No limite: Tráfego está entre problemas mais graves de Teresina

Somente nos últimos três anos, a frota de automóveis zero-quilômetro cresceu 75% em Teresina.

02/04/2011 12:05h

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Em 24 de março de 1976, o trânsito de Teresina já estampava as páginas de O DIA: "Frei Serafim está fadada a se tornar via intrafegável". O problema sentido na época pela população teresinense parecia simples de ser resolvido: "falta de uso de outras vias para escoamento". De lá para cá muitas vias foram abertas para desafogar o fluxo de veículos. Mas, a intrafegabilidade em alguns pontos da cidade continua a mesma.

Motoristas, pedestres e motociclistas sentem o problema no dia a dia, agravado pela capacidade viária de Teresina, ultrapassada há décadas, e que caminha rapidamente para um cenário caótico. A frota da capital piauiense acaba de chegar a 527.874 mil veículos registrados no Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Isso significa que 1/3 da população da cidade tem algum automóvel.

A capital detém 302.857 mil da frota total. Somente nos últimos três anos, a frota de automóveis zero-quilômetro na cidade cresceu 75%, 25 vezes mais que o aumento da população no mesmo período, que foi de cerca de 3%. Em 2007, foram emplacados, segundo o Detran, 9.746 veículos novos. A população naquele ano em Teresina era de 779.939 habitantes. No ano passado, o número de carros 0 km que saiu das concessionárias bateu todos os recordes: 16.904 unidades. Já a população tinha aumentado apenas para 814.439 pessoas.

Trânsito em Teresina (Foto: Raoni Barbosa)

Uma conta bruta, considerando até a faixa etária abaixo dos 18 anos. Esse número reflete aquela sensação diária de trânsito asfixiado para os motoristas da cidade, já sem um período definido para o "rush", que é a denominação aplicada para os horários de pico. Para o especialista Ismael Santana, diretor de integração da Federação Nacional de Associações de Detrans, a projeção da frota para os próximos 10 anos chama a atenção mas, se nada for feito, a tendência é mesmo de chegarmos ao caos no trânsito.

"A tendência é de o crescimento ser superior à própria progressão linear. Isso mostra a urgência de criação de políticas públicas, já que essa quantidade de veículos nem sequer caberia nas ruas. Nem mesmo se os carros andassem uns por cima dos outros seria possível termos uma frota desse tamanho", alerta. Seja por falta de estrutura no setor de transporte, excesso de carros ou até mesmo pelo comportamento nas ruas, o tráfego na capital piauiense está no seu limite.

Trânsito em Teresina (Foto: Raoni Barbosa)

Com o objetivo de evidenciar esses dados, pontuados pelas histórias de quem sofre com a situação e, sobretudo, apresentar soluções, a reportagem de O DIA acompanhou o fluxo do trânsito em horário de pico. Durante o percurso realizado nas avenidas Miguel Rosa, Pires de Castro e Frei Serafim, ao meio-dia, a velocidade média ficou em inaceitáveis 15,6 km/h. Um gasto de 22 minutos e 40 segundos para completar uma faixa de apenas 3,3 quilômetros. Um verdadeiro teste de paciência para os motoristas.

"É complicado demais. A gente perde muito tempo no trânsito, mesmo quando você tenta pegar algumas vias alternativas", relatou o motorista Adriano Gomes Oliveira, 35 anos. "O que a gente percebe é que a cidade está crescendo, tem mais carros e motos nas ruas, mas as vias não acompanham esse crescimento. Acho que a tendência é piorar", afirmou o servidor público Gustavo Júnior, 45 anos.

Para se ter uma ideia sobre essa quilometragem, basta dizer que um homem adulto caminha a 4 km/h. As principais vias de Teresina estão operando no limite da capacidade, com velocidades que não passam de 22 km/h nos horários de pico. Trata-se de uma retenção muito acima do razoável, que seria dirigir a pelo menos 45 km/h. Alguma obra? Acidente? Blitz? Não. É "apenas" o grande volume de carros que trafega nas ruas da cidade.


Com mais de 300 mil carros em circulação, os motoristas têm que enfrentar engarrafamentos cada vez maiores, mesmo fora dos horários de pico. Se o ritmo de crescimento anual da frota se mantivesse em torno de 9,9%, que foi a média dos últimos seis anos, a cidade teria 669.145 mil veículos em circulação daqui a 10 anos.

Trânsito em Teresina (Foto: Raoni Barbosa)

Solução para o trânsito está no transporte público coletivo

A receita para impedir o caos no trânsito: investir em transportes públicos para que as pessoas troquem os veículos pelos ônibus ou pelo metrô. Para o engenheiro de tráfego Fabiano de Cristo Castelo Branco, "O problema da saturação do trânsito na cidade é complexo e não pode ser resolvido sem que haja investimento em transportes públicos. A cada 80 metros nas ruas e avenidas da cidade tem um ponto de conflito. Se não houver essa atitude, com ações planejadas, sofreremos a longo prazo com isso", explicou.

Para isso, é preciso desenvolver ações de engenharia de trânsito e de educação. "Além da fiscalização dos agentes de trânsito. A melhoria do sistema de transporte urbano passa necessariamente por isso", destacou o engenheiro. A opinião é compartilhada também pelo especialista Ismael Santana. "O aumento do número de agentes de trânsito acrescenta no disciplinamento do trânsito, principalmente na fiscalização dos principais corredores de trânsito, assim como nas áreas mais sensíveis da cidade", completou.

Esse serviço é feito, exemplifica, nos corredores onde já se extrapola a capacidade de fluidez dos veículos. Neles, têm sido instalado novos equipamentos de sinalização ou implantado alternativas de fluxo dentro da malha viária.

"Não adianta apenas criar mais ruas e avenidas. Isso foi tentado no passado e não resolvemos o problema da saturação de carros na atualidade. Temos a constatação de que devemos investir no transporte coletivo", afirma Fabiano de Cristo Castelo Branco. O problema, segundo especialistas, é que há um forte crescimento da frota, mas não há um plano claro e muito menos contínuo para gerenciamento da mobilidade.

Teresina ainda tem uma das melhores mobilidades entre as capitais do País

Um estudo feito pela Universidade de Brasília (UnB) avaliou como a forma das cidades condiciona a mobilidade. A partir da identificação de rotas em que é possível a passagem de veículos, os pesquisadores calcularam o chamado "valor de integração" de cada cidade, com o auxílio de um software. Foram levadas em consideração a organização e a conexão das ruas.

De acordo com a pesquisa, quanto menor o valor do índice de mobilidade, mais labiríntica a cidade e, consequentemente, mais difícil o deslocamento de carro. Com a pontuação de 0,861, Teresina ficou entre as capitais com uma das melhores mobilidades. Porto Velho foi considerada a capital do Brasil com melhor mobilidade, com índice 1,458.

Para o engenheiro de tráfego Fabiano de Cristo Castelo Branco, Teresina ainda é uma cidade possível de ter ações planejadas a
longo prazo e evitar problemas no futuro do sistema de transporte urbano. Porém, ele pontua que o principal motivo das dificuldades em ir e vir de carro em Teresina é a geografia. "A cidade é geograficamente mal localizada. Está entre dois rios e a
maioria das pontes acaba sendo um restritor de veículos", enfatizou.

Os dados levantados durante a pesquisa da UnB foram das cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes. Os números foram confrontados com os obtidos em 164 cidades do mundo. A comparação foi feita na Universidade de Londres, onde a forma de abordagem do estudo foi criada.

As cidades brasileiras foram as piores no contexto mundial. Uma das grandes contribuições para isso foi o processo de crescimento urbano sem planejamento global das cidades nas décadas de 1960 e 1970. Segundo informações da pesquisa, isso criou uma "colcha de retalhos", com desenhos diferentes entre os bairros. Ao longo do tempo, os pedaços não foram costurados, causando segregação espacial e perda de área nos deslocamentos.

Planejamento integrado para descentralizar movimento da cidade

Além de pensar em soluções para o trânsito, especialistas e representantes do governo terão que buscar um planejamento integrado para a cidade de Teresina. Os moradores da cidade dependem de algumas regiões centrais para trabalhar, cuidar da saúde e para se divertir. Se hoje já existe uma interdependência enorme entre a avenida Frei Serafim, por exemplo, e as demais regiões da cidade, a tendência é que haja a unificação entre diversas áreas da capital ainda mais nos próximos 10 anos.

Para o geógrafo da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Antônio Cardoso Façanha, é impossível preparar Teresina para os próximos anos sem prever ações e investimentos para o entorno. "O crescimento dessa área central da capital também deve ser planejado. Os hospitais da periferia, por exemplo, devem oferecer atendimento de qualidade para a população evitando um fluxo maior para o centro, por exemplo. Não se pode pensar sistema urbano de transporte sem levar em conta nuances sociais e econômicas", explica.

Para Façanha, o ideal é que haja uma descentralização de empregos, para que os habitantes das cidades vizinhas à Teresina não dependam tanto do centro da cidade. "É preciso descentralizar os empregos. Não é interessante emendar todos os núcleos urbanos, repetindo o que já acontece nas cidades tradicionais. Isso é ruim para o trânsito. Quando se fala em sistema de transporte só se pensa em obras grandiosas como pontes e viadutos. A solução passa por caminhos mais amplos", analisa.

Muitas ruas e avenidas surgidas nas últimas décadas ainda enfrentam problemas de falta de infraestrutura urbana. Para que o planejamento urbano das próximas décadas seja efetivo, especialistas indicam para a necessidade de uma fiscalização mais rígida. "A fiscalização é essencial para o planejamento urbano futuro", destaca especialista Ismael Santana, diretor de integração da Federação Nacional de Associações de Detrans.

Prefeitura reconhece dificuldades e cita projetos

O secretário municipal de Planejamento, João Alberto, reconhece as dificuldades existentes no sistema de transporte urbano de Teresina. E garante que até o final deste ano intervenções serão feitas nas grandes vias da cidade. São pelos menos oito projetos que já estão na fase de alocação de recursos que chegam a mais de R$ 180 milhões.

A primeira será a intervenção no modelo de transporte público com a construção de oito terminais de condução coletiva e três paradas centrais. O sistema de integração está previsto para ser implantado no próximo ano. Serão instalados oito terminais de integração: no balão da avenida dos Expedicionários, Buenos Aires, Matadouro, Santa Isabel, Piçarreira, Dirceu, Bela Vista e Parque Piauí. Em Teresina, já circulam 20 ônibus padronizados. De acordo com a Prefeitura, é o início do processo de integração do SITT (Sistema de Transporte de Teresina). A previsão é que em até cinco anos toda a frota estará padronizada para atender o Plano Diretor de Trânsito, sendo esta a primeira etapa do processo de integração do transporte coletivo.

"Além disso, consta no projeto a construção de corredores com faixas para coletivos, assim como já acontece em outras cidades. Isso porque sabemos que o movimento maior é nas grandes avenidas de Teresina e isso requer, claro, mudanças estruturais na cidade que também são previstas no projeto", destacou o secretário João Alberto.

Para o Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Teresina (Setut) as vias segregadas para coletivos nas principais avenidas da cidade, entre elas a Frei Serafim, responsável em coletar parte do fluxo de veículos, é um acerto. "Em cidades como Recife já existe. A idéia é que a via da esquerda fosse exclusiva para coletivos com uma baia no canteiro central das avenidas", comenta Alberlan Sousa, vice-presidente do Setut.

E completa:"As vias segregadas podem tirar os ônibus dos engarrafamentos". Contudo, nos projetos já aprovados dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Mobilidade constam ainda ciclovias e ciclofaixas, bicicletários com terminais aclopados, além de pontes.

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Fonte: Jornal O DIA
Por: Mayara Bastos

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