Delegado do Greco fala sobre os crimes de pistolagem no Piauí

Crime geralmente envolve relações econômicas e de poder.

11/09/2014 13:59h

Compartilhar no

Desde que foi criado, em 2012, o Grupo de Repressão ao Crime Organizado investigou e solucionou quatro crimes de pistolagem no interior do Piauí. O número não representa o total desse tipo de ocorrência no Estado, já que as delegacias regionais e também a delegacia de Homicídios, em Teresina, investiga alguns casos.

Segundo o delegado do Greco, Tales Gomes (foto ao lado), os crimes de pistolagem têm características muito parecidas e sempre envolvem relações familiares, econômicas ou de poder. “É preciso separar da questão das drogas, que também se trata de execução, mas a vítima é sempre um devedor do tráfico. Na pistolagem, a situação do executado é outra”, disse o delegado.

A diferença está principalmente na relação de proximidade entre a vítima e o mandante, bem como na forma como o crime é praticado. “Os disparos, sempre em grande quantidade, são certeiros, principalmente na região do crânio. O assassino não se preocupa em cobrir o rosto, pois na maioria das vezes não é daquele lugar. A fuga é planejada e facilitada”, conta Tales Gomes.

Quando se trata de crime de pistolagem, mandante e vítima têm relações muito próximas - inclusive de parentesco - e que foram rompidas. Segundo o delegado, o vínculo pode até ser mantido como uma estratégia de disfarce, mas há sempre uma situação que leva ao estopim.

Características do executor

Sobre o pistoleiro, o delegado descreve que ele pode ser ocasional, ou seja, uma pessoa que já pratica alguns crimes na região e é contratado pelo mandante como um “free lancer". Por outro lado, existem os pistoleiros profissionais, que vivem especificamente do dinheiro que ganham para matar. Nesse caso, os pistoleiros geralmente pertencem a um mesmo grupo e são pessoas já conhecidas e temidas na região onde vivem. 

Segundo Tales Gomes, a situação acontece em Picos. "Quando estávamos investigando o crime contra o Epaminondas Coutinho (foto abaixo), as pessoas sabiam dizer qual era a família de pistoleiros. No inquérito foi possível comprovar e materializar o procedimento, prendendo os envolvidos”, disse.

Um dos pistoleiros que atuavam naquela região é Tiago Osório, preso por facilitar a fuga do assassino do cantor Edimar Bringeo, que teve a morte encomendada pelo próprio primo Sivoney Clementino Barros. “Ele é da mesma família dos assassinos do Epaminondas”, afirma o delegado.

Denunciar ameaças pode inibir crimes de pistolagem

Em nenhum dos crimes de pistolagem investigados pelo Greco, a vítima havia formalizado a denúncia de ameaça ou de outros problemas envolvendo sua relação com determinada pessoa. Para o delegado, o registro do Boletim de Ocorrência poderia ter evitado alguns desses homicídios.

Um dos casos é o do cantor Edimar Bringeo (foto abaixo), de Picos, que já estava sendo verbalmente ameaçado pelo primo, Sivoney. “Depois que fizemos a prisão dos envolvidos, uma pessoa próxima à vítima disse que chegou a pensar em sugerir a formalização da denúncia, mas não o fez. Por mais que a estrutura de segurança tenha suas deficiências, é preciso fazer sua parte no sentido de provocar as autoridades”, orienta o delegado.

Segundo Tales Gomes, a denúncia prévia pode inibir o possível mandante. “Ele vai saber que caso aconteça algo com aquela pessoa, já haverá uma linha de investigação relacionada ao seu nome”, defende o delegado. Além disso, mesmo que o crime aconteça, a denúncia da vítima tem a função de agilizar o trabalho da polícia.

Fato é que o crime de pistolagem não vai acabar, mas na opinião de Tales Gomes, esse tipo de ocorrência exige uma resposta pontual, com processo e julgamento dos envolvidos para evitar a sensação de impunidade.

Como se trata de um crime que envolve poder e dinheiro, a resposta dos órgãos de segurança tem a importante função de mostrar que nenhum criminoso, seja ele executor ou mandante de um assassinato, teria vantagem perante a lei.

Investigações em Teresina

Em menos de um mês, em Teresina, dois empresários foram executados na zona Leste, mais especificamente na área nobre da cidade: Valdinei Luís de Sousa - morto na porta de um condomínio na noite do dia 16 de julho - e Izael Alves Pereira, assassinado dentro do carro próximo à avenida Presidente Kennedy.


Ambos os casos têm característica de crimes de pistolagem, pois os executores chegaram e atiraram nas vítimas, as quais não tinham histórico de envolvimento com a criminalidade. Os assassinatos estão sendo investigados pela Delegacia de Homicídios e ainda não há informações sobre a motivação.

Casos investigados pelo Greco

Vítima: Emídio Reis (foto ao lado)

O caso: Ex-vereador de São Julião foi morto em fevereiro de 2013. Os assassinos deram dois tiros na vítima e depois o enterraram vivo. O corpo foi encontrado no matagal próximo ao município de Pio IX, na região Sul do Estado.

Investigações: A polícia indiciou cinco pessoas que estariam envolvidas no crime, entre elas o vice-prefeito de São Julião, José Francimar Pereira, suspeito de ser o mandante. Os outros presos são o suposto agenciador Joaquim Pereira Neto e os possíveis executores Antonio Sebastião de Sá, José Gildásio da Silva Brito e Valter Ricardo da Silva.


Vítima: Epaminondas Coutinho

O caso: O empresário de Picos foi assassinado em maio de 2013 com 11 tiros. O valor repassado aos executores seria de R$ 10 mil reais.

Investigações:A polícia descobriu que a esposa do empresário, Antonia de Souza Andrade, teria sido a mandante do crime. Ela foi presa dentro da sua própria residência. Os acusados de executarem a vítima são Irinaldo José do Nascimento, conhecido como Teté, de 21 anos, José Manoel dos Santos Matos, conhecido como Santino, de 33 anos e Tiago Osório, 22 anos. Todos estão presos.


Vítima: Edimar Bringeo

O caso: O cantor de Picos foi morto com um tiro à queima roupa na nuca quando jogava baralho com amigos. O crime aconteceu em maio de 2013.

Investigação: O primo da vítima, Sivoney Clementino Barros, é o suspeito de ser mandante do crime, motivado por uma briga de família que iniciou depois que a irmã de Sivoney teria retirado uma quantia de dinheiro da conta da tia. Sivoney está preso, assim como Tiago Osório, que teria dado fuga ao executor. Este, por sua vez, foi identificado, mas está foragido.


Vítima:Emanoel Gomes da Silva

O caso: A vítima estava sentado na porta de casa, no município de Fronteiras, em setembro de 2013, quando o assassino descarregou todas as balas de um revólver contra sua cabeça.

Investigação:O caso segue em segredo de justiça, mas alguns suspeitos já estão presos.

Fotos: Jailson Soares/ODIA e Divulgação

Compartilhar no

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!


Deixe seu comentário