Vila Operária: o berço da tradição religiosa na capital piauiense

Fé move cerca de 15 mil pessoas todas as terças-feiras para participar da Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro no bairro da zona Norte

16/08/2014 08:45h

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O ano era 1946. O cenário totalmente diferente do que se observa hoje na Vila Operária, zona Norte de Teresina. As lembranças são de dona Maria Teixeira Rodrigues, que está prestes a completar 94 anos. Ela é uma das moradoras mais antigas da região e conta com saudosismo como tudo começou.

A moradora foi para a Vila Operária com o marido (in memorian). “Moramos dois anos de aluguel e depois ganhamos esse terreno que é onde moro hoje. O meu marido foi um dos fundadores do bairro, chegou aqui quando não tinha nada. Acompanhei cada tijolo colocado naquela igreja”, relata. “Não tinha nada aqui. Uma casa aqui, outra acolá, não tinha esses comércios”, completa ela.

A vocação religiosa da Vila Operária veio com o tempo. A área, que hoje compreende o bairro, fez parte, até a década de 1930, do bairro Mafuá. A região era conhecida, a princípio, como Vila do Abreu. Por lá, operários responsáveis pela construção de uma estrada de ferro começaram a fixar residência e o local passou a ser chamado de Vila Operária, em alusão aos operários da obra.

Nessa época, os trabalhadores, incentivados pelos missionários que ali chegaram, começaram a realizar pequenos novenários. “Fazíamos novenários. As pessoas se reuniam para rezar. Era muito bonito. Essa fé vem de sempre. Segue até hoje. Um bocado de gente vem para cá. De todo canto, para participar das novenas”, diz dona Maria, que observa a movimentação em torno da igreja.

A construção da Igreja começou aos poucos. Havia o desejo, mas também a limitação dos recursos financeiros. Para erguer as primeiras paredes, moradores faziam leilões, novenários e muito mais. “Pedíamos ajuda de uma ou outra pessoa. Começamos aos poucos. Depois que a Igreja foi construída. Só que foi crescendo o número de pessoas participando, aí tivemos que aumentar a igreja. E tem sido assim. Já foram várias reformas até a Igreja chegar ao que está hoje”, diz ela.

Na época, as ruas eram apenas becos, as casas construídas de palha. As coisas foram melhorando, o aparato do poder público foi reconhecendo o espaço e a realidade de hoje é diferente da de 1946. “Eu gostava daquela época, mas gosto mais agora, que está mais elevado”, diz a senhora, rindo.

Segundo ela, mesmo com várias oportunidades, nunca teve vontade de deixar a Vila Operária. “Já perdi quatro terrenos, em lugar bom, porque não quis sair daqui. Aqui todo mundo me trata bem. Gosto de morar perto da igreja”, diz ela, que, durante todos esses anos, sempre morou na casinha por trás da Igreja.

Já a moradora da Vila Operária, Josefina Marques, explica que a idealização da Paróquia aconteceu ainda em 1957, quando os padres redentoristas americanos vieram para a capital. Em 1960, eles foram embora, chegando os redentoristas irlandeses, que vieram com a missão de divulgar as novenas.

No começo, a construção da Igreja da Vila Operária foi mais por uma questão de necessidade. A distância entre a Igreja do Amparo ou a de São Benedito, onde se assistia a missa, era muito grande. Então a comunidade começou a discutir a questão. Foi assim que os padres Almeida, Machado e Carvalho, juntamente com a comunidade, começaram a se mobilizar. As obras começaram nos anos 50. Quando o padre Carvalho chegou, já havia o alicerce da Igreja. A pedra fundamental foi lançada por Dom Severino.

Josefina explica que os relatos históricos do surgimento da Paróquia apontam que ela pertencia ao território de Nossa Senhora do Amparo e que foi elevada a categoria de Paróquia no dia 1º de Maio de 1957, pela provisão de Dom Avelar Brandão Vilela. “O trabalho da Paróquia é amplo, envolve não apenas os aspectos religiosos, mas também questões sociais. Aqui temos grupos comprometidos com a igreja e também com várias ações sociais, a exemplo do cursinho, que oferece cursos preparatórios para jovens carentes da comunidade”, pontua.

Novenas já são realizadas há 55 anos

Quem vai para a Vila Operária às terças-feiras não tem como não presenciar um aglomerado de pessoas que se juntam em torno da igreja para participar das novenas. Elas já são tradicionais e reúnem pessoas de todas as idades e regiões da capital. As primeiras novenas, entretanto, foram realizadas ainda em 1959 e completaram 55 anos de realizações ininterruptas este ano.

Em 12 de Abril de 1959, vieram para ajudar nas Santas Missões Populares, com a presença do Arcebispo Dom Avelar, quatro missionários Capuchinhos e sete Missionários Redentoristas do Sul (São Paulo). Foram eles os responsáveis por criar a tradição da realização das novelas na Vila Operária. A missão aconteceu de 3 a 10 de Maio de 1959. Depois das Santas Missões terem se mostrado um grande sucesso, o Arcebispo de Teresina anunciou a chegada dos Redentoristas em Teresina.

O convite foi aceito com uma condição: de que se colocasse uma igreja no local de trabalho. No início, a ideia era que ela fosse instalada no bairro Vermelha, mas lá não tinha igreja e, por isso, a paróquia escolhida foi a Paróquia de São José Operário, na Vila Operária, onde a Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro já começou. A novena cresceu devagar durante esses anos por causa do grande número das confissões, pois, nesta época, os padres valorizavam muito a confissão e algumas seções da novena.

As novenas acontecem todas as terças-feiras iniciando às 5h50. De hora em hora, novas novenas são realizadas. A última delas acontece às 20h. “Cerca de 15 mil pessoas participam todas as terças-feiras da novena. São encontros para levar a mensagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Muitas pessoas participam e trazem seus relatos, afirmando que alcançaram as graças desejadas. É muito emocionante”, relata o padre Tiago Herbert, acrescentando que há relatos de pessoas que vem de Timon, no Maranhão, descalço, como penitência.

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Por: Mayara Martins

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