Violento processo de colonização massacrou tradição indígena no Piauí

Índios resistem ao preconceito e à perseguição histórica e querem reconhecimento e respeito à sua diversidade cultural.

19/04/2018 07:07h

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Pelo nome, Francisco Gomes Sobrinho pode ser reconhecido como um piauiense como outro qualquer. A diferença é que ele faz parte de uma parcela minoritária da população do Piauí, os indígenas. Ele é pajé da tribo Tabajara no município de Piripiri, região Norte do Estado, e cobra melhores condições de vida para ele e todos os indígenas que habitam o território piauiense.

“Precisamos de um reconhecimento melhor, pois somos todos humanos. Temos mais de três mil antecedentes dentro de Piripiri, mas existe ainda um preconceito grande e muita discriminação. Existe uma preocupação para mantermos a cultura e a tradição indígena no Piauí, temos lutado e se organizado”, disse o pajé.


Segundo o Censo 2010, o Piauí possuía cerca de 2.944 pessoas que se autodeclararam indígenas (Foto: Assis Fenandes/O Dia)

De acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, o Piauí possuía cerca de 2.944 pessoas que se autodeclararam indígenas, 1.333 somente em Teresina. Segundo Charles Oliveira, estudante de arqueologia da Universidade Federal do Piauí (Ufpi), o número poderia ser maior, mas ainda há um receio dessa população, historicamente perseguida e massacrada.

“Houve muita morte, genocídio e etnocídio, e alguns grupos, para não morrerem, fugiram para estados como Ceará, Maranhão, Bahia e Pernambuco, mas uma pequena porcentagem permaneceu no Estado”, explica o estudante.

Francisco Gomes confirma as informações e atesta que é necessária uma maior valorização da cultura indígena em todo o país, mas principalmente no Piauí, exatamente pelo violento processo de colonização. “Aqui no Piauí, tivemos uma desonra muito grande aos antepassados e ficamos isolados. A cultura indígena tem que ser resgatada, pois está sendo esquecida”, disse o pajé.

Segundo o estudante de arqueologia, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) já identificou e reconheceu três populações indígenas diferentes no Piauí. “Em Piripiri, encontramos os Tabajaras; no povoado Nazaré em São Francisco do Piauí, encontramos os Tabajaras e os Tapuio, e, em Queimada Nova, no extremo Sul do Estado, na fronteira com a Bahia e Pernambuco, encontramos os Cariri de Serra Grande”, informa.


Estado tem representantes das tribos Tabajaras, Tapuio e os Cariri de Serra Grande (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Invisibilidade

Historicamente, os povos indígenas foram massacrados e invisibilizados, é o que afirma o escritor Daniel Mundukuru, que também é professor com formação em filosofia, história e psicologia, com mestrado em antropologia social pela USP.

Segundo ele, é necessário um novo olhar para as populações tradicionais em todo o país, mas em especial no Piauí. “A história brasileira negou a presença indígena aqui no Estado e é preciso ter um resgate dessa cultura e ancestralidade do povo do Piauí, para construir inclusive a própria identidade do Estado, mostrando que é um lugar que tem história, origem, tradição e uma cultura que não nasceu do nada, mas que foi se constituindo a partir daquilo que é da origem do lugar, que são os povos tradicionais que aqui habitavam”, comenta Mundukuru.

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Por: Breno Cavalcante - Jornal O Dia

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