Inibidores de apetite são aliados no combate à obesidade, diz especialista

A obesidade, de acordo com endocrinologista, deve ser tratada com mudança de hábitos e remédios adequados

08/07/2017 07:47h - Atualizado em 08/07/2017 08:06h

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Em função dos péssimos hábitos alimentares da população e do sedentarismo, a obesidade tem se alastrado por todo o mundo. No Brasil, a sanção do Projeto de Lei 2431/11, que impede a Anvisa de proibir a produção e comercialização de inibidores de apetite, dá a especialistas um novo leque de oportunidades para o tratamento da obesidade. No entanto, o uso das substâncias ainda é permeado por polêmicas. Para Flávio Melo, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia – regional Piauí, a volta da permissão da produção e comercialização dos derivados dos anorexígenos (mazindol, femproporex e anfepramona) e da sibutramina, para o tratamento da obesidade, é um fator a ser comemorado dentro da atual contexto do país.

“Nenhum tratamento para obesidade é uma coisa definitiva, nós estamos falando de uma doença crônica, grave, recidivante, de tratamento complexo e multifatorial, onde as medidas de estilo de vida são muito importantes. Mas poder lançar mão de medicamentos que, prescritos de forma adequada, são fundamentais para o controle dessa doença, é uma forma de enfrentar essa grave realidade”, explica o especialista.

Flávio Melo se refere ao contexto recentemente alarmado pelo Ministério da Saúde. De acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), o excesso de peso no Brasil cresceu 26,3% nos últimos dez anos, passando de 42,6% em 2006 para 53,8% em 2016. O problema é mais comum entre os homens: passou de 47,5% para 57,7% no período. Já entre as mulheres, o índice passou 38,5% para 50,5%.


Flávio Melo ressalta a importância da orientação de um profissional (Foto: Elias Fontinele/O Dia)

Polêmicas

A suspensão desses medicamentos foi determinada no final de 2010 pela Anvisa. A determinação baseia-se em estudos científicos e no parecer da Câmara Técnica de Medicamentos (Cateme). A nota técnica da instituição apresentou argumentos de que essas substâncias podem trazer mais riscos do que benefícios à saúde dos pacientes.

O presidente da SBE-PI defende que é necessário o controle desses medicamentos para evitar o uso indiscriminado dele, mas enfatiza que os anorexígenos são importantes para o tratamento da obesidade. “Os inibidores possuem riscos? Sim, mas todo medicamento possui. O anticoncepcional aumenta em 250 vezes o risco de AVC em jovens, os anti-inflamatórios, vendidos livremente em farmácias, aumentam a possibilidade de infarto. Então o que se precisa? Que remédios sejam prescritos pelo especialista que só sejam liberados com essa via”, esclarece o médico.

Contraindicações devem ser levadas a sério quando da prescrição médica

Apesar da discussão acerca da liberação dos medicamentos, há um consenso claro entre os vários atores desta discussão: se usados sem acompanhamento profissional e de forma generalizada, os moderadores de apetite são, sim, perigosos. Por isso, estar atento às contraindicações da droga é fundamental.

Entre os riscos associados aos medicamentos estão o aumento da pressão arterial e pulmonar; aumento da frequência cardíaca, dores de cabeça, agitação e agressividade.

“Não vamos prescrever um remédio para um idoso que eu sei que tem problema cardiovascular, não vou passar sibutramina, que pode elevar um pouquinho a pressão, em quem já é hipertenso. Mas se eu pego um jovem ou uma jovem, com peso grave que não tem hipertensão, eu vou passar aquele medicamento e acompanhar no consultório, eu sei que isso é seguro. Quando a gente não dispõe dos remédios que a gente pode prescrever o que acontece? As pessoas correm para o mercado negro, correm para as farmácias de manipulação, para os profissionais não médicos, que ai sim é um problema gravíssimo”, alerta Flávio Melo.

Atualmente, existem três drogas à venda no país para a redução de peso: além da sibutramina, o orlistat (Xenical, entre outros nomes comerciais) e a liraglutida (Saxenda).

Já aprovado pela Anvisa, o cloridrato de lorcasserina (Belviq) está em fase de tomada de preços e pode chegar em breve às farmácias. Junto dos três anorexígenos que agora ressurgem como uma opção de preço mais acessível – resta saber se haverá interesse da indústria farmacêutica em voltar a produzi-los –, todos são medicamentos indicados para quem não consegue reduzir o peso apenas com dieta e exercícios.

Inibidor de apetite sem reeducação alimentar resulta em obesidade

Após morar uma temporada fora do país e se descuidar com a alimentação, Marília* engordou 30 quilos que, com o tempo, não pesaram apenas no corpo, mas no estilo de vida que se seguiu por anos até a jovem recobrar o significado de reeducação alimentar e de estilo de vida. Por um período, mesmo colhendo resultados positivos com o uso de inibidores de apetite, ela viu todos os quilos perdidos serem recobrados com a suspensão do medicamento. Marília chegou a pesar 120 quilos e, atualmente, comemora os 65 quilos ainda em processo de emagrecimento.

“Quando voltei a morar aqui com 30 quilos a mais procurei um endocrinologista. Na época, ele me passou um kit de medicamentos, que hoje eu entendo que eram um inibidos, diurético e bloqueador de carboidrato. Todo mês eu ia na consulta, ele receitava os medicamentos e eu tomava, realmente, eu emagreci 30 quilos, mas quando parei de tomar os remédios ganhei 40 quilos em questão de meses”, relembra.


Marília aliou o inibidor de apetite aos exercícios e à alimentação equilibrada (Foto: Elias Fontinele/O Dia)

A jovem destaca que, com o uso das substâncias, ter uma educação equilibrada não era uma preocupação. “Eu tomava de café da manhã uma coca de 600ml e um cigarro, comia muito mal durante o dia e continuava emagrecendo”, relata. Ao emagrecer o montante de peso, a jovem decidiu parar de tomar os medicamentos. Mas a má alimentação, associada a um estilo de vida sedentário, fez com que os quilos perdidos fossem recobrados em dois meses. E mais, Marília engordou 40 quilos.

“Eu comecei a engordar sem parar e cheguei a pesar 120 quilos. Foi quando eu vi que não conseguiria mais emagrecer e tive que fazer a redução de estomago”, relembra. Com a intervenção cirúrgica, a jovem retomou o processo de emagrecimento, mas, dois anos depois, voltou a engordar.

“Você aprende a driblar a cirurgia. Eu não conseguia comer muito em quantidade, mas comia besteira em pequenas porções durante o dia. Dois anos depois, ganhei 10 quilos e vi que tinha que fazer algo”, pontua.

Foi quando ter um estilo de vida mais equilibrado fez sentido na vida da jovem. O interesse particular a faz estudar mais sobre nutrição, alimentação e exercícios. Aliando acompanhamento médico, atividade física e alimentação equilibrada, Marília já conseguiu emagrecer 50 quilos.

“Hoje eu me preocupo com que eu vou comer, eu estudo, sei que antes, do jeito que fazia, era só um paliativo. Hoje tudo que perco demora mais, mas é uma coisa bem mais saudável e permanente”, finaliza.

*Uso de nome fictício para preservar identidade da fonte.

Medicamentos prejudicam funcionamento do organismo

Os remédios mais usados atualmente em tratamento para emagrecer podem agir de diferentes maneiras no organismo: inibindo o apetite, estimulando a saciedade ou bloqueando a absorção intestinal de gorduras.

Os que inibem o apetite, chamados anorexígenos, são substâncias já usadas por várias décadas, antigamente conhecidos como “anfetaminas”. O inconveniente deste grupo é o risco de dependência, apesar de ser relativamente rara quando utilizados adequadamente.


Foto: O Dia

Atualmente, são três substâncias deste grupo disponíveis no Brasil atualmente – a dietilpropiona, o femproporex e o mazindol. O segundo grupo, dos sacietógenos, reúne os medicamentos que têm como principal mecanismo de ação o estímulo da sensação de saciedade.

Isso pode parecer, à primeira vista, a mesma ação dos inibidores de apetite, mas, na prática, é bem diferente. Quem usa um inibidor de apetite pula refeições, por não senteir fome. Com os estimulantes dá saciedade, a pessoa sente fome, mas, com uma menor quantidade de alimentos já fica satisfeita, parando de comer mais cedo. O principal representante deste grupo é a sibutramina.

Anvisa proibirá a importação de supressores de apetite 

Apesar da recente aprovação da lei que libera o uso de inibidores de apetite, a importação desses produtos para a venda no Brasil continuará vetada. A afirmação foi dada pelo diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Jarbas Barbosa.

Segundo ele, como a lei fala apenas em autorizar "produção, comercialização e consumo", sem citar a importação, a agência passará a vetar tentativas de empresas em trazer os anorexígenos anfepramona, femproporex e mazindol do exterior.

A ação tem base nas atuais regras brasileiras, que impedem a importação de produtos sem registro na Anvisa para serem vendidos no país. Para uso próprio, por pessoas físicas, porém, a importação é permitida, desde que em quantidade e frequência compatíveis para uso –com receita médica, por exemplo.

"Como a lei não incluiu a importação, e medicamento sem registro só pode ser importado para uso individual, essa seria uma medida que teríamos de proteção [à saúde da população] e controle", afirma Barbosa.

Segundo ele, essa foi a única opção encontrada pela agência para realizar o controle dos medicamentos recém- liberados –ainda assim, somente em parte. "É a única brecha que vimos. Em relação à produção no Brasil e comercialização, avaliamos que abre a porteira para o mercado paralelo e ilegal", diz.

Derivados das anfetaminas, os anorexígenos anfepramona, femproporex e mazindol foram comercializados por décadas no país, até serem proibidos pela Anvisa em 2011. Na ocasião, a agência alegou que essas substâncias não possuíam comprovação de eficácia e traziam mais riscos que benefícios.

A proibição deu início a uma disputa com entidades médicas e representantes de associações de pacientes, que recorreram ao Congresso em busca do retorno dos medicamentos.

"Não é só porque é de baixo custo. Era uma opção terapêutica para os pacientes. Se não fossem eficazes, ninguém iria tomar", afirma a endocrinologista Maria Edna de Melo, da Abeso (Associação Brasileira para Estudo da Obesidade), que é uma das entidades que se posicionou de forma favorável à liberação.

Para Melo, a previsão de veto à importação não se justifica. "Uma importação não deixa de ser atividade comercial", afirma ela, que lembra que o texto dá aval à comercialização dos inibidores.

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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