Vítimas de abuso sexual sofrem com transtornos pós-traumáticos

Ansiedade, sensação de impureza e medo de se relacionar com outras pessoas são os principais reflexos dos traumas sofridos quando uma mulher é abusada sexualmente.

25/06/2017 08:06h - Atualizado em 25/06/2017 12:41h

Compartilhar no

Quando alguém passa por uma situação traumática, é normal apresentar certos sintomas, como ansiedade, pânico ou depressão. No caso de uma mulher ou de crianças que sofreram algum tipo de abuso, somam-se outros fatores sérios, como o sentimento de culpa, a sensação de impureza e o medo de se relacionar com outras pessoas.

A psicóloga Claudinéia Uchôa explica que os transtornos pós-traumáticos em vítimas de abusos podem ter reflexos na vida profissional, na execução de tarefas do dia-a-dia, incluindo certas situações que elas não sabem explicar de onde vêm.

Esses transtornos vão se manifestar em níveis distintos, dependendo do tipo de trauma sofrido:  há casos em que o abuso aconteceu uma única vez e tem um impacto fortíssimo na mente da vítima; mas também há casos em que os abusos aconteceram continuamente, o que leva a uma situação de sobrecarga emocional que vai se acentuando com o passar do tempo até culminar em transtornos severos, levando a atos impensáveis.

Somente aos 30 anos, Amanda (nome fictício) conseguiu recordar com alguns detalhes do que aconteceu há mais de duas décadas, quando ela era apenas uma criança. Até então, a lembrança daquele dia ficava oculta por algum tipo de bloqueio emocional.

Já adulta e fazendo terapia há mais de um ano, ela descobriu de onde vinha aquela sensação de ser indigna, suja, impura. “Meu primo abusou de mim e minhas tias viram. Uma delas ficou fora de si e me disse muitas coisas. Consigo me lembrar das expressões dela, não me lembro das palavras”, conta Amanda. O julgamento que recebeu da tia, mesmo sendo a vítima, alimentou em Amanda um sentimento que carregou até a fase adulta. “Nas minhas relações eu mantenho essa sensação de que estou sendo julgada como minha tia fez”, afirma. 

Ela tinha oito anos e o primo era um adolescente de aproximadamente 15 anos. “Ele me oferecia coisas simples, como refrigerante e batata frita. Eu me sentia mal por ter permitido o abuso, mas agora entendo que não posso carregar essa sensação de que eu autorizei, porque eu não tinha ideia do que estava acontecendo”, reflete. Compreender isso era o que faltava para Amanda evoluir no seu processo terapêutico. “Eu achava que esse sentimento de ser indigna era pelo fato de eu ter engravidado sem casar, mas agora entendi que veio de antes e a gravidez só reforçou”, disse.

A psicóloga Cinthya Araújo reforça que a vítima de abuso jamais iria consentir a violência. No caso das crianças, elas sequer sabem o que está acontecendo. “Então, o agressor se aproveita dessa inocência para dizer que abuso é algo normal, prazeroso e a criança acaba cedendo mais pela sua incapacidade de discernir aquilo, não porque quer. Porque é levada àquilo”, afirma.

Memória reprimida

A situação de Amanda é mais comum do que se pensa em pessoas que sofreram abusos sexuais quando crianças. A mente da vítima tende a bloquear a lembrança, guardando-a no inconsciente, mas mesmo assim não deixa de afetar ações e pensamentos. 

A psicóloga Cinthya Araújo explica que a experiência do abuso fica aparentemente esquecida, mas a memória continua se baseando nela. Daí a sensação de impureza que crianças abusadas sexualmente têm, além da sensação de culpa por um crime do qual ela foi vítima.

A psicóloga Cinthya Araújo diz que é comum vítimas sentirem até culpa por terem sido abusadas(Foto: O DIA)

Quando atinge a idade adulta, a culpa por ter permitido os abusos tende a se manifestar de forma mais contundente, principalmente porque a vítima não compreende as motivações que a levaram a permitir o ato. “Na contemporaneidade, isso se potencializa a níveis extremos, porque a sociedade tem a cultura de culpar a vítima em casos de abuso sexual, principalmente se ela for do sexo feminino”, afirma a psicóloga.

Mas a memória reprimida do abuso não se manifesta somente na sensação de culpa que não se sabe de onde vem e nem somente na sensação de impureza que a vítima carrega. Ela também vai refletir nos comportamentos e, principalmente nas relações sociais que a pessoa estabelece em um determinado meio. Por exemplo, a falta de prazer no ato sexual, a sensação de nojo pela prática sexual e a própria dificuldade em começar a ter uma vida sexual ativa.

O acompanhamento psicológico é fundamental no processo de superação dos traumas gerados por um abuso. Ele vai auxiliar a vítima no caminho do autoconhecimento para tentar livrá-la das amarras que a prendem à experiência causadora dos traumas. A terapia vai ressignificar aquela experiência traumática, para que a pessoa se coloque no lugar que lhe cabe na situação: a de vítima e não a de cúmplice.

Traumas

Em uma situação de risco. O que você faria? Lutaria ou fugiria? Em momentos de tensão, seu corpo e sua mente vão trabalhar para que você não sofra uma sobrecarga emocional. Isso porque, caso ocorra, a experiência permanecerá presente na sua vida a partir de então, por mais desagradável que seja.

A esse fenômeno, a psicologia dá o nome de trauma e ele pode impactar a vida de uma pessoa em diferentes graus. Lutar, fugir, congelar ou desfalecer são os quatro padrões de respostas frente a situações de perigo que podem produzir traumas.

Em mulheres vítimas de abuso, a terapia vai trabalhar o reprocessamento do trauma por meio da integração de sua lembrança com outras áreas do cérebro, para que a própria mente se autorregule.

De acordo com Claudinéia, o reprocessamento vai permitir à vítima liberar a raiva relacionada ao abuso, a timidez ou o excesso de medo por conta da situação vivida. “A psicologia vai trabalhar para reprocessar a experiência traumática. Tudo que acontece na nossa vida é para o nosso aprendizado e as experiências são armazenadas na mesma região do cérebro para nos dar um senso de adaptação. No caso do trauma, a experiência é armazenada separadamente, mas não no sentido de adaptação, por isso a sensação de que qualquer coisa relacionada a ela gera incômodo e medo”, explica a psicóloga.

Muitas vezes, esses sentimentos impedem a vítima de procurar ajuda. A sensação de que sofreriam represálias fazem elas se calarem diante das agressões, do medo de reviver o trauma ou de intensificar o nível dos abusos. “São experiências que deixam marcas pelo resto da vida, mas que podem ser trabalhadas. Uma mulher que sofre algum tipo de abuso vai desencadear uma série de retrações e limitações comportamentais e isso vai se manifestar nas coisas mais simples, que para outras pessoas parecem corriqueiras, mas para ela se tornam verdadeiros desafios”, finaliza Claudinéia.

Abuso na infância

Normalmente, uma criança não percebe que está sendo abusada, já que o abusador se utiliza de vários artifícios para mascarar seu ato, como por exemplo oferecer presentes, dizer que se trata de uma brincadeira, que só quer ser amigo da criança. Sem ter noção de que se trata de um crime, a vítima acaba se sujeitando e depois, quando se dá conta de que aquilo lhe faz mal e que não quer mais continuar, passa a sofrer ameaças, torturas físicas e psicológicas por parte de seu abusador.

Quando uma criança sofre qualquer tipo de abuso, e não apenas o sexual, os traumas psicológicos são severos e afetam também as relações sociais da pessoa quando chega à fase adulta, e a relação que tem consigo mesma.

A psicologia Cinthya Araújo explica que a partir do momento que uma criança sofre abusos, ela se torna passiva diante daquela situação. Essa passividade geralmente forma adultos depressivos, ansiosos e com baixa autoestima.

A pessoa, então, encontra na agressividade a forma de lidar com o desequilíbrio pós-traumático e a tendência é comportar-se da mesma forma que seus agressores se comportavam, com a sensação de que ela está assumindo o controle da situação que antes não tinha. “Os pais devem ter todo o cuidado do mundo no trato com seus filhos, principalmente nos primeiros anos de vida, quando a pessoa está formando sua personalidade”, pontua a psicóloga.

Atendimento a vítimas

A delegada Carla Brizzi, do Serviço de Operações Especiais, diz que é preciso compreender o sofrimento das mulheres vítimas de abusos, a fim de fazer um atendimento adequado, informando a vítima sobre a situação e os seus direitos.

Ela pontua que é muito comum as mulheres vítimas de violência terem vergonha de buscar ajuda e algumas chegam a não reconhecer que são vítimas. “As mulheres sofrem um forte abalo emocional e psicológico decorrente do ato. Além do medo e da vergonha de denunciar o crime, ainda há o fato de nem sempre existirem testemunhas ou outros meios de prova, o que torna mais difícil para a vítima ter a coragem de buscar apoio”, diz a delegada.

Delegada Carla Brizzi afirma que vítimas precisam receber todas as orientações necessárias para ficarem conscientes de seus direitos (Foto: O DIA)

Brizzi acrescenta que, não raro, o agressor exerce um papel de poder, autoridade, ou superioridade física em relação à vítima, o que a leva a desacreditar que será feita justiça.

Por conta de todas essas questões, muitas mulheres apresentam distúrbios psicológicos em razão da violência sofrida, sendo necessário acompanhamento profissional.

Segundo a delegada, a revitimização pode acontecer pelo despreparo no atendimento, pelo desconhecimento das questões psicossociais ligadas às situações de violência, e ainda pela insensibilidade, falta de empatia e machismo. “É importante que os servidores da Polícia Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário estejam preparados para lidar com esse tipo de atendimento”, pontua.

A delegada finaliza afirmando que o ideal é que exista uma mudança de mentalidade na sociedade em geral a fim de que as situações de violência contra a mulher sejam erradicadas. Mas, uma vez ocorrendo a violência, ela lembra que o Estado deve prestar um atendimento humano rápido e eficaz à vítima, amparando-a por meio de todos os recursos jurídicos e de assistência psicológica e social disponíveis.

Orientações

As mulheres vítimas de violência sexual e/ou doméstica devem procurar a Polícia Civil para serem atendidas e registrarem o boletim de ocorrência. No caso de violência doméstica, o Delegado de Polícia poderá solicitar ao juiz que sejam concedidas as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. 

O atendimento psicológico está disponível nos centros especializados em assistência social (CREAS e CRAS).


Notícia relacionada:

Violências reais e simbólicas: mulheres enfrentam abusos diários 



Compartilhar no
Por: Maria Clara Estrela

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!


Deixe seu comentário