Piauienses ainda são resistentes a doar órgãos, diz diretora da central de transplantes

De março de 2020 até o início do segundo semestre de 2021, a fila de pessoas aguardando por um transplante cresceu

09/09/2021 14:43h - Atualizado em 09/09/2021 14:58h

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Com a pandemia do novo coronavírus, a quantidade de doações de órgãos reduziu em todo o Brasil, e no Piauí não foi diferente. De março de 2020 até o início do segundo semestre de 2021, a fila de pessoas aguardando por um transplante cresceu consideravelmente. Atualmente, 307 pacientes aguardam um transplante de rim e 403 de córnea.

Porém, outro fator faz com que as doações de órgãos caiam consideravelmente: a falta de conhecimento. Segundo Lourdes Freitas Veras, diretora da Central de Transplante do Piauí, as pessoas ainda desconhecem a real importância deste ato. 

(Foto: Assis Fernandes/O Dia)

“Quem doa não vai precisar mais, e se esses órgãos são viáveis para atender a quem está na lista, que sejam doados. Isso é uma ato de solidariedade e altruísmo. Esses nossos doadores são vítimas de mortes súbitas, pessoas que estão bem e não tinham doenças, que não houve degradação dos órgãos. Como as famílias foram pegas de surpresa e não estavam esperando, elas ficam assustadas, então, quando se fala antes da vontade de doar é muito importante na hora de tomar essa decisão. Vemos que temos uma resistência de falar disso, mas esquecemos que acidentes acontecem”, disse.

Lourdes Freitas acrescenta que a doação de órgãos é um ato que salva vidas e que este bem retorna novamente para a sociedade. Para que mais pessoas conheçam sobre a importância do transplante de órgãos, é necessário que esta temática seja disseminada em maior municípios. 

“Precisamos esclarecer mais, chegar em vários municípios. Nós em Teresina conhecemos, mas recebemos pessoas que nunca ouviram falar da doação de órgãos”, disse.

Cirurgias foram paralisadas devido à pandemia

De acordo com Lourdes Freitas Veras, diretora da Central de Transplante do Piauí, em 2020, os transplantes sofreram uma queda significativa no Brasil. No caso dos transplantes de córnea, a maioria deles vêm de doadores de coração parado, ou seja, que o órgão pode ser removido até 6h após a morte do paciente.

(Foto: Assis Fernandes/O Dia)

“A maior quantidade de córnea no nosso Estado são provenientes do Instituto Médico Legal, uma parceria com os legistas. Como haviam as condições sanitárias, houve uma suspensão das cirurgias eletivas em 2020. Os nossos ambulatórios pararam e houve uma necessidade acumulada, tanto que quando houve a flexibilização dos horários, as filas aumentaram muito. Ficamos apenas com a retirada de múltiplos órgãos, fazendo os transplantes de doadores falecidos. Nessas condições de pandemia fizemos 15 transplantes”, destaca.


“Só quem recebe um transplante sabe do amor e emoção que é”, conta paciente transplantada 

Receber um órgão por meio de transplante durante a pandemia do coronavírus é um ato de coragem muito desafiador. Hoje, cerca de 720 pessoas aguardam na fila da doação de órgãos. Valdenice Rodrigues, carinhosamente conhecida como ‘Val’, tem 43 anos e possui insuficiência renal crônica. Ela fez hemodiálise durante cinco anos e foi transplantada há oito meses. Para Val, não existe felicidade maior do que poder ter uma vida mais independente e livre. 

Valdenice afirma que foi chamada para o transplante três vezes, mas chegou a recusar duas vezes, por conta do seu filho, um jovem de 19 anos que também possui problemas renais e está aguardando na fila há três meses. 

(Foto: Assis Fernandes/O Dia)

“Demorei um ano para entrar na fila e fiquei praticamente dois anos. Fui chamada três vezes para o transplante, mas recusei duas vezes porque meu filho estava internado e preferi ficar com ele. Com isso, a minha médica chegou e disse que na próxima vez que eu fosse chamada, deveria ir”, explica a aposentada. 

Com a pandemia, Valdenice destaca o quanto o isolamento social mexeu com a sua saúde mental, especialmente por conta da preocupação que tinha em não transmitir o vírus para seu filho. “No começo, quando eu ainda estava fazendo hemodiálise, quase entrei em depressão por causa do vírus. Eu ia e voltava do hospital chorando, com medo. Principalmente por causa do meu filho. Quando chegava em casa, tinha todo o protocolo de limpeza, todo um cuidado e assim nós nunca pegamos o vírus”, ressalta.

Mesmo com medo do coronavírus, Val conta que não pensou duas vezes quando foi chamada novamente. "Quando fui chamada, não pensei no  vírus. A ficha sobre o Covid-19 só caiu depois que fui transplantada e estava na enfermaria. Mas tínhamos todo o cuidado, além de os cuidados do hospital serem dobrados também”, explica Valdenice. 

(Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Na família da Val, a insuficiência renal é hereditária. Ela comenta que sua mãe começou a fazer hemodiálise com 14 anos de idade e que, infelizmente, veio a falecer. E, além disso, seu irmão está em tratamento há 16 anos. Valdenice só descobriu a doença por conta de seu filho, que teve uma crise e, no hospital, os médicos decidiram fazer exames dos dois. 

“Em mim a doença veio de forma silenciosa! Quando meu filho estava em procedimento, os médicos tiveram a curiosidade de fazer meus exames. Quando vimos, o meu rim só estava funcionando 50%. Então passei dois meses tomando medicação, mas infelizmente não adiantou, e em dois meses o funcionamento do órgão caiu para 10%”, informa Valdenice. 

“Eu tinha tanta sede e agora posso beber água à vontade”

Geralmente, as pessoas não dão tanta importância para ações que são naturais do corpo, mas atos corriqueiros como beber água e ir ao banheiro podem ser motivos de grande emoção para pessoas na situação de Valdenice.

Todo dia eu choro de alegria quando bebo água ou vou ao banheiro. Eu tinha tanta sede e agora posso beber água à vontade. A minha maior emoção é poder fazer xixi, pois eu não conseguia e aquilo me dava uma angústia", conta Val.

Hoje, oito meses após o transplante, Valdenice comemora o fato de não se sentir mais tão cansada e debilitada. E sonha com o dia em que seu filho terá a mesma oportunidade. “Ele entrou na fila e estou muito grata, pois é um alívio. A máquina ajuda, mas é um tratamento doloroso e deixa sequelas, cicatrizes, cansaços. Então saber que a qualquer momento o telefone pode tocar para a gente ir, é uma alegria”, complementa.

Valdenice ressalta ainda o quanto é grata pela família que se dispôs a doar os órgãos e o quanto isso mudou a vida dela para melhor. Ela afirma que nem todo mundo tem coragem de doar órgãos de um ente querido, mas que isso é de extrema importância para salvar outras vidas.

“Uma só pessoa pode salvar oito vidas com seus órgãos. Então o recado que eu deixo é: não tenham medo de dizer SIM, pois vocês irão salvar pessoas que ainda tem uma missão a cumprir aqui na Terra. E nós devemos um ajudar ao outro!”, finaliza.
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