Cesariana tem relação com o aumento de intolerâncias e alergias

Para explicar o aumento da predominância de intolerâncias e alergias alimentares, a especialista não analisa apenas os hábitos alimentares, mas ações que acontecem desde o nascimento de cada indivíduo.

30/03/2019 08:52h

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Basta rememorar como o mundo era há 50 anos e perceber que as transformações que aconteceram neste meio século foram gigantescas em diferentes cenários. Os avanços trazidos pela tecnologia influenciaram diretamente a forma de se comportar em sociedade e o modo de se alimentar, por exemplo, passou por um aumento exponencial de consumo de alimentos industrializados e no acesso a itens com maior exposição a componentes químicos. Essas mudanças têm impactado de formas diferentes a vida humana. Uma delas, nada positiva, é no aparecimento de doenças relacionadas ao sistema digestivo.

A médica Ana Martha Moreira, que é cirurgiã geral e endoscopista, se debruça no estudo e tratamento das doenças do aparelho digestivo. Para explicar o aumento da predominância de intolerâncias e alergias alimentares, Ana Martha não analisa apenas os hábitos alimentares, mas ações que acontecem desde o nascimento de cada indivíduo. A forma de nascer é um dos aspectos que pesa no aparecimento das doenças relacionadas a esta parte do corpo humano.

“Cerca de 80% das células responsáveis pela nossa imunidade se encontram no intestino. Temos que destacar que desde o ambiente intrauterino somos afetados por conta dos contaminantes ambientais e até a forma de nascer influencia nossa resistência. Antigamente, todo mundo nascia de parto vaginal, que é a forma que fomos programados para nascer, a cesárea era reservada para casos urgentes. Isso tem afetado no aparecimento de doenças”, explica a médica.

Foto: Reprodução

Já no trabalho de parto, o colo uterino da mãe começa a afinar e existe uma translocação de bactéria da vagina para o útero, onde se dá início a colonização bacteriana do bebê, já no trabalho de parto. “O neném quando nasce, é exposto a essa flora bacteriana da mãe. Esse contato da flora bacteriana no trabalho de parto é o que começa a colonização intestinal dessa criança. Até os dois anos de idade, é formado nosso jardim interno, a consolidação da nossa microbiota que vai nos acompanhar pelo resto da vida”, alerta.

A microbiota intestinal, comumente chamada de flora intestinal, é o grupo de bactérias que vive no intestino, auxiliando em vários processos, como a digestão de alimentos e monitorando o desenvolvimento de microorganismos que causam doenças.

Com a predominância da realização de cesárias, os bebês passam a nascer de uma forma estéreo tendo, assim, o processo de colonização bacteriana afetado nas primeiras horas de vida. “É absurdamente comum a primeira hora do neném não ser em contato com a mãe, porque ele imediatamente passa por procedimento de banho e vai para uma “câmara” de proteção Então, naquelas primeiras horas, ao invés dele estar mamando, ele está no berçário”, destaca Ana Martha.

A especialista lembra que o acesso ao colostro - primeiro leite produzido pela mãe – é essencial para fortalecer o sistema imunológico do ser humano. “O colostro é basicamente uma vacina, tem as imunoglobulinas, que são os anticorpos, e o neném vai adquirindo esses anticorpos por meio do leite materno e também em contato com as bactérias que estarão nesta segunda onda de colonização”, ressalta.

A quebra desses processos, incrementado de outros ao longo da vida favorecem, como explica Ana Martha Moreira, a vulnerabilidade do organismo ao desenvolvimento das intolerâncias e alergias. “Fomos designados para sobrevivência, quando a gente vê, hoje, um número de infecções e alergias na primeira infância surgindo de forma vertiginosa, vem desses processos de rupturas que sofremos”, explica.

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Por: Glenda Uchôa

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