Preso envia mensagens de dentro da Irmão Guido e pede ajuda

Segundo ele, trabalho remunerado, escola e cursos profissionalizantes só são oferecidos para aqueles que entregam os outros presos.

09/07/2017 08:05h

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Um suposto detento da penitenciária Irmão Guido decidiu usar a falha na segurança do presídio para pedir ajuda e denunciar os maus tratos ocorridos dentro do sistema prisional. Sem se identificar, o homem enviou mensagens de texto para o celular do Portal O DIA, contando episódios de violação dos direitos humanos.

Segundo o detento, as humilhações são constantes. “Aqui passamos dias insuportáveis. Presos doentes, tiros à queima roupa. Somos obrigados a encostar as partes íntimas uns nos outros”, revela.

 Prints do conteúdo da mensagem que o detendo mandou para redação do O Dia.

As mensagens foram enviadas desde o início do mês de junho. De acordo com o denunciante, naquela ocasião os presos estavam passando a noite acordados, pois as fossas da penitenciária Irmão Guido haviam estourado. “As fezes se espalham no espaço onde ficamos. Tem 20 pessoas no lugar que cabem só oito. Às vezes ficam uns sobre os outros”, disse.

O homem informou que usava um aparelho de celular simples, por isso não conseguia mandar fotos ou vídeos. Ele também não poderia falar por muito tempo. “Se eu não entrar mais em contato é porque fui descoberto. Quando isso acontece, transfere de cadeia”, escreveu o detento.

Em 10 de junho, por volta das 20h, o detento informou que uma briga no Pavilhão D resultou em um homem furado. “Para os que acham que a morte é pior, não refletiram nos males que uma injustiça pode causar”, disse, sem explicar direito sobre o que estava se referindo.

Após quatro dias enviando informações de dentro do presídio, o detento passou a relatar alguns privilégios que determinados presos possuem. Segundo ele, trabalho remunerado, escola e cursos profissionalizantes só são oferecidos para aqueles que entregam os outros presos. “Essas oportunidades é pra quem faz o jogo deles. Tem que ser cabueta”, disse, acrescentando que gostaria de ter os benefícios, pois passa o dia sem fazer nada, enquanto outros detentos ficam usando drogas.

A última mensagem foi enviada no dia 12 de junho. “Hoje eles entraram atirando e nos ameaçando. Acho que as denúncias estão fazendo efeito”. Depois disso, o detento não respondeu mais às perguntas do Portal O DIA.

O Portal O DIA também entrou em contato com a Defensoria Pública do Estado. Segundo o defensor Sílvio César Queiroz, a maior violação dos direitos humanos é a superlotação, agravada com as péssimas condições de higiene e saúde, como os casos graves de Aids, tuberculose e sífilis. "A sociedade tem que compreender que quando uma pessoa perde a liberdade, ela continua tendo direito ao mínimo de dignidade, afinal somos todos humanos", afirma.

O defensor público acredita que a solução passa pelos poderes Executivo e Judiciário. "Precisa da construção de novos presídios com condições dignas e manter atendimento médico permanente dentro da unidades. O Judiciário deveria agilizar o julgamento das pessoas presas, além de ter mais critério e seguir religiosamente a legislação processual penal antes de decretar uma prisão preventiva", disse Sílvio César.

Em nota, a Sejus afirmou que abrirá uma investigação para apurar a procedência das mensagens, identificar os envolvidos, bem como o teor das denúncias.

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Por: Nayara Felizardo

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