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Sou educadora. Sou mulher. Sou travesti

Mulheres travestis narram episódios de alegria, preconceito, medo e esperança na capital do Piauí.

26/11/2019 07:35h - Atualizado em 27/11/2019 12:27h

Em fevereiro de 2019, Letícia Carolina Pereira do Nascimento tomou posse na Universidade Federal do Piauí (Ufpi), Campus de Floriano. A docente é a primeira travesti a ocupar o cargo na instituição. Já Josiane Borges é a única da família a concluir o ensino superior. A mulher trans se formou em Serviço Social, trabalha na área e atua no movimento de Travestis e Transexuais do Piauí. Nas políticas públicas, Maria Laura dos Reis, assessora da Superintendência dos Direitos Humanos do Estado e travesti, busca informar, lutar por direitos e combater os crimes praticados contra seus pares. São histórias que se conversam, inspiram e narram episódios de alegria, preconceito, medo e esperança na capital do Piauí.


Josiane lembra do receio, em relação aos seus pais, ao se afirmar como mulher durante a adolescência - Foto: Isis Fernanda

Nas últimas décadas, a comunidade LGBTQ+ colheu grandes conquistas no Brasil e no mundo, como o uso do nome social e reconhecimento da identidade de gênero em 2009, o direito à união homoafetiva em 2013 e a retirada da transexualidade da lista de doenças pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018. As ruas, lojas, praças, escolas, universidades e ambientes de lazer de Teresina são preenchidos, agora, com mais diversidade e os movimentos sociais têm ganhado mais força.

Embora novos espaços tenham sido conquistados, há certa resistência da população em conviver com mulheres transexuais e travestis, fato que resulta, segundo Maria Laura, na marginalização dessas pessoas. “A população LGBTQ+, historicamente, vivencia essa exclusão, esse ciclo de violência que começa na família, na maioria das vezes”, comenta. “Eu atuo com a identidade política de travesti para poder tirar esses estigmas ruins que ainda existem sobre a perspectiva de que ser travesti é prostituição, é marginalidade, é drogadição, é depravação”, explica a assessora.


Maria Laura lembra reivindicações que já foram alcançadas - Foto: Divulgação

Já Josiane Borges lembra do receio, em relação aos seus pais, ao se afirmar como mulher, durante a adolescência. A assistente social confidencia que sempre se sentiu pertencente ao universo feminino, mas não tinha referências de transgêneros para se apoiar. “No momento em que eu quis me expressar da forma com a qual eu me identificava, meus pais tentavam de algum jeito me prender”, relembra.

Violência

A violência também é um dos temores que afetam a população LGBTQ+. O Brasil é considerado um dos países que mais matam travestis e transexuais no mundo. “Se eu disser que eu saio de casa tranquila todo dia, eu estou mentindo. Eu saio de casa, mas eu não sei se eu vou voltar. Porque eu posso ser vítima de um assalto, de um latrocínio, de outra coisa, mas eu posso muito mais ser vítima de transfobia”, declara Maria Laura.

Letícia Carolina diz se sentir protegida por ser professora universitária e não precisar pegar ônibus com frequência, mas isso não anula o receio que experimenta ao deixar a segurança do lar. “Não costumo andar em espaços de alta vulnerabilidade. Praticamente minha vida é de casa pra universidade. E isso me protege muito, mas não quer dizer que eu não tenha medo”, afirma.

GPtrans atua na proteção, educação e promoção de políticas públicas 

A partir do interesse de ter um órgão para proteger, educar e promover políticas públicas em prol dos transexuais, em 2010 foi fundado o Grupo Piauiense de Travestis e Transexuais (GPtrans). 

“Nós sentimos a necessidade de ter esse grupo organizado para poder reivindicar alguns direitos que ainda nos eram negados, como a questão do nome social, acesso a alguns espaços masculinos e femininos, a empregabilidade, acesso às universidades ou a própria escola mesmo, do ensino fundamental e médio”, esclarece Maria Laura.

Letícia Carolina vê o GPtrans como um coletivo de empoderamento. “Quando eu falo de empoderamento, quero destacar que ele só pode ser compreendido quando todas nós, mulheres trans, estivermos em situação de não-vulnerabilidade. Então, nós entendemos que nossa luta é coletiva. Eu, Letícia Carolina, não sou uma mulher trans empoderada enquanto outra mulher trans sofrer com a invulnerabilidade, transfobia e o preconceito”, aponta. A docente acrescenta que o “GPtrans é um grupo onde nós nos apoiamos mutuamente, aprendemos sobre o nosso gênero e nos fortalecemos enquanto um grupo de travestis”.

O coletivo já executou ações junto ao Ministério Público e Governo do Estado para visitas a presídios, formação para agentes penitenciários sobre o tratamento de detentas travestis e transexuais; cursos para profissionais da saúde e jornalistas de como abordar assuntos que dizem respeito ao gênero, dentre outros.

As reuniões do grupo acontecem uma vez por semana, com sede no prédio da Secretaria de Assistência Social e Cidadania do estado (Sasc), Centro da cidade.

Sonhos e conquistas

Chegar ao mercado de trabalho formal, fazer um curso superior e se inserir em outros espaços da sociedade são alguns dos desejos de jovens travestis e transexuais.

Josiane Borges assumiu-se mulher aos 18 anos e teve de lidar com situações desconfortáveis até cursar Serviço Social. Entretanto, viu na academia uma forma de dar voz e visibilidade à comunidade trans. “Entrei em uma faculdade que respeitou o meu nome social. Já existia uma política de nome social dentro do estado do Piauí, que era reconhecida por lei e nós conseguimos usufruir desse direito”, relata. Hoje, aos 32, Josiane pretende fazer mestrado e acrescenta “meu sonho é esse: educação, trabalho e segurança para pessoas travestis e transexuais”.


Letícia Caroline quer entrar no Doutorado e ser a primeira travesti com o título na UFPI - Foto: Divulgação

Para Letícia Caroline, a meta agora é entrar no Doutorado e ser a primeira travesti com o título na UFPI. “Após ser doutora, eu pretendo construir o meu currículo para que eu possa estar inserida dentro de um programa de pós-graduação e assim servir como referência para o recebimento de outras pessoas travestis, gays, lésbicas, que não se sentem representadas dentro da universidade”.

Já Maria Laura tem planos de continuar seu trabalho junto à comunidade LGBTQ+ e causas feministas. “O meu sonho é de que as pessoas não sejam impedidas de estar num lugar por conta da cor da pele, orientação sexual ou identidade de gênero. Ele é contínuo. Ver as travestis e transexuais no mercado de trabalho formal, trabalhando nos shoppings, nas lojas, em repartições públicas. É um sonho coletivo, de que todas as travestis e transexuais sejam consideradas cidadãs com mais respeito”.

Por: Valéria Noronha, especial para o Jornal O Dia

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