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Morte vira produto de consumo em sociedade que banaliza a vida

O fenômeno do compartilhamento de imagens e vídeos quando a sociedade se depara com uma morte chocante causa consequências

01/06/2019 08:24h - Atualizado em 03/06/2019 16:46h

“A morte é um tabu, mas está estampada nos noticiários, nas mídias, nos jornais do meio dia, porque vende. Chamamos isso do espetáculo da morte”. Esta é uma das formas que a psicóloga e socióloga, Patrícia Moreira, estudiosa da tanatologia - estudo científico da morte, usa para explicar o fenômeno do compartilhamento de imagens e vídeos quando a sociedade se depara com uma morte chocante. Fenômeno que vem sendo ainda mais difundido com o acesso facilitado das tecnologias e o bombardeamento de informações via WhatsApp. Apesar de comum, o ato causa consequências.

O cenário não é novo em sua essência, mas na forma como tem se tornado abrangente é ainda mais impactante. O dito popular “as más notícias chegam depressa” já existe há pelo menos três séculos, segundo o “Dicionário de Provérbios” (Ed. Unesp). Não dá para precisar se, ao longo desses trezentos anos, os infortúnios aumentaram ou diminuíram, mas, certamente, a internet faz com que as notícias chegam ainda mais rápido.

Patrícia Moreira explica que ato está se difundindo cada vez mais do acesso facilitado às tecnologias e bombardeamento de informações via WhastApp (Foto: Jailson Soares/ODIA)

Patrícia lembra que os meios virtuais, ao passo que favoreceram a expressão de sentimentos, prejudicaram a forma de se portar em sociedade. “Não temos mais uma etiqueta social, não temos mais privacidade, estamos na era do eu. Você vê pessoas que vão para um velório e tiram uma selfie, o “eu” está em primeiro lugar, esse é um grande aspecto da banalização da vida. Mas o grande problema é que, quando eu tiro uma foto e envio para outra pessoa, isso vai tornando um ciclo em cadeia. E, principalmente em situações como do suicídio, por exemplo, não podemos fazer isso. Não se passa imagem, não se fala de uma forma banalizada, porque é cientificamente comprovado que gera consequências”, alerta.

A especialista recorre à literatura para destacar ainda mais sobre o compartilhamento das informações. Patrícia lembra sobre o “Efeito Werther”, denominação que aparece com a obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, do escritor alemão Wolfgang Von Goethe. O livro foi muito lido à época, idos de 1774, onde o personagem principal se suicida “por amor”. Cerca de 40 jovens, após a leitura, se mataram da mesma forma.

“Sabemos que quanto mais a morte é impactante, podemos lembrar do Domingos Montagner, do Cristiano Araújo; quanto mais jovem, bonito, famoso ou morte violenta, esse é um caldo que a população acompanha. Mas é preciso ter uma educação para a morte e ela não ser olhada apenas como esse tabu e medo”, detalha. Para a pesquisadora, uma educação que envolva a expressão dos sentimentos é fundamental dentro deste contexto. “Se a morte é um tabu, tudo ligado a ela vai ser interdito. Não é para falar da morte como alegria, como uma coisa prazerosa, mas é entender o processo”, avalia.

Ansiedade e depressão: hiperconectividade pode afetar saúde mental

Uma morte violenta ou um trágico acidente, mesmo com pessoas desconhecidas, podem servir de gatilho para deflagrar sensações de ansiedade pela forma ou constância com que as informações são utilizadas. Segundo o presidente do Conselho Regional de Psicologia, José Augusto, a hiperconectividade vem intensificando cenários de comoção coletiva e efeitos negativos na saúde mental das pessoas.

“As informações chegam de forma muito rápida, qualquer acidente, tragédia, a gente procura saber os motivos, com quem aconteceu. E essas notícias ruins têm um impacto bem maior, porque o simples fato de você dizer que teve um acidente de avião, compartilhar imagens, pode gerar uma preocupação, a ampliação do medo, e isso não é bom”, afirma.

José Augusto destaca que é preciso ter responsabilidade e ética ao compartilhar uma informação (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Para Augusto, é preciso ter responsabilidade e ética ao compartilhar uma informação, estar, a todo momento, vinculando a vida a tragédias pode potencializar sensações de ansiedade e depressão. O psicólogo ressalta, no entanto, que se sentir ansioso por um momento, em virtude de algum fato, é normal. O problema é quando isso se prolonga. “Todo mundo é ansioso em alguma proporção, mas o problema é quando se tem severidade e continuidade da sintomática. Se você fica preocupado, se passou um mês, dois meses, e você continua com aquela sensação, se atrapalhar no seu dia a dia, esta é uma ansiedade negativa. Da mesma forma com a depressão: uma simples tristeza não vai acarretar depressão, mas quando ela se prolonga, temos que tratar o problema”, conta.

A atenção mórbida

Para enfrentar os cenários, é preciso entender que a estrutura social faz com que as pessoas busquem cada vez mais atenção e que, pelo fato de notícias ruins ganharem mais notoriedade, elas serão utilizadas com maior frequência. “A rede social nos empodera, todo mundo pode falar, divulgar algo e a gente briga por essa atenção. As notícias negativas chamam mais atenção, as tragédias nos unem mais, mas, também por isso, devemos ter o cuidado, a autoresponsabilidade e ética, para não usar isso de uma forma banal”, esclarece.

Dica

Uma forma de frear o compartilhamento de imagens e vídeos que exponham a morte de outrem pode ser imaginar: se fosse comigo ou com alguém próximo a mim, de que forma gostaria que os outros lidassem com a situação? Este pode ser um exercício limitado ao quadro de uma opinião pessoal, mas é um bom para fornecer um termômetro, ou um norte sobre como se comportar em casos difíceis.

“Educar para morte é olhar para vida de outra forma”

A socióloga e psicóloga Patrícia Moreira, lembra, ainda, que saber olhar para a morte de uma maneira respeitosa é também uma forma de aprender a lidar com a vida.

“Sabemos que sem essas forças culturais, religiosas, que negam a morte, podemos olhar para este momento de forma diferente, percebendo que a única coisa que eu tenho é o hoje, o passado passou, serve de referência, mas precisamos viver. Ter uma religião ou crença, participar de grupos, ter contato com natureza, realizar trabalhos voluntários, são coisas que nos deixam presentes na vida e que mudam nossa percepção”, lembra.

Dessa forma, respeitar a vida e a morte, se tornam uma estratégia para viver de forma mais leve e respeitosa – com quem permanece e quem já partiu.

Compartilhar fotos ou vídeos de pessoas mortas pode ser enquadrado como crime

É nas redes sociais que as pessoas se colocam como elo de compartilhamento entre uma informação e outra. Mas quando os conteúdos são sensíveis, envolvem cenários de acidentes ou crimes em que aparecem pessoas mortas, a divulgação deste tipo de conteúdo pode envolver responsabilização criminal.

Geralmente compartilhada em aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais, a atitude pode ser considerada irresponsável, já que impacta no sentimento de perda de outras pessoas. Além disso, a prática é crime previsto no artigo 212 do Código Penal Brasileiro.

Quem faz imagens ou compartilha e ajuda a divulgar essas fotos e vídeos pode responder por vilipêndio a cadáver, que nada mais é do que expor e desrespeitar a vítima. A pena varia de um a três meses de detenção e multa.

O Código Penal Brasileiro destaca: “mesmo depois da morte, a memória, a imagem e a honra das pessoas continuam a merecer a tutela da lei. Essa proteção é feita em benefício dos parentes do morto, para se evitar os danos que podem sofrer em decorrência da injusta agressão moral a um membro da família já falecido”.

Basta que alguém, familiares ou amigos, se sinta ofendido com o compartilhamento das imagens e procure a polícia para registrar um boletim de ocorrência. O crime pode ser cometido por qualquer pessoa, até mesmo pelos familiares das vítimas. A lei também destaca que caso a pessoa que fez as imagens, ou compartilhou, teve acesso a elas devido a sua profissão, a pena pode ser aumentada em um terço. 

Edição: Virgiane Passos
Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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