"Se aquilo é prostituição de luxo, o que vi é deprimente", diz delegada

Daniela Barros ficou "chocada" com as condições precárias e a falta de higiene na Beth Cuscuz

14/08/2012 07:03h - Atualizado em 21/05/2021 08:47h

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Elisabeth Nunes Oliveira, mais conhecida como Beth Cuscuz, proprietria de uma boate de Teresina que leva o mesmo nome, foi presa na manh desta tera-feira (14). Alm dela, mais sete pessoas foram detidas. As prises so decorrentes da Operao Aspsia, de combate a crimes ligados explorao sexual, deflagrada nesta tera pela Polcia Civil do Piau. As investigaes tiveram incio h 1 ano e 3 meses.

O dono da boate Copacabana, Carlos Roberto da Silva Passos, vulgo "Carlo", tambm est entre os presos. As pessoas detidas so acusadas de favorecimento prostituio, formao de quadrilha e trfico interno de pessoas, ou seja, atrair pessoas de outros estados para o mercado do sexo.

As boates Beth Cuscuz e Copacabana localizam-se, respectivamente, nos bairros Cristo Rei, na zona Sul da cidade, e Dirceu Arcoverde, na zona Sudeste.

Fotos: Jailson Soares/PortalODIA.com

Boate Beth Cuscuz

Boate Copacabana

Os outros seis presos so pessoas que davam suporte ao esquema, que vo desde scios e gerentes dessas casas noturnas at proprietrios de sites destinados a anncios de acompanhantes. Todos foram levados para a sede da Comisso Investigadora do Crime Organizado (Cico), onde foram interrogados.

De acordo com a polcia, alguns dos envolvidos nesses crimes so: Keila Marina de Sousa Jacob, mais conhecida como Cludia Pires, scia da boate Beth Cuscuz; Rejane Ferreira Melo, gerente da mesma boate; Gorethi Maria Soares de Oliveira Ribeiro e Desterro, gerentes da boate Copacaba, alm dos proprietrios dos sites www.pecadocazual.com.br e www.soastops.net, respectivamente, Alan Wolner da Silva Leandro e "Santos".

Entrada da casa chamada de "rancho"

Contudo, algumas dessas pessoas ainda no foram presas, como Cludia Pires, que se encontra em outro estado. Segundo a polcia, ela est sendo monitorada e pode ser presa a qualquer momento.

As prises so temporrias, com durao de cinco dias, prorrogveis por mais cinco, mas podero ser convertidas em preventivas, para que possam se estender por mais tempo.

Alm dos mandados de priso, a polcia cumpriu trs mandados de busca e apreenso e vrios de conduo coercitiva, tanto nas duas boates em questo como numa casa chamada de "rancho", localizada na Rua lvaro Ferreira, no bairro Cidade Nova, zona Sul da cidade. Essa casa serve de alojamento para supostas prostitutas, quase todas vindas de outros estados, principalmente do Sul do pas.

Dentre os materiais apreendidos, esto comprovantes de pagamentos e material publicitrio de eventos que fazem aluso prostituio.

Com os mandados de conduo coercitiva, mais de 40 mulheres que seriam garotas de programa foram levadas s bases da operao para prestar depoimentos. Em seguida, foram liberadas, j que so consideradas apenas vtimas do esquema. Algumas foram inclusive fotografadas retornando para o "rancho" aps os depoimentos.

O delegado geral da Polcia Civil, James Guerra, afirmou que o inqurito est apenas comeando. "Todas as pessoas envolvidas sero ouvidas, na condio de depoentes. Foram feitas percias nos locais, no sentido de comprovar as condies a que estavam submetidas essas mulheres e que esses estabelecimentos no funcionavam apenas como bares, restaurantes e casas de shows", destacou.

Ao todo, cinco sites relacionados a esses crimes foram retirados do ar, e outras medidas cautelares foram determinadas. Alm do Pecado Cazual e S as Tops, foram alvos da polcia os sites www.mostrateresina.com.br, www.gatasteresina.net e www.multiescolha.com. O proprietrio do Mostra Teresina, Francisco Soares Bandeira, tambm foi preso.

Esses sites continham uma espcie de "cardpio de mulheres", com fotos delas nuas e os dados de cada uma, como telefones para contato e onde atendiam aos clientes. Para manter as fotos nos sites, as garotas de programa tinham que pagar, mensalmente, o valor de R$ 300,00, mas, se quisessem mais ter mais destaque, tinham que pagar mais caro.

James Guerra ressaltou que ficou comprovada a relao entre os proprietrios desses sites e os donos das boates.

Sobre o porqu de uma operao desse tipo no ter sido deflagrada anteriormente, a delegada Andrea Magalhes, titular da Delegacia de Proteo Criana e ao Adolescente (DPCA), explicou apenas que foi preciso bastante tempo para colher provas suficientes contra os acusados.

O nome da operao, Aspsia, em aluso mulher da Grcia Antiga que foi uma das amantes de Pricles e encontrava-se no mais alto patamar das prostitutas da Grcia. Ao todo, 50 policiais participaram da operao, que teve como ponto de partida uma notcia publicada pelo Jornal ODIA.

A delegada Andrea com a reportagem do Jornal ODIA que desencadeou a operao em mos

Quadrilha agencia menores

Alm das quadrilhas de Beth e de Carlo, a polcia identificou outro grupo que responder pelos mesmos crimes. A delegada Daniela Barros, do Servio de Operaes Especiais da Polcia Civil (SOE), que coordenou a operao, informou que foram presas duas agenciadoras pertencentes a essa terceira quadrilha. Elas foram identificadas apenas como Andresca e Jssica Mel.

Esse ncleo, disse a delegada, tambm atua no Dirceu e estava aliciando inclusive menores de idade. Uma adolescente de 15 anos foi levada Cico para depor. Acompanhada de sua av, a menor confirmou que fazia programas, mas mentiu sobre a sua idade, dizendo ter 17 anos.

Ela foi ouvida pela delegada Andrea Magalhes. Um programa com a menor custava R$ 200,00, e as agenciadoras ficavam com 50% do pagamento.

De acordo com informaes da polcia, algumas menores chegam a realizar de 20 a 30 programas em um nico dia.

A delegada Andrea explicou que a jovem ser encaminhada ao Conselho Tutelar e no descarta a possibilidade de haver mais vtimas menores de idade. "Era uma teia criminosa e ns fomos conseguindo chegar a outros ncleos, outros estabelecimentos. Essa casa no Dirceu era de menor porte, de mulheres que j eram garotas de programa e resolveram agenciar outras. Cada um vai responder medida de sua participao", afirmou.

"Se aquilo prostituio de luxo, o que eu vi deprimente", diz delegada

A delegada Daniela Barros se disse "chocada" com o que viu na boate Beth Cuscuz. "Possui quartos onde as mulheres residiam, em que os programas eram realizados em condies precrias, sem a menor higiene. Se aquilo prostituio de luxo, o que eu vi deprimente", relatou a delegada.

Segundo a polcia, o valor de um programa na Beth Cuscuz variava de R$ 150,00 a R$ 500,00. No local, foram apreendidas agendas com anotaes dos lucros obtidos. Um s cliente chegava a gastar de R$ 8 mil a R$ 50 mil, o que confirma o alto poder aquisitivo dos frequentadores da boate.

A polcia encontrou tambm inmeros blocos que evidenciam as metas que as garotas de programa tinham de cumprir. "Cada garota que danava na pista tinha que deixar R$ 120,00 para a casa por dia. Os garons faziam o controle. Enquanto elas no liberassem esse dinheiro no podiam sair", destacou Daniela.

Alm disso, havia boletos em que constavam pagamentos feitos a taxistas. Eles recebiam R$ 20,00 por cada cliente levado at a casa noturna e at um bnus de R$ 50,00, se conseguissem levar mais de 25 por noite.

Pelo menos 30% do valor arrecadado com os programas era revertido prpria Beth. No entanto, segundo a delegada Andrea Magalhes, Beth Cuscuz chegou a afirmar que o estabelecimento vinha passando por dificuldades financeiras e, por isso, teria arrendado o imvel para Cludia Pires.

A delegada ressaltou que Rejane, que atuava como secretria de Beth, cuidando do agenciamento das mulheres e dos anncios do site prprio da boate, estava at cogitando montar sua prpria casa de prostituio.

VEJA VDEOS

Ambiente interno da boate Beth Cuscuz

Uma das sutes onde os programas eram realizados

Cumprimento de um dos mandados de priso

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Por: Juliana Dias e Maria Romero

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