Mais de 100 milhões de litros de água são desperdiçados no sul do Piauí

Desta terra seca, brota água aos montes: com 211 municípios em estado de emergência, milhões de litros de água são desperdiçados em poços jorrantes.

24/08/2014 10:08h - Atualizado em 24/08/2014 11:01h

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Há um estado que sofre a secura ríspida, a terra árida. Lata d’água na cabeça. Um estado com 211 municípios em situação de emergência por conta da estiagem que se prolonga nos últimos anos, mas que tem mais de 600 poços jorrantes desperdiçando diariamente cerca de 100 milhões de litros de água. Paradoxalmente é um Piauí de oito aquíferos e gente esmolando por um carro-pipa, por um balde de água para que possa beber. 

Cerca de 500 mil pessoas sofrem com a seca no sertão do Piauí, enquanto 15 milhões de litros de água são desperdiçados por hora diretamente no vale do rio Gurguéia, no mesmo estado que tem mais de um terço de seu território dentro do polígono da seca. A água jogada fora jorra a céu aberto, como gêiseres artificiais abertos ao longo do vale. Os poços têm função meramente decorativa. São como chafarizes a embelezar a paisagem. 

Para se ter uma ideia, a água despejada por esse poço por hora chega a mais de 1.200 metros cúbicos, equivalente a 80 carros-pipa. 

A cada 24 horas, ininterruptamente, a população piauiense deixa de aproveitar uma quantidade de água suficiente para encher 168 piscinas de dimensões olímpicas, de acordo com a Agência Nacional de Água (Ana). É difícil avaliar o quanto se deixa de plantar e colher por causa da falta de aproveitamento dessa água. Um exemplo impressiona: os habitantes do vale, a área mais fértil do Piauí, comem verduras trazidas de Pernambuco e da Bahia. 

A área dos poços jorrantes se concentra na altura dos municípios de Cristino Castro, Bom Jesus, Alvorada do Gurguéia, Palmeira do Piauí e Colônia do Gurguéia, a distâncias que variam de 550 km a 700 km da capital do Estado. Quem segue pela rodovia Transpiauí (BR-135) tem a oportunidade de avistar os poços. 

O morador João Modesto, residente no vale do Gurguéia acredita que a água que derrama aos montes diariamente é “uma dádiva de Deus e ele não vai deixar que isto se acabe”. Mas a verdade é que a água é um recurso finito e bem longe de ser algo que o desperdício não afetará. 

Moisés Barjud Filho, professor do Colégio Agrícola de Teresina da Universidade Federal do Piauí, morador da cidade de Bom Jesus e pesquisador, afirma que a questão do desperdício na região é mais preocupante do que parece. Ele alerta para a possibilidade de escassez do recurso se não forem contidas as vazões. 

“Retornando a área do impacto ambiental, em levantamento prévio para um novo projeto de gestão dos jorrantes, observei em apenas um poço que não mudou muita coisa nos últimos 14 anos, a começar pelo desperdício, o artesiano em questão possui revestimento com cano de ferro bastante antigo, com muitos vazamentos que em avaliação preliminar a água derramada fica em torno de 50.000 litros por hora”, afirma o professor. 

Barjud coloca ainda que a questão tem que ser pensada não só como um problema governamental, mas como algo que envolva toda a comunidade. “É um problema só do governo? Não! Não, o culpado sou eu, que vi o cenário no ano 2000 e me acomodei, é o morador das comunidades próximas aos desperdícios que prefere olhar para o próprio umbigo dizendo que não tem nada a ver com isso, porém não sabe ele, que o derrame de agua é tão grande que somente em uma hora a agua desperdiçada deste poço daria para encher aproximadamente 3 caminhões pipa de 15.000 litros”, coloca.

Mais informações no Jornal O Dia deste domingo (24).

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Por: Francicleiton Cardoso - Jornal O Dia

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