PL que obriga teste de glicemia capilar em crianças gera polêmica

Enquanto o autor da proposta defende a medida como forma de diagnóstico precoce da doença, o segmento médico contesta a eficácia do projeto.

26/04/2021 08:14h - Atualizado em 26/04/2021 08:44h

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O Projeto de Lei n° 29/2021, que visa tornar obrigatória a aplicação do teste de glicemia capilar em crianças de 0 a 6 anos pelos órgãos de atendimento de saúde do município, está repercutindo entre diversos setores da sociedade. Enquanto o autor da proposta defende a medida como forma de diagnóstico precoce da doença, o segmento médico contesta a eficácia do projeto.


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O PL, de autoria do vereador Evandro Hidd (PDT), pretende fazer com que o teste de glicemia seja incluído como um protocolo clínico, da mesma maneira que são consideradas as ações de medir a pressão arterial, frequência respiratória e temperatura dos pacientes.


(Foto:Arquivo/Agência Brasil)

O projeto foi aprovado em primeira e segunda votação no plenário da Câmara Municipal de Teresina e segue agora para a sanção do prefeito Dr. Pessoa (MDB). “O município já realiza o teste em atendimentos de urgência. Com a lei, criamos mais um mecanismo que será incluído caso o exame seja solicitado pelo médico. Assim, vai beneficiar as pessoas mais carentes, pois quem já tem condições financeiras o faz nas clínicas particulares”, afirma Evandro Hidd. 

Segundo o parlamentar, devido ao aumento significativo de diabetes em crianças, faz-se necessário adotar medidas que busquem prevenir e tratar os casos. “Os sintomas podem confundir, quanto mais tardio, mais arriscado. Se for detectada inicialmente [a diabetes], é controlável. Esse é um teste simples, rápido, barato e que dá uma amostra da situação para que o médico possa diagnosticar se a criança tem diabetes, evitando diagnóstico equivocado. Não tenho dúvidas que esse PL contribuirá e muito para uma identificação precoce da diabetes e salvará muitas vidas”, defende Evandro Hidd.


Evandro Hidd. Foto: Reprodução

“Esse exame não serve para diagnóstico”, diz endocrinologista

Por outro lado, o endocrinologista André Gonçalves contesta a eficácia prática do Projeto de Lei. Para ele, o primeiro problema da proposta é que sugere que o exame de glicemia capilar seja feito de maneira compulsória. "Esse exame não serve para diagnóstico. Esse exame de furar o dedo tem uma variabilidade muito grande. Por exemplo, a glicemia normal da população é até 99 mg/dl, contudo, a glicemia real no aparelho de sangue ficaria entre 80 e 125 mg/dl. Imagina a multidão de mães que vai ficar desesperada achando que o filho está com diabetes. Esse aparelho serve para quem tem acompanhamento de diabetes", explica o médico.

Outro ponto destacado pelo endocrinologista é com relação ao uso das fitas. Muitos pacientes se queixam da falta de fitas e lancetas para acompanhamento de quem já tem diabetes. Se uma lei cria uma demanda adicional para isso, sem prever o aumento do fornecimento desse material, vai faltar fitas para o acompanhamento de pacientes com diabetes. Isso também pode aumentar o custo desses produtos.

Uma terceira observação feita por André Gonçalves diz respeito à faixa etária das crianças contempladas pelo projeto. De acordo com o médico, raramente crianças de 0 a 6 anos têm diabetes. “Fazer um exame de rotina para detectar casos muitos raros não tem um custo-efetivo muito viável. Além disso, o diabetes nessa idade é, comumente, o Tipo 1, ou seja, que ocorre de forma súbita. Nesse tipo de doença não adianta fazer exame periódico. Os exames periódicos são indicados para o Tipo 2, que tem o quadro mais brando e a glicose vai subindo progressivamente, que é feito em adulto”, disse.


Foto: Arquivo Pessoal

André Gonçalves enfatiza que as entidades ligadas à causa deveriam ter sido consultadas, como forma de contribuir com o Projeto de Lei. Ele acrescenta que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia no Piauí poderia ter respondido à alguma solicitação com informações que somariam à lei, bem como a Associação dos Diabéticos do Piauí.

“Não é uma lei que vai fazer as pessoas pensarem no diabetes, o mais importante são as campanhas de conscientização, que cabem à sociedade civil, médicas, associação de pacientes. Esse trabalho de conscientização e de levar esse problema para a mídia tem muito mais impacto do que uma lei que pede para fazer o exame a cada seis meses ou uma vez por ano”, argumenta.

Por fim, o endocrinologista avalia que o projeto, no modo como foi desenvolvido, não tem impacto. Ele destaca que “se o objetivo da lei é facilitar o diagnóstico de diabetes na infância, penso que a lei não cumpre de forma nenhuma. Não vejo como ela poderia ajudar. O mais efetivo seria o apoio às sociedades que promovem esse tipo de conscientização”, disse.

Associação avalia projeto

Jeane Melo, presidente da Associação dos Diabéticos do Piauí (Adip), diz que, como mãe de uma pessoa com diabetes, vê com bons olhos o projeto de lei de autoria do vereador Evandro Hidd. Apesar disso, ela acredita que não há necessidade de sair fazendo teste de glicemia em todos e que tenta ver a lei como uma forma de discutir o diabetes.

“Se a lei for para atendimento de urgência é válido, porque meu filho, quando já estava com diabetes aos 9 meses e eu o levei para um atendimento, ele foi tratado como se tivesse com uma simples virose. Ou seja, ele era o paciente mais grave da UTI e a médica não se atentou a todos os sintomas que ele apresentou. A médica colocou ele em um soro glicosado, sendo que o meu filho estava com a glicose alta”, conta Jeane Melo.

Segundo ela, após 24h, outra médica pediu uma glicemia de ponta de dedo e seu filho foi para UTI correndo risco de morte. Então, ela afirma que se o projeto for para casos como o do seu filho, será útil, mas se for incluir em exames de rotinas da criança, talvez seja desnecessário.



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