Oposição discute “anticandidatura” em uma eventual eleição indireta

Para os deputados do PT que não concordam em boicotar as eleições indiretas, a estratégia é lançar um candidato oposicionista ao dos partidos da base aliada

29/05/2017 13:20h

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Deputados do PT que não concordam com a ideia de boicotar eventual eleição indireta para escolha do substituto do presidente Michel Temer discutem com parlamentares de outros partidos da oposição, entre eles PDT e PC do B, participar do pleito com uma “anticandidatura”.

A estratégia é lançar um candidato oposicionista ao que será lançado pelos partidos da base aliada para marcar posição política e, ao mesmo tempo, tentar influenciar minimamente a agenda do governo de transição.

 O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende que o PT repita o posicionamento das eleições de 1985 e não participe de eventual novo colégio eleitoral. Naquele pleito, a sigla se colocou contra a aliança do PMDB com dissidentes do regime militar, que conseguiu eleger Tancredo Neves presidente, com 480 votos. O deputado Paulo Maluf (então do PDS, hoje do PP) ficou em segundo lugar, com 180 votos.

Naquela época, o PT havia participado ativamente da campanha pelas “Diretas Já”, em 1984, e considerava ilegítima a escolha do primeiro presidente civil, depois de 21 anos de ditadura militar, de forma indireta, ou seja, por deputados e senadores, e não pelo voto popular. Três dos oito deputados da bancada petista (Bete Mendes, José Eudes e Airton Soares) contrariaram a orientação partidária e acabaram expulsos da legenda.

No PT, a “anticandidatura” em eventual nova eleição indireta tem apoio até mesmo de deputados da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mesma de Lula, como Vicente Cândido (SP).

Segundo o político paulista, o grupo ainda procura um nome para ser o “anticandidato”. O nome ex-presidente, porém, é totalmente descartado. “Ele negaria a própria história”, afirmou outro deputado da CNB.

No PDT, a tese de uma “anticandidatura” tem apoio de deputados como André Figueiredo (CE), vice-líder do partido na Câmara. “Nossa primeira alternativa é eleição direta. Mas, se não conseguir, tem que participar da indireta. Não adianta ficar intransigente e virar as costas, porque acaba perdendo a chance de discutir uma agenda para uma transição e de reforçar posicionamento contra essas reformas”, afirmou o pedetista, que foi ministro das Comunicações do governo Dilma Rousseff.

O deputado Orlando Silva (PC do B-SP) também defende que seu partido apoie uma “anticandidatura”, caso a oposição não consiga viabilizar uma eleição direta.

“Seria para marcar posição política, como foi a candidatura do André Figueiredo na última eleição na Câmara”, afirmou. Na disputa pelo comando da Casa, em fevereiro deste ano, Figueiredo ficou em terceiro lugar, com 59 votos. O vencedor foi o atual presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com 293 votos.

Figueiredo, Orlando e segmentos do PT admitem até que a oposição pode negociar apoio a uma candidatura de “centro”, desde que o candidato se comprometa a não votar as reformas ou pelo menos amenizá-las. Entre os pré-candidatos colocados hoje, o ex-ministro Nelson Jobim é o que mais tem apoio da oposição. “Seria um nome de acordo nacional. É difícil o Lula falar mal dele”, disse o deputado Vicente Cândido (SP), vice-líder do PT na Câmara.

Há ainda na oposição quem defenda manter uma anticandidatura, mesmo que o candidato seja Jobim. Nesse caso, dizem oposicionistas, seria uma anticandidatura “menos agressiva”.

Jobim foi ministro da Defesa entre 2007 e 2011, durante os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. Antes disso, foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de 1997 a 2006, indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Dirigentes do PDT e do PC do B evitam falar publicamente sobre participação em eventual eleição indireta. O argumento é de que o foco por enquanto tem que ser em aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autoria do deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) que permite eleições diretas para presidente, caso Temer seja cassado ou renuncie ao cargo. A matéria ainda está parada na Comissão Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, sem previsão para ser votada.


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Fonte: Exame

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