidade, de identidade sexual, porque não é opção, você não é orientado para isso ou aquilo. Então, estamos levando essa nossa voz como seres humanos, nós levamos essa voz para dentro da sala de aula, para grupo de amigos, a grande intenção é levar conhecimento”, destaca Paulo Mota, que é professor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi).


Paulo Mota diz que ver o evento crescendo a cada ano faz com que o ideal de uma sociedade mais igualitária avance (Foto: Jailson Soares/O Dia)

A função do evento, como citada por Paulo, também se amplia no quesito difundir informações. As rodas de diálogo que se espalham, a partir da organização da Semana do Orgulho de Ser, fazem nascer debater de assuntos múltiplos relacionados às questões de gênero, saúde e direitos. E isso gera transformações.

“O grande peito aberto do Matizes e dessa nossa luta é defender sempre os direitos iguais. Procuramos aconselhar e estar perto de pessoas que sofram opressão e levar nossa voz para educar junto com outros profissionais, levando mais conhecimento às pessoas. Um resultado disso é termos grupos mais bem informados em relação à saúde, prevenção de doenças, à luta contra o feminicídio. A diversidade é muito mais ampla que qualquer coisa”, explica.

Paulo Mota também participa no momento inicial da Parada e, conforme confessa, a cada ano, a sensação de ver as pessoas aderirem ao evento de uma forma respeitosa, faz com que o ideal de uma sociedade mais igualitária avance, mesmo dentro de cenas corriqueiras de intolerância e violência avançando no país.

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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