"A pesquisa é essencial e precisa estar ligada aos interesses sociais"

Entrevista: o professor Marcus Sabry avalia que é preciso fazer uma melhor gestão dos recursos financeiros da Universidade.

07/08/2020 07:08h - Atualizado em 07/08/2020 07:25h

Compartilhar no

A série de entrevistas com os candidatos à Reitoria da Universidade Federal do Piauí chega ao fim hoje (7), com a publicação  na íntegra da conversa com o professor doutor Marcus Sabry, candidato pela Chapa 5. O candidato avalia que é preciso fazer uma melhor gestão dos recursos financeiros da Universidade, cortando gastos que ele considera desnecessários e investindo no que realmente precisa. Sabry também entende que deve haver uma maior integração entre a UFPI e a comunidade em geral, fazendo com que estudantes e corpos técnico e docente interajam mais com a sociedade. Ele critica o extremismo nas relações políticas dentro da UFPI. Oriundo da medicina, o professor tem como vice Antônio Airton. Uma boa leitura!

De maneira geral, qual é a importância da UFPI dentro do processo histórico do nosso Estado?

A universidade foi criada no início da década de 70 e estamos em 2020. Até hoje, a universidade tem se comportado cumprindo um papel de fornecer cursos de graduação, alguns cursos de pós-graduação e certa produção científica no campo da pesquisa. No entanto, entendemos, que a universidade precisa contribuir de uma forma muita mais ampla, pois vivemos num estado mais desigual do Brasil, não é apenas aquele que tem indicadores que colocam índices de pobreza menores do país, renda per capita, número de anos de escolaridade, analfabetismo funcional, etc, nos colocam numa situação ruim de desenvolvimento crônico. Esse papel da Ufpi precisa ser estendido além dos muros da universidade. É preciso que ela contribua não apenas para o aluno - que é uma exceção, e que entra na universidade. É preciso que contribua para a sociedade como um todo. Quando falamos da comunidade universitária, em geral as pessoas se referem a três componentes: primeiro são os alunos (corpo discente), segundo os servidores técnicos e terceiro os professores (corpo docente). No entanto, entendemos que a comunidade universitária vai muito além desses três componentes, e incluímos as famílias dos alunos, dos corpos técnico e docente. Quero me reportar diretamente às famílias dos alunos e colocar um conceito com muita clareza. Formar um filho é o maior projeto de qualquer família, fazer com que o filho chegue a maturidade, a vida adulta e conseguir gerar o próprio sustento através do trabalho honesto e digno, exatamente é isso que ela espera da universidade onde o filho estuda, seja ela a Ufpi, a Uespi ou qualquer outra faculdade e centro universitário, inclusive universidade privada.


O candidato destaca que a universidade precisa formar um profissional com veia empreendedora, e tratar todos com o mesmo respeito - Foto: O Dia

Professor, olhando para suas propostas na carta que o Senhor apresenta à comunidade universitária da Ufpi, o Senhor tem algum trabalho e propósito específico focado na ideologia de gênero em ambiente universitário?

Acabei de falar dois conceitos que para nós são fundamentais junto com a ideia de meritocracia na administração, temos dois conceitos fundamentais que guiam nossa posição com relação a essa questão colocada. Respeito às posições, opiniões e comportamentos individuais. Respeito é a palavra-chave e a complementação do respeito é a liberdade. Eu não posso respeitar algo que não vem do exercício livre de opinião. Então, consideramos que a liberdade de opinião, de posicionamento e de expressão dos seus posicionamentos é um valor fundamental e associado à liberdade concomitantemente precisamos levar ao mesmo nível de importância ao respeito de opinião, de posicionamento, comportamento e da livre manifestação.

Como a Ufpi, professor, pode contribuir para o desenvolvimento do Piauí?

O maior projeto de uma família é ver um filho formado. Isso canaliza todas as melhores expectativas do pai e de uma mãe desde quando a criança nasce, talvez até antes dela nascer, os pais começam a imaginar o que o meu filho vai ser quando crescer, com o que ele vai trabalhar e se identificar. No entanto, hoje vivenciamos um momento histórico mundial extremamente difícil. Vivemos um momento no qual a economia mundial nesse momento particular está sofrendo uma certa retração. No entanto, observando décadas vemos uma expansão da economia mundial. Por outro lado, vemos um aumento das desigualdades e o ambiente de trabalho vem se tornando cada vez mais competitivo, cada vez mais exigente e requerendo habilidade que a universidade precisa estar pronta para oferecer. Então, juntando os dois aspectos, o maior projeto de uma família é ver o filho capaz de gerar o seu auto sustento através de um trabalho digno e, ele se torna capaz disso por intermédio de um curso universitário. No entanto, a universidade deve ir muito mais além, de simplesmente oferecer a formação tradicional, da graduação. Quando a pessoa sai da universidade, ela vai ser um formado sem emprego. Então, precisamos que ela seja capaz não apenas de conseguir um emprego, mas capaz de gerar o próprio posto de trabalho. Que seja capaz não apenas de disputar espaço no mercado de trabalho, mas que seja capaz de gerar a própria oportunidade no mercado de trabalho. E isso só é possível se ele, além de ter uma formação técnica, rigorosa e de qualidade principalmente antenada com as necessidades do mercado, e ter uma mentalidade empreendedora, capaz de ir para dentro do mercado, compreender a dinâmica do mercado e gerar o seu próprio espaço.

Qual é o papel da pesquisa em uma universidade federal em um dos estados mais carentes do Brasil, como é o Piauí?

A pesquisa é, em grande parte, o que caracteriza o ambiente universitário. A diferença de uma faculdade para uma universidade é que a universidade propicia além do ensino a pesquisa e a extensão, além de cursos de pós-graduação. Então, a pesquisa durante muito tempo foi renegada de certa forma a uma atividade secundária e as pessoas não esperam muito, de uma universidade pequena, no contexto nacional, como sendo uma grande produtora de pesquisa, sendo que parece ser um luxo produzir pesquisa. Na realidade, para o estado do Piauí, entendemos que a pesquisa é tão essencial quanto ao ensino, porque ela precisa ser ligada às necessidades reais da população. Outro aspecto, só para complementar, a extensão universitária precisa estar ligada à pesquisa. Precisamos pesquisar algo, montar programas de extensão universitária e ser conduzida por alunos da graduação e, assim, conseguir juntar as três coisas. Claro que a pesquisa em geral é feita a nível de pós-graduação, mas entendemos que a pós-graduação deve ter um papel na própria graduação. E aí vamos juntar os cinco componentes: graduação, pós-graduação, ensino, pesquisa e extensão. Uma coisa extremamente importante, como foi colocado, é que o estado do Piauí é extremamente carente de recursos. No entanto, ele tem também uma população muito carente. Temos aqui um ambiente de pesquisa extremamente relevante. Só para citar um aspecto, o Parque Serra da Capivara para o curso de Arqueologia é um ambiente de pesquisa fantástico; temos o hospital universitário, que é um ambiente que não só presta um serviço à sociedade, mas que é um ambiente de pesquisa fantástico. É exatamente a ideia que queremos levar para os outros cursos, por exemplo, como podemos fazer pesquisa na arquitetura, temos uma identidade cultural muito grande. Precisamos que essa identidade cultural seja traduzida através da arquitetura própria de nossa região. Como é que podemos fazer isso, é pesquisando, colocando o aluno lá no ambiente onde ele vai ver as características culturais de determinada região e vai traduzir isso em forma de projetos. Então, entendemos que a pesquisa, como um exemplo prático na área de saúde. Veja, temos uma população de diabéticos, um grande problema de saúde. A diabetes tem inúmeras complicações, como por exemplo, a amputação de membros e enfartos. Com isso, queremos trazer a pesquisa na área de saúde para aspectos práticos. No Piauí temos uma mortalidade muito grande de acidente vascular cerebral, maior que a média nacional. E a tendência, a queda que ocorre no Brasil não se reflete no Piauí. Mas porque isso ocorre? Esse tipo de pergunta que vai ser traduzida em pesquisa, ela tem uma aplicação prática e depois vai ser aprimorada no cuidado com essa população, a população diabética, de AVC e, ao mesmo tempo, a população que vive, no caso da arquitetura, num ambiente quente, por exemplo, de pouca umidade. E como podemos juntar a arquitetura mantendo suas características culturais com as características do clima para gerar uma unidade residencial com as características mais favoráveis àquela pessoa? Então, precisamos juntar, realmente, as três coisas. Por último, o link das três coisas é a necessidade da população a qual deve guiar as linhas de pesquisas, as atividades de extensão e pós-graduação. E o aluno ser imbuído nessa cultura, dessa necessidade.

- Professor, o custo dos alunos da universidade pública tem se aproximado e até superado o valor das mensalidades das universidades privadas. Sobre esse ponto, o que o Senhor pensa?

O orçamento da Ufpi, não vou citar detalhes, é quase R$ 900 milhões, dos quais mais de R$ 260 milhões são discricionários, isto é, eles têm direta influência da administração. Enquanto que os demais recursos têm destinação direta. Esses valores não são realmente pequenos, pois quando você divide pelo número de alunos da Ufpi presenciais e à distância você tem um valor acima de muitas mensalidades principalmente considerando alguns cursos cujas mensalidades, em Teresina, varia entre R$ 700 até R$ 10 mil. Mas quando se tira esses cursos mais caros como Medicina e Odontologia e coloca a imensa maioria de outros cursos, realmente, a média de gasto por aluno da Universidade Federal, não só do Piauí, é muito acima dessas mensalidades. Então, como é que uma faculdade privada consegue fornecer um serviço de qualidade cobrando um valor "x" e a universidade federal, que não tem problema de pagamento de pessoal, tem o recurso garantido e o gestor não precisa se preocupar, se ele vai pagar no final do mês a folha de pagamento, e ele vai poder se dedicar para gerir R$ 260 milhões por ano nas atividades que são discricionárias e que passam pela influência da administração. Então, a resposta é muito simples: o país não tem espaço para bater panelas e pires na mão para pedir mais recursos. Não há mais como justificar que não fizemos isso ou fazer aquilo porque não temos recursos. Essa ideia ainda acredito que seja de muitas pessoas, mas entendemos exatamente o inverso, pois devemos otimizar os recursos disponíveis e, com isso, fazer mais utilizando o mesmo recurso.

- Qual seria esse orçamento anual, e se esse orçamento é suficiente ou necessita de incremento? E quais propostas o Senhor tem para incrementar o Hospital Universitário da Ufpi aproveitando esse orçamento em vigor?

A população dificilmente imaginaria que se a Ufpi fosse uma cidade seria a sexta ou a sétima maior cidade do Piauí. Se você considerar a comunidade universitária como alunos, servidores técnicos e professores teríamos uma população que seria a sexta ou a sétima cidade maior do Estado. A mesma coisa em relação aos recursos, pois se considerarmos que o orçamento da Ufpi é comparável ao PIB de um município, a universidade também seria o sexto ou sétimo maior município do Piauí. Partindo desse ponto de vista, percebemos que temos uma ferramenta gigantesca, a universidade é como um gigante adormecido, a população está esperando há 50 anos a universidade cumprir o seu papel, fazendo aqui uma ligação com a primeira pergunta. Exceto alguns momentos, que ela foi administrada de uma forma mais dinâmica. O que temos observado no geral é que a população se dar por satisfeita e que a universidade continue oferecendo os cursos de graduação, que o estudante entre e saia e vá procurar um emprego. Então, queremos que o aluno entre, mas que saia transformado, que entre com a mentalidade de ensino médio, mas que saia com a mentalidade empreendedora. Essa transformação é a grande dificuldade e, essa transformação é cultural, e essa transformação cultural é da gestão. Por isso o nome de nossa chapa é "Ufpi Meritocracia". Esse é o grande valor, pois se você faz que a universidade seja gerida por meritocracia, se esse valor está imbuído em todas as pessoas que trabalham na universidade, seja servidores técnicos ou terceirizados todos precisam ter essa mesma mentalidade. Estamos aqui para fazer da melhor forma o nosso trabalho. Ninguém sabe fazer o meu trabalho melhor do que eu mesmo. Eu aceito supervisão e cumprir metas, mas sei o que estou fazendo com responsabilidade. Agora, a pessoa só se comporta dessa forma se ela tiver nos seus superiores uma avaliação criteriosa, justa e isenta, e que não seja desviada por nenhum propósito com finalidade, por exemplo, político, e que muitas pessoas trazem para dentro da universidade e que utilizaram a universidade como uma ferramenta de pressão para obtenção de votos em sentido diversos.

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!

Compartilhar no
Por: Luiz Carlos de Oliveira, Lívio Galeno e Najla Fernandes

Deixe seu comentário