"œAmamentar se tornou uma esperança, uma missão", diz mãe de bebê prematuro

Caetano nasceu com 30 semanas e, agora, ele e sua mãe estão superando os desafios

03/08/2021 08:38h

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O pequeno Caetano veio ao mundo no dia 2 de maio de 2021, com apenas 30 semanas. De maneira prematura, quase não teve tempo de ficar com sua mãe, a jornalista Jamila Carvalho. O bebê não teve a “hora dourada”. A mamada, tão esperada pela mamãe de primeira viagem, não aconteceu.

“Eu sempre quis amamentar, desde quando entendi que ser mãe era um desejo do coração. Não vim enganada: eu sabia, por ter acompanhado a história de diversas mulheres, que a probabilidade era maior de ser difícil do que fácil. Estudei durante a gravidez, falei com profissionais, buscamos informação para alinhar nossas expectativas sobre o que esse mundo seria. Só que nada nos preparou para o parto prematuro do Caetano”, conta Jamila.

O filho de Jamila Carvalho precisou ficar em observação na UTI (Fotos:  Reprodução/Instagram)

O bebê ficou em observação na UTI e, enquanto isso, era alimentado por sonda. “O seu  primeiro alimento sequer foi a tão temida fórmula, foi a nutrição parenteral, pela veia”, lembra. Por ser muito pequeno, não tinha estímulo para fazer a pega na mama nem conseguia sugar o leite. Mas, mesmo diante deste desafio, Jamila não desistiu dos planos de amamentar seu filho.

“A gente sabe que a amamentação é um processo natural e fisiológico, mas não necessariamente isso o torna fácil. Refleti bastante e pensei que se o leite materno é importantíssimo para qualquer bebê, para um bebê de risco é ainda mais. Amamentar se tornou uma incógnita, mas uma esperança, uma missão. Quando encaramos essa missão de amamentá-lo, foi muito nesse sentido, de que é uma das poucas coisas que conseguíamos fazer por ele. [O prematuro] é o bebê mais difícil de amamentar e o que mais precisa”, descreve.

Hoje, com três meses de vida e já aos cuidados da mãe em casa, Caetano também tem se adaptado à rotina. “Pela idade corrigida, ele corresponde a um bebê de um mês. Tudo está sendo novo para ele também. Como a amamentação é livre demanda, ou seja, ele escolhe a hora que quer, mesmo com o seio dolorido, eu ofereço uma mama e outra para esvaziar”, conta.

Leite materno é alimento completo, diz gastropediatra

Um líquido único e completo. O leite materno possui inúmeros benefícios, tanto para a mãe quanto para o bebê. Segundo a gastropediatra Iramaia Alencar, mais do que nutrir, o leite fortalece o sistema imunológico do bebê, auxilia no seu desenvolvimento e estreita o vínculo com a mãe.

Amamentar traz benefícios para a mãe, inclusive, nas primeiras horas após o parto. Isto porque o ato de amamentar cria contrações uterinas que diminuem a hemorragia pós-parto e riscos para cânceres, como uterino e ovariano, além de osteoporose, doenças cardiovasculares e derrame.

“A gente considera o leite materno o alimento mais completo que existe para o bebê. Ele é perfeito por suprir todas as necessidades de um recém-nascido, inclusive na inteligência. Estudos apontam que o QI de um bebê que amamenta é maior que um bebê que não amamenta. Além disso, os riscos de diarreia, infecção em geral, respiratórios e obesidade infantil são reduzidos, bem como a criação do vínculo entre bebê e mãe, que é fortalecido.  Mas claro que a mãe que não amamenta também pode criar vínculo e vai ter todo o cuidado e amor”, lembra a especialista.

Jamila Carvalho entende a importância do leite materno para os bebês, sobretudo para os prematuros, que, assim como Caetano, nasceram antes das 37 semanas de gravidez. “Sabemos que as lactantes passam anticorpos através do leite enquanto estão amamentando, as vacinas que essa mulher toma também protegem o bebê enquanto ele não toma as dele. É algo maravilhoso entender que a amamentação faz com que as crianças tenham um desenvolvimento, como na fala, por estimular o músculo da face, por exemplo”, disse.

A jornalista reforça que as mães devem buscar ajuda profissional antes, durante e depois do nascimento do bebê. Esclarecer as dúvidas, que não são poucas, permite que a família alinhe suas expectativas com as realidades vividas diariamente, tornando este momento o mais prazeroso para mãe, bebê e todos que fazem parte desta rede de apoio.

“Não existe isso de leite fraco. O corpo se adapta às necessidades do recém-nascido. Quando algo não está indo bem, precisa ser reajustado. Essa resolução de problemas precisa ser facilitada. Eu e o André [esposo] estamos nos organizando para ir ao hospital falar com a equipe e fazer laser no meu peito para não colocar a perder todo esse trabalho e o Caetano não ter um desmame precoce e entrar com o aleitamento”, completa.

Apoie uma mãe que amamenta

Uma mãe que acaba de dar à luz precisa de todo apoio possível, por isso, esteja presente e disponível para criar uma rede de acolhimento. É o que reforça a gastropediatra Iramaia Alencar.

“A gente pensa que a amamentação é natural e instintiva, e não é! É um aprendizado e tem mais dificuldades do que se imagina. Uma série de fatores podem atrapalhar a produção de leite materno e a amamentação, seja a mama da mãe, o estresse materno, as dores do pós-parto, uso de medicações, a pega, a sucção. As mães devem procurar ajuda com uma equipe especializada, inclusive no banco de leite, e não deve desistir, porque os benefícios são muito grandes”, disse.

A especialista comenta que a mãe está passando por um momento delicado e que, ao invés de outras pessoas darem palpites, comparando histórias e situações de terceiros, elas devem buscar informações de como acolher esta mãe e seu bebê.

“Pergunte o que ela está precisando, se ela quer água, se quer descansar, se você pode ficar com o bebê enquanto ela descansa. Ela precisa estar confortável para conseguir amamentar, precisa ser acolhida e jamais deve comparar a amamentação com ninguém, nem com as próprias experiências. Pesquise, se informe, acolha esta mãe”, acrescenta Iramaia Alencar. Mesmo sendo acompanhada por uma equipe de profissionais, ainda há possibilidade desta mulher não conseguir amamentar seu filho. Porém, em nenhum momento esta mãe deve se sentir culpada”, acrescenta Iramaia Alencar.

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