Transexual é expulsa por professor de banheiro feminino da Adufpi

Professor universitário é acusado do caso de homofobia.

27/05/2014 10:23h - Atualizado em 27/05/2014 10:54h

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Duas jovens afirmam ter sido vítima de machismo e transfobia ao serem expulsas do banheiro feminino da Adufpi (Associação de Docentes da UFPI) na noite do último sábado (24). Sarah Fontenelle, 28 anos, e a transexual Alcione da Silva Borges, 22, dizem que o ato de homofobia foi praticado por um professor universitário que invadiu o local onde estavam, tentando expulsá-las, especialmente a amiga transexual. Ele teria alegado que Alcione era um homem.

As jovens contam que foram agredidas verbalmente e, ao saírem do banheiro, uma aglomeração de vários homens se formou. Alcione Borges diz que alguns eram docentes da Universidade. €œEu fiquei chocada no momento. Fiquei totalmente sem ação e só chorava. Eu sempre frequentei banheiro feminino e isso nunca havia acontecido antes. No momento, eu senti que o mundo estava caindo em cima de mim. Eles ficavam dizendo que eu não podia estar ali no banheiro das mulheres. Eram mais ou menos uns 10 professores€.

Foto: Reprodução/Facebook

Sarah Fontenelle, que também presenciou o ocorrido se diz indignada com o fato. €œUm homem furioso, tomando pra si uma questão em que ele nada tem a ver. Afinal, o banheiro é feminino e, eu, como mulher, me sinto agredida ao presenciar uma coisa dessas. Eles começaram um bate boca, vieram pra cima da gente com uma violência psicológica sem tamanho€, conta.

O professor que começou o tumulto alegava que as jovens não eram associadas. €œDepois disso, eu saí correndo para procurar a diretoria do espaço. Eles pediram desculpas e disseram que iam debater. Só que, até hoje, não fomos procurada", relatou Sarah.

O caso vai ser protocolado e será aberto um processo na Delegacia de Direitos Humanos, Defensoria Pública do Piauí e Ministério Público.

Foi tentado acionar uma denúncia na noite em que o caso aconteceu, mas a Delegacia de Combate às Práticas Discriminatórias não é aberta nos finais de semana.

Segundo a Lei Estadual 10.948/2001, o ato poderia ser lido como discriminação por orientação sexual. Pode ser punido todo cidadão, inclusive detentor de função pública, civil ou militar, e toda organização social, empresa pública ou privada.

O PortalODia.comtentou entrar em contato com a diretoria da Adufpi, mas não conseguiu.


Entidades de defesa dos direitos humanos assinaram uma nota de repúdio. Veja na íntegra:

Neste último sábado (24.05), no clube dos professores da Associação de Docentes da UFPI €“ ADUPFI, em Teresina (PI), duas mulheres entraram no banheiro feminino e, em seguida, um professor universitário invadiu o local que estavam, tentando expulsá-las violentamente, especialmente a companheira transexual, alegando que se tratava de um €˜homem€™. Ambas foram agredidas verbalmente. Ao saírem, formou-se um tumulto com outros docentes universitários que as aguardavam.

Do lado de fora, os insultos se intensificaram, inclusive com ameaças expressas de assédio sexual, caso a mulher transexual tentasse utilizar o banheiro masculino. Muito abaladas, dirigiram-se à direção da ADUFPI para comunicar o ocorrido e cobrar providências. Neste momento, os agressores as perseguiram e voltaram a proferir discursos extremamente transfóbicos e machistas para fundamentarem as suas ações truculentas, alegando também que não se tratavam de associadas e que, por isso, não poderiam estar presentes naquele de trabalhadores. A direção da ADUFPI informou que o caso é uma exceção e comprometeu-se a repudiar publicamente o ocorrido.

No entanto, trata-se de uma exceção porque as pessoas transexuais seguem excluídas desses espaços e são invisibilizadas. Essa exclusão e violência fazem parte de um cotidiano sanguinário de transexuais e travestis. Negam-lhes o seu direito legítimo de autodeterminarem o gênero com o qual se identificam e, por conseqüência, vários outros direitos, como não poderem sequer utilizar os banheiros sem o risco de sofrerem violências e constrangimentos, além de não terem o reconhecimento civil de seus nomes, o direito ao trabalho digno, dentre outros.

A violência psíquica, moral e física que sofrem desde cedo, em quase todos os espaços públicos, inclusive no uso dos banheiros, demonstram o contexto de violação à dignidade humana que (sobre)vivem. A Constituição Federal de 1988 assegura o princípio da dignidade da pessoa humana e da não-discriminação, sejam em espaços públicos ou privados.

Somos o país com maior número de assassinatos de travestis do mundo. E campeões em homicídios LGBTfóbicos. Além de possuirmos índices cada vez maiores de machismo e violência contra as mulheres.

Por isso, vimos REPUDIAR este caso de transfobia e machismo, o qual se deu num ambiente de organização da classe trabalhadora, cujas agressões partiram de educadores, o que demonstra que estamos muito distantes de uma educação para igualdade de gêneros e livre de opressões. Reforçamos o nosso apoio às duas mulheres agredidas e a todas e todos que, de alguma forma, são vítimas dessas formas de opressão!

Movimento Nacional RUA! - Juventude Anticapitalisa

Corrente Insurgência - PSOL

Projeto de Extensão Popular CAJUINA

Coletivo Antônia Flor

Articulação Piauiense de Travestis e Transexuais - APTTRA

Grupo Piauiense de Transexuais e Travestis - GPTRANS

Forúm de Ongs LGBT do Piauí.

Comitê de Enfrentamento à Homofibia e Transfobia do Piauí - CEHTPI

Associação Nacional de Travestis e Transexuais - ANTRA

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