Ex-presidente Lula concede entrevista exclusiva ao Jornal O Dia; confira

Lula cumpre agenda hoje e amanhã em Teresina acompanhado de lideranças políticas locais.

17/08/2021 08:13h

Compartilhar no

Os segmentos da esquerda que não o apoiam, avaliam que o Sr. atua para deixar Jair Bolsonaro competitivo até ano que vem, para que não haja espaço para crescimento de uma terceira via, já que para este segmento, um confronto direto entre o senhor e Bolsonaro lhe favorece. Como o senhor avalia isso?

Eu não escolho adversário. Bolsonaro é competitivo porque quem está sentado na cadeira de presidente será sempre um candidato forte à reeleição. E também porque, mesmo fazendo o pior governo da história deste país, usa descaradamente a máquina pública não apenas em benefício próprio e de sua família, mas também de seus aliados, contando até mesmo com orçamento paralelo para compra de apoio de parlamentares, como tem denunciado a imprensa. Mas nem isso será capaz de evitar sua derrota no ano que vem. 

A polarização que existe hoje no Brasil é a mesma que existia na eleição de 2018. É a polarização entre a democracia e o fascismo, entre a civilização e a barbárie. Não tenho problema com terceira via. Quem quiser lançar candidato, que lance, pode ter a terceira via, a quarta via, a quinta via, quantas quiserem. A democracia tem muitas vias, e ela funciona assim: os partidos lançam seus candidatos, e o povo escolhe.


O ex-presidente Lula vem hoje ao Piauí - Foto: Ricardo Stuckert


Presidente, a Previdência Social é um tema bastante pertinente na atualidade. Os números demonstram que a reforma realizada em 2016 afetou negativamente os trabalhadores, e mesmo assim não solucionou o problema do déficit. Como lidar com essa situação a curto, médio e longo prazos? Qual seu pensamento sobre a questão previdenciária? O senhor pensa em revogar a reforma realizada? Aprofundá-la? 

Outro dia vi uma reportagem que mostrava uma aposentada chorando no caixa do supermercado, porque não podia comprar o mínimo necessário para viver com dignidade. Infelizmente, essa é a realidade de milhões de aposentadas e aposentados deste país, que depois do golpe contra a presidenta Dilma voltaram a ser tratados com desrespeito e humilhação.

A chamada Reforma da Previdência foi na verdade a torcida para que o trabalhador morra antes de se aposentar. Ou seja, é a tentativa de resolver o suposto déficit da Previdência exterminando os beneficiários da Previdência.

O desrespeito começa já no pedido de aposentadoria. Antes do meu governo, as filas varavam a madrugada, expondo idosos e doentes ao desconforto, ao frio e a exigências burocráticas desnecessárias. O resultado era uma demora de dois anos entre o pedido de aposentadoria e a concessão do benefício. Já no meu governo nós implementamos a “Aposentadoria em 30 minutos”. 

Nós reduzimos o tempo de espera para 30 minutos. Mas na gestão de Bolsonaro todo esse avanço está sendo desmontado, e a espera voltou a ser de mais de um ano. As filas para aposentadoria voltaram, só que agora de maneira virtual, limitando o acesso dos mais pobres. Uma demora de seis meses para realização de perícia médica é inaceitável, sobretudo durante a pandemia de covid-19.

De 2016 para cá, precarizaram o emprego, e o desemprego bate recorde, tem cada vez menos pessoas contribuindo, e é aí que a conta não fecha. Cortaram direitos, o que reduz ainda mais o número de contribuintes. Não é possível que sigam tirando direitos dos trabalhadores e dos aposentados. Não é possível  haver milhões de jovens trabalhando precarizados, sem nenhuma assistência caso sofram um acidente, e sem nenhuma perspectiva de se aposentarem.  

Se os salários estão menores, se as pessoas estão mais pobres e não têm estabilidade, elas contribuem menos com a Previdência. É preciso reverter esse ciclo. Nós vamos resolver o problema da Previdência aumentando a inclusão social e a geração de empregos de qualidade, com carteira assinada. Chega de jogar a conta da crise nas costas dos trabalhadores e dos aposentados. É recuperando o poder de compra da população e gerando empregos que vamos resolver a economia, de baixo para cima.


Presidente, o combate à corrupção é uma bandeira que sempre será levantada nas eleições. E em 2022 não será diferente. Como o senhor e o PT vão trabalhar para enfrentar o debate em torno deste tema? Qual será a diferença desse debate em relação a 2018?

Os principais mecanismos de combate à corrupção existentes hoje neste país são conquistas dos governos do PT. O fortalecimento e a autonomia da Polícia Federal, que antes não tinha recursos sequer para abastecer suas viaturas e ir a campo combater o crime. Já no meu governo e no da presidenta Dilma, a Polícia Federal realizou mais de 2.200 operações. Nós mais que dobramos o orçamento da PF, e fizemos dela uma polícia republicana, com total liberdade para agir, independentemente da vontade dos governantes de plantão. 

Garantimos também a autonomia do Ministério Público, com o Procurador-Geral da República passando a ser escolhido pela própria categoria e não mais pelo gosto pessoal do presidente da República, que nomeava alguém de confiança para engavetar as denúncias contra ele, como voltou a acontecer agora com o Bolsonaro. 

Além disso, criamos a Controladoria Geral da União (CGU), o Portal da Transparência, a Lei de Acesso à Informação e a Super Receita, entre vários outros mecanismos de combate às fraudes, à lavagem de dinheiro e à sonegação.

No meu caso, entraram na minha casa e dos meus filhos, procuraram qualquer coisa contra mim em tudo que é canto do mundo, e não acharam nada, porque tudo que eu fiz sempre foi dentro da lei. Inventaram acusações contra mim que tem caído na justiça uma a uma porque não provaram nada. As condenações que sofri pelas mãos do Moro foram feitas para me impedir de disputar as eleições em 2018, e já foram reconhecidas como parciais e anuladas, feitas por um sujeito que depois virou ministro do Bolsonaro.

Então a diferença em relação a 2018 é que o povo brasileiro hoje sabe que eu e o PT fomos vítimas de uma perseguição jurídico-midiática nunca vista neste país. A imprensa inventava uma mentira contra mim, o Moro e os procuradores da Lava Jato corriam para oferecer benefícios a delatores presos para que confirmassem a falsa denúncia, e a Globo passava um bloco inteiro do Jornal Nacional repercutindo as acusações sem prova. Foram 13 horas de Jornal Nacional contra mim. 

Fui preso e impedido de disputar as eleições sem que houvesse uma única prova de qualquer crime cometido. 

Então, a grande diferença em relação a 2018 é esta: o povo brasileiro hoje sabe que muitos que usaram o discurso contra a corrupção para chegar ao poder eram os verdadeiros corruptos. 


O Brasil hoje discute assuntos que até pouco tempo atrás eram inimagináveis: como o voto impresso, se haverá eleições em 2022, confronto entre instituições fora “das quatro linhas da Constituição”. Como superar esse debate e na sua avaliação, como isso afeta a população brasileira?

Você vê, enquanto o povo brasileiro sofre com problemas reais: inflação, desemprego, fome, pandemia, tanta dificuldade, o Bolsonaro só fala de bobagem e anda de motocicleta.

Uma coisa é certa: o povo brasileiro vai votar em 2022 e vai colocar a faixa em quem for eleito. Até o Bolsonaro sabe disso. E sabe também que será derrotado, por conta de todo o mal que faz ao Brasil e aos brasileiros. 

São mais de 560 mil mortos pela covid-19, porque não foram vacinados a tempo. Isso num país que era referência mundial em vacinação. 

São 15 milhões de desempregados e 34 milhões de trabalhadores vivendo na mais absoluta informalidade, sem qualquer direito ou garantia. Isso no país que gerou mais de 20 milhões de postos de trabalho com carteira assinada durante os  governos do PT. 

São 19 milhões de homens, mulheres e crianças que vão dormir esta noite com fome, sem saber se terão o que comer amanhã. Isso no país que é o terceiro produtor mundial de alimentos e que em 2014, graças a uma série de políticas implantadas pelos nossos governos, havia saído do Mapa Mundial da Fome pela primeira vez na história. 

É por tudo o que ele faz contra o Brasil e o povo brasileiro que Bolsonaro vai perder a eleição. Mas como é incapaz de reconhecer seus erros, a culpa é sempre dos outros: dos governadores, dos prefeitos, do STF, do TSE, do PT, do comunismo. A culpada da vez é a urna eletrônica. Acontece que ele e seus filhos foram eleitos diversas vezes com essas mesmas urnas eletrônicas, e nunca reclamaram de fraude. Agora que sabem que vão perder inventaram isso. 


Falando especificamente ao Piauí. A oposição ao PT no estado diz que nos governos Lula e Dilma, apesar dos avanços sociais, não foram registradas obras estruturantes na área infraestrutura aqui. O senhor concorda com isso? Caso retorne ao poder, o senhor pensa em fazer algo diferente ao em relação ao Piauí?

Não é verdade que não houve obras estruturantes. Pavimentamos rodovias federais que estavam abandonadas, fizemos mais de duas dezenas de usinas eólicas, construímos barragens e projetos de irrigação, levamos energia para muita gente no Piauí com o Luz Para Todos, iniciamos a Transnordestina. Investimos mais de 4 bilhões em moradias no Minha Casa Minha Vida, fizemos quatro campus universitários e 17 escolas técnicas, levando ensino de qualidade para o interior do estado. O Piauí comigo, e com o trabalho incansável do Wellington Dias, viu seus índices de IDH, o índice de desenvolvimento humano, subir muito, e o estado mudou sua imagem, para melhor, no Brasil e no exterior. Passou a ser o estado da educação, das medalhas em olimpíadas de matemática.

Tenho o orgulho de dizer que governei para todos os brasileiros, mas cuidando com atenção especial daqueles que mais precisavam.  O Piauí, como todo o Nordeste, sempre havia sido tratado com desprezo pelos governos anteriores. Como se fosse uma eterna fonte de problemas, e não como um potencial polo de crescimento para o Brasil. E desde o primeiro dia de governo nós entendemos que além de combater as desigualdades sociais deste país, era preciso superar também desigualdades regionais históricas. 

O que a região precisava era de políticas consistentes de indução de desenvolvimento, e elas vieram com o PAC (Programa de Aceleração de Crescimento). O retorno não demorou a chegar. Nos nossos governos, o PIB do Nordeste cresceu acima da média nacional, e o mesmo aconteceu com a renda dos nordestinos. 

Infelizmente, o golpe de 2016 interrompeu esse ciclo virtuoso. Investimentos foram suspensos, obras importantes acabaram paralisadas, e o Piauí e o Nordeste voltaram a ser tratados pelo atual desgoverno como se fizessem parte de uma espécie de segunda divisão do Brasil, quando seu lugar é na elite econômica deste país. 

O Nordeste quer voltar a ocupar o merecido lugar de destaque no cenário nacional, e podem ter certeza que voltará. É por isso que os brasileiros hoje querem Bolsonaro bem longe da cadeira de presidente. 

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!

Compartilhar no

Deixe seu comentário