Reflexão: 2020 a partir do olhar de diferentes correntes religiosas

Católicos, evangélicos e espíritas avaliam porque esse ano foi tão desafiador

25/12/2020 09:47h

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O primeiro ano da nova década começou cheio de expectativas para os piauienses. Na economia, esperança de crescimento na geração de empregos. Na educação, o sonho da aprovação no curso superior. Na política, um ano de escolher novos representantes municipais. Na família, aquela viagem com todo mundo junto. Eram expectativas da população em geral, bem como planos pessoais.

Mas quando a pandemia chegou ao Estado, o desemprego bateu na porta de muitos. As escolas fecharam e partiram para aulas remotas pela internet, que só comprovou a desigualdade social que ainda está presente. A campanha política foi totalmente diferente, e nem todos compareceram às urnas. Muitos planejamentos familiares tiveram que ser refeitos porque parentes foram vítimas fatais do novo coronavírus.

(Foto: Arquivo/ODIA)

Em meio a tantos acontecimentos, foi à religiosidade que muitos recorreram nos momentos mais dolorosos de 2020. A fé aflorou nos corações e a esperança esteve ao lado dos piauienses. Nessa reportagem especial, o Jornal O DIA ouviu diferentes segmentos religiosos para explicar, a partir de suas crenças, o que esse ano representou para a sociedade.

Na Igreja Católica, os líderes defendem que a pandemia do novo coronavírus nada mais é do que um fenômeno natural da terra. A doutrina espírita, por sua vez, acredita que esse é o final de um processo, onde os humanos são cobrados por dívidas de existências passadas. Já os evangélicos entendem que a pandemia é o cumprimento de profecias bíblicas.

Nos próximos boxes, representantes de cada um desses segmentos religiosos aprofundam essa análise. 

Para católicos, pandemia é efeito natural

O arcebispo de Teresina, Dom Jacinto Brito, descarta o entendimento de que a pandemia do novo coronavírus seja um castigo de Deus aos humanos. O líder religioso católico lembra que a doutrina cristã acredita em um Deus bondoso e de amor para com suas criaturas. Esse tipo de fenômeno da natureza, para ele, sempre esteve presente na história.

“Pandemias, vírus, sempre houve na história da humanidade. É um fenômeno natural que, de vez em quando, desponta e que dizima boa parte da humanidade. Não vemos como um castigo divino. O Papa, desde o começo, se recusou a pensar assim, porque nós cremos em um Deus misericordioso, num pai de bondade e não em um policial que está armado”, compara.

Dom Jacinto explica que a quarentena fez com que muitos fiéis parassem sua rotina de intensa atividade para se voltar para reflexão, convívio familiar, de mais orações e acompanhamento das celebrações religiosas através das redes sociais. Ele descreve também que essa foi uma forma do ser humano entender que não pode tudo, apesar do grande conhecimento que possui. Esse ensinamento está presente na mensagem de Natal da Igreja Católica.

“Todo mundo achava que no mundo moderno poderia combater o vírus facilmente, no entanto, o vírus nos surpreende. Isso nos dá o sentido que somos criatura, não somos o criador. Essa mesma mensagem nos leva à mensagem do Natal. O homem tem que ter a humildade. Ele tem muito conhecimento, muito poder, mas não é o todo poderoso”, diz.

Dom Jacinto Brito descarta o entendimento de castigo de Deus (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

O arcebispo orienta que, nesse período de fim de ano, as atenções dos fiéis católicos se voltem para as pessoas que estão em isolamento e não poderão se confraternizar. Mesmo sem o contato físico, o religioso enumera o WhasApp e as ligações por telefone para o envio de mensagens de confiança e esperança.

Sobre 2021, Dom Jacinto Brito espera que a humildade seja a grande lição deixada pela pandemia. “Esperamos tempos melhores, onde possamos aprender a humildade, a busca conjunta de soluções humanitárias e que possamos transmitir aos mais fracos a esperança. Tem muita gente caindo pela depressão, pelo isolamento. O ser humano foi feito para o congraçamento, para a vida social. Por isso, o último documento do Papa intitula-se “Somos todos irmãos”, finaliza

Espíritas acreditam que eventos desse ano fazem parte da evolução do planeta

A doutrina espírita acredita que a pandemia recaiu sobre a humanidade em 2020 para o pagamento de “débitos” contraídos em existências anteriores e que o fenômeno terá como consequência seres mais evoluídos espiritualmente. Isso é o que explica Cristina Miranda, presidente da Federação Espírita Piauiense.

“Segundo as orientações que são trazidas por irmãos da espiritualidade, a Terra está passando do estágio de prova e expiação. É o estágio onde nós humanos passamos por dor, sofrimento, porque estamos resgatando débitos que contraímos em outras existências e, nesse período, a Terra se encontra nesse final do processo. Com essa transformação, teremos uma terra com espíritos mais evoluídos do que os que temos agora”, comenta Cristina.

“Entendemos também que, quando um planeta tem uma grande população, é preciso fazer uma limpeza e, muitas vezes, acontecem fenômenos, como exemplo do dilúvio, das guerras, onde morreram muita gente. Nesse momento de pandemia, muitos espíritos estão sendo chamados para retornar ao plano espiritual para que possamos continuar a caminhada evolutiva”, complementa.

Os espíritas também defendem que a quarentena foi uma oportunidade para os seres humanos resgatarem valores que haviam perdido ao longo da idade moderna, como a valorização da família, das amizades, do contato físico e, principalmente, da fé.

Cristina Miranda explica ainda que as orientações mostram que Deus está no comando e que a vacina é uma providência divina. “Deus facultou a inteligência ao homem para que possa executar seus propósitos. A vacina vai ser a solução e nós vamos seguir nossa caminhada”, diz.

Para o ano que está chegando, a líder espírita espera que a fraternidade seja aflorada no coração dos humanos. “Esperamos um ano de muita luz, onde nós irmãos, independente do credo, possamos praticar a fraternidade, porque é isso que o pai maior espera de cada um de nós. Jesus disse que vai reconhecer seus discípulos por muito se amarem. É um ano em que estamos depositando toda a esperança, toda a fé de que tudo vai dar certo”, conclui.

Evangélicos acreditam em cumprimento de profecias

Os evangélicos, por sua vez, defendem que a pandemia já estava prevista na Bíblia em forma de profecias. Para o líder evangélico e presidente da Convenção das Assembleias de Deus do Piauí, pastor Nestor Mesquita, a chegada da Covid-19 e os estragos provocados pelo vírus em todo mundo é sinal do final dos tempos revelados no livro bíblico de apocalipse.

“Acreditamos que essa pandemia terrível já estava profetizada. Alguns pastores até inscreveram que isso é o cumprimento de profecias e estamos nos aproximando do fim dos tempos como diz o apocalipse. São tempos sombrios pregados por Jesus quando ele esteve na terra”, explica o pastor.

Nestor Mesquita comenta que o isolamento social imposto pela pandemia foi importante para que os fiéis, assim como a humanidade, se voltassem para a leitura e o entendimento das escrituras sagradas. Nesse momento de clamor social, o pastor comunica que Deus está sabendo de tudo que acontece e agindo para corrigir os erros dos homens.

A vacina que já começou ser utilizada em vários países do mundo e deve chegar ao Piauí até o final do mês de janeiro do próximo ano é vista pelos evangélicos como uma forma de combater a doença. Qualquer vacina autorizada pela autoridade deve ser respeitada pelos fiéis evangélicos, mas a decisão sobre a imunização é pessoal.

O presidente da Convenção das Assembleias de Deus do Piauí tem esperança em das melhores para 2021 (Foto: Reprodução)

“Sobre a vacina, acreditamos que deve ter liberdade, respeitar quem não quer tomar. Nós aceitamos as orientações das autoridades. Respeitamos muito as autoridades. O governador e os prefeitos tomaram decisões importantes e sérias. Eles foram muito criticados, mas uma grande parte respeitou e nós estamos dentre os que respeitaram”, diz o pastor.

Os efeitos que o novo coronavírus irá provocar em 2021 nos mais diferentes setores da sociedade são motivo de preocupação para Nestor Mesquita, mas fica a esperança em dias melhores no ano que chega. “Esperamos o melhor, mas dizem que os prejuízos vão se estender até julho. A esperança é de dias melhores”, afirma.

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Por: Otávio Neto - Jornal ODIA

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