Como os dentes ajudam a entender as classes sociais na América Latina

Estudo feito por consultoria internacional mostra que falta de dentes é o segundo fator de problemas na qualidade de vida das pessoas na região

21/05/2019 17:01h

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Em um artigo publicado no Intercept, a antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado defende que é possível estudar classes sociais no Brasil por meio dos dentes. Segundo ela, enquanto os ricos têm acesso aos dentistas, os pobres sofrem tanto com a "dor física" como a "dor moral" da vergonha de não ter dentes. "Surpreende o quão invisível é o apartheid bucal que divide o país", escreveu.

Em 2013, a Pesquisa Nacional de Saúde mostrou que, de cada dez brasileiros, quatro perdem todos os dentes após os 60 anos. O mesmo estudo afirmou que o Brasil é o país com mais cursos de odontologia  e dentistas do planeta. 

Outra pesquisa, a Percepções Latino-americanas sobre Perda de Dentes e Auto Confiança, da Edelman Insights, descobriu que a falta de dentes é o segundo fator de problemas na qualidade de vida das pessoas na região: 52% dos entrevistados se acham feios por causa da falta de saúde bucal, enquanto outros 43% admitiram que têm problemas amorosos por causa do problema e 32% acreditam que a questão impede uma vida mais feliz.

Os dados corroboram um terceiro estudo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito no ano passado e que mostrou que 39 milhões dos brasileiros usam próteses dentárias. Os números do instituto mostravam ainda que 16 milhões de pessoas no país viviam sem nenhum dente e 41,5% das pessoas com mais de 60 anos tinham perdido todos eles.

A pesquisa da Edelman ainda mostrou que 38% dos entrevistados latino-americanos se sentem inseguros para ir a festas e eventos sociais e 41% têm problemas fonoaudiológicos por causa da ausência de dentes.

“É preciso compreender as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que perderam os dentes e ajudá-las a encontrar um bom especialista que as auxilie na escolha de uma prótese adequada, de boa qualidade. O objetivo é que os pacientes tenham acesso à informação e conheçam os melhores produtos disponíveis no mercado para confecção, fixação e limpeza da prótese”, destacou a odontogeriatra Tânia Lacerda, integrante da Câmara Técnica de Odontogeriatria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, em entrevista para o lançamento do estudo.

"Colocar a mão na boca para sorrir é uma cena cotidiana que revela a vergonha sentida por quem tem uma falha na dentição. Por outro lado, percebemos o orgulho que as pessoas têm de mostrar os dentes saudáveis que restam: “esse e esse são bons”, disse Rosana no Intercept. "Mastigar, gargalhar e ter uma vida sem dor são direitos humanos fundamentais. Sorrir é o gesto que expressa a felicidade", finalizou.

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