Violências reais e simbólicas: mulheres enfrentam abusos diários

O DIA acompanha depoimento de mulheres que relatam a dificuldade de superar barreiras sociais, simples, e unicamente, pelo fato de serem mulheres

24/06/2017 17:06h

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Iarla Barbosa tinha 25 anos quando perdeu a vida ao ser vítima de feminicídio, na última segunda-feira (19), em Teresina. A jovem foi alvo de um tipo de violência extrema, a qual são vítimas mulheres em diferentes esferas da sociedade, mas, infelizmente, não a única. Além de estarem sujeitas a perder a vida, as mulheres são submetidas a agressões outras que passeiam por aspectos cotidianos nas esferas da vida doméstica ou social. 

Nesta reportagem, O DIA acompanha depoimento de mulheres que relatam a dificuldade de superar barreiras sociais, simples, e unicamente, pelo fato de serem mulheres. Como no caso da estudante Iarla, a violência de gênero mostra suas consequências diariamente, sejam elas simbólicas ou reais. 

Refletir sobre essa realidade e entender as distintas formas de violência permite às vítimas o reconhecimento de suas demandas, com todas as suas peculiaridades, e possibilita elaborar as melhores políticas para o enfrentamento a esse contexto de abusos. Em seu cenário mais impactante, a violência que ceifa a vida de pessoas do sexo feminino a partir da motivação de práticas culturais reforçadas pelo machismo, expõe seu cenário mais degradante. 

A pesquisadora, mestre em Antropologias e coordenadora Grupo de Estudos Sexualidade, corpo e gênero (SexGen), Clarissa Carvalho, alerta para discursos que reforçam o contexto de violência tão latente na sociedade. “Em acontecimento como esse da estudante que foi morta, o que vemos é uma tendência geral em isolar o caso. Taxam o rapaz de ‘monstro’, ‘descontrolado’, mas a verdade é que esse cara levou as últimas consequências algo que a própria sociedade sustenta. Não estou dizendo que todos os homens matariam mulheres usando o ciúme como desculpa, mas a sociedade sustenta esse tipo de atitude em ações cotidianas”, alerta. 


Julgar a mulher pela roupa que usa, os locais que frequenta, com quem se relaciona, são alguns desses aspectos. Na visão nada lógica de uma sociedade baseada em pilares machistas, a vítima torna-se culpada por se permitir buscar direitos iguais. “A gente sustenta nas pequenas coisas essas atitudes. Nós mulheres chegamos a questionar nosso próprio comportamento, porque há uma pressão para isso. Essa ideia que os homens têm de ver a mulher como propriedade, a mulher que não pode dançar com outro cara porque o faz perder a cabeça, que deve ser controlada por ele, é muito comum. É esse discurso que permeia varias ações na sociedade. Hoje, nós temos direitos civis avançados, mas ainda vivemos por uma cortina de fumaça, em que esses abusos contra a mulher estão sempre presentes”, explica Clarissa. 

A pesquisadora lembra aspecto como a disparidade salarial entre homens e mulheres. Segundo levantamento da Catho, por exemplo, mulheres ganham menos do que os homens em todos os cargos. Segundo o instituto, as diferenças salariais em oito funções pesquisadas chegam a 62% no cargo de consultor; na análise por setor, homens ganham mais em 25 de 28 aéreas. 

Para enfrentar essa realidade de abusos, o que se desenha como esperança é o entendimento da geração que se forma em não aceitar esse contexto desigual. É onde movimentos feministas, que buscam nada mais que a igualdade entre os gêneros, tomam forma em espaços reais e virtuais dentro da sociedade. “Eu vejo como um trabalho de formiguinha para mudar esse contexto. Nada muda do dia para a noite. A popularização do feminismo, meninas muito jovens endossando o discurso e saindo em defesa de um tratamento igualitário, contribui para isso. Apesar de, por vezes, distorcido aos olhos de muitos, o movimento feminista vem para transformar a sociedade. Tenho certeza se perguntarmos para mulheres e até para homens também, se eles acham justo que o sexo masculino deva ter mais direitos que o sexo feminino, ninguém vai concordar. E o que se busca é isso: igualdade e fim dessa violência”, finaliza. 

Direito e ir e vir negado

A insegurança se espalha por diferentes níveis na sociedade, isso é fato. É difícil alguém se sentir seguro por completo ao lidar com o cenário da violência urbana tão latente na sociedade. No entanto, para mulheres, mesmo no cenário menos desafiador, o medo de abusos ganha um tom ainda mais presente no cotidiano. É quando até andar sozinha pela rua se torna um processo alimentado pelo medo. 

É assim que Ana Maria relata viver diariamente: temerosa. O andar sempre apressado, olhar atento e respiração ofegante não deixam negar. Para Ana, e para muitas outras mulheres, além de conviver com medo de assaltos, andar sozinha pela rua significa temer assédios e violências mais graves como tentativas de abusos. “Quando eu vou para o trabalho, no meio da tarde, eu até vou sozinha. Sempre com medo, mas por ser durante o dia a gente passa menos perigo. À noite, para voltar para casa, uma pessoa vai me pegar porque não tenho coragem de me arriscar em voltar só”, explica. 

É assim também com a estudante Jéssica Silva, que já chegou a ser seguida na rua durante o percurso de casa à escola. “Um dia, quando voltava para casa da escola, já no fim da tarde, percebi que tinha dois rapazes que estavam me seguindo. Na hora, deu aquele medo no corpo inteiro. Foi quando parei em um comércio e esperei vê se eles iriam embora, logo depois, um colega apareceu e me deixou em casa”, relembra. 

A jovem alerta: “a gente sente medo por ser mulher”. E esse medo impede que mulheres de diferentes faixas etárias permitam-se exercer seu direito de cidadania de ir e vir como garante a constituição. “Sei que meus amigos sentem medo de ser assaltados quando andam só, afinal, todo mundo sente, mas de ser abusado, de sofrer um estupro, tenho certeza, só nós mulheres sabemos o que significa, alerta. 

*A matéria completa está na edição deste final de semana no Jornal O DIA

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O DIA

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