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Microempresário gera renda para até 25 famílias numa noite de trabalho

João do Lixo viu seu negócio expandir a passos largos desde que buscou programa de crédito voltado para microempreendedores.

30/04/2019 20:07h - Atualizado em 30/04/2019 23:02h

A coleta seletiva e a reciclagem de resíduos sólidos é um setor que ainda não recebe do poder público toda a atenção e incentivo que lhe deveriam ser dados, tendo em vista se tratar de um ramo que é econômica e ambientalmente sustentável, possibilitando a geração de milhares de empregos para pessoas das camadas sociais mais vulneráveis. 

Apesar da falta de apoio, muitos microempreendedores do setor de reciclagem têm conseguido fazer seus negócios crescerem, graças a muito trabalho, inovação e à ajuda de entidades do terceiro setor, de bancos de desenvolvimento e da própria iniciativa privada.

João do Lixo é um dos mais conhecidos empresários do setor de reciclagem no estado (Foto: Assis Fernandes / O DIA)

É o caso do microempreendedor João Francisco Oliveira Nery, teresinense que atua no ramo da reciclagem há mais de dez anos, e que viu seu negócio crescer num ritmo incomum nos últimos cinco anos, quando começou a solicitar empréstimos via programa Crediamigo, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

João do Lixo explica que conheceu o programa de microcrédito por meio da sua mãe, que é sacoleira e já havia contratado o produto do BNB em mais de 20 ocasiões. 

A primeira vez que João Nery procurou o BNB para solicitar um empréstimo pelo Crediamigo foi em 2014. Na ocasião, rememora o microempresário, ele usou os recursos para comprar tambores, usados para armazenar o lixo coletado em eventos.

“Inicialmente eu tinha dez tambores e precisei comprar mais vinte, para um evento de um porte maior. Essa foi a destinação dos primeiros recursos que consegui por meio do programa de microcrédito do BNB – cerca de R$ 2 mil. De lá pra cá já comprei mais tambores, e hoje já tenho quase 50", detalha João do Lixo, cujo apelido também dá nome à sua microempresa, que funciona num cômodo improvisado na casa onde mora com os pais, na Avenida Joaquim Ribeiro, Centro-sul de Teresina.

João do Lixo, como é conhecido, começou a trabalhar com reciclagem há mais de dez anos, mas só viu seu negócio dar um salto depois que passou buscar o microcrédito para investir (Foto: Assis Fernandes / O DIA)

Na segunda vez que solicitou o empréstimo, o microempresário da reciclagem usou o dinheiro para comprar o fardamento das pessoas que costuma contratar como prestadores de serviço para auxiliar na coleta dos materiais nos eventos.

Na mesma época em que buscou o apoio do BNB, João Nery percebeu que, para crescer ainda mais, precisaria buscar sua qualificação profissional. Ele, então, decidiu iniciar o curso de Engenharia Ambiental.

Hoje no nono período, João do Lixo já trabalha na produção de planos de gerenciamento de resíduos sólidos (PGRS) para empresas. Mas sua principal fonte de renda continua sendo o trabalho com a coleta e a reciclagem de materiais como plástico, alumínio e papelão. 

João Nery faz selfie com colaboradores durante evento para o qual prestou serviço de coleta de materiais recicláveis (Foto: Arquivo pessoal)

Já bastante conhecido no ramo da reciclagem na capital, João do Lixo é habitualmente contratado para recolher resíduos em shows, corridas de ruas, festas públicas e privadas, bem como os materiais recicláveis produzidos por empresas.

Ele relata que, em eventos maiores, já chegou a contratar 25 pessoas para trabalhar recolhendo latinhas de cerveja e refrigerante, garrafas de plástico e de vidro, e outros materiais. Isso, porém, só foi possível depois que ele conseguiu ampliar sua capacidade de prestação do serviço, graças aos investimentos realizados com o dinheiro dos empréstimos.

João Nery quer comprar um caminhão de médio porte e construir um galpão para armazenar e processar os materiais (Foto: Assis Fernandes / O DIA)

João do Lixo acredita que, sem os recursos do Crediamigo, dificilmente teria conseguido fazer sua empresa expandir tanto num prazo tão curto. Sobretudo porque, segundo ele, praticamente inexistem projetos e políticas públicas destinadas a fomentar o setor da reciclagem, os empresários e trabalhadores. 

“Boa parte das minhas negociações de compra e venda de material acontecem de maneira informal, e, por conta disso, dificilmente eu conseguiria crédito para investir com juros tão baixos em outras instituições bancárias. Eu não teria  nem como comprovar uma movimentação financeira suficiente para me credenciar a receber o crédito”, avalia.

João do Lixo diz que agora pretende buscar outras modalidades de crédito do BNB, para conseguir uma quantia maior de recursos, já que o Crediamigo oferece até R$ 15 mil. 

Ele planeja comprar um caminhão de médio porte e construir um galpão para armazenar e realizar o processamento dos materiais coletados.

Para João Nery, o poder público poderia dar uma importante contribuição para o setor com a aprovação de isenções de impostos para as empresas e também através do apoio aos catadores de lixo.

Com o primeiro empréstimo contratado pelo Crediamigo, João do Lixo conseguiu triplicar o número de tambores usados para armazenar o material coletado nos eventos (Foto: Assis Fernandes / O DIA)

Ele também observa que, mesmo sem o incentivo dos governos, boa parte da iniciativa privada tem procurado investir ou pelo menos facilitar os processos de reciclagem dos seus resíduos, como forma de atender a uma cobrança da sociedade.


A agente de microcrédito Martha Veloso, que atende João Nery, ressalta que uma das principais vantagens do Crediamigo é o fato de o programa não demandar muitos documentos e outras exigências burocráticas. As garantias para tomada dos empréstimos, por exemplo, podem ser feitas por meio do aval individual ou pelo aval solidário, quando um grupo de pessoas toma o crédito e oferece mutuamente a garantia de pagamento. 

Martha destaca, ainda, que o Crediamigo é um programa de crédito orientado, o que reduz de forma significativa o risco de os clientes que solicitaram os empréstimos não alcançarem êxito em seus investimentos. “Nós fazemos as visitas [ao cliente], fazemos o acompanhamento, verificamos se o cliente investiu realmente o crédito, se não houve o desvio. Por isso, nós dizemos que o Crediamigo é um programa de microcrédito orientado. Em geral, ele funciona como um capital de giro para os microempreendedores, e pode ser pago em grupo, em quatro, cinco ou seis meses, e individualmente, até em mais meses, para evitar o endividamento do cliente”, pontua a agente de microcrédito, que possui hoje 931 clientes ativos.

João do Lixo e sua agente de crédito, Martha Veloso (Foto: Arquivo pessoal)

Famílias com renda de até R$ 3 mil são as principais beneficiadas por programas de microcrédito

De acordo com Fernando Mourão Rocha, gerente de Microfinança Urbana do BNB no Piauí, 79% das pessoas que recorrem ao microcrédito oferecido pela instituição tem renda familiar de até R$ 3 mil, o que demonstra a importância do programa para o desenvolvimento regional.

“A missão do Crediamigo é contribuir para o desenvolvimento socioeconômico dos empreendedores e empreendedoras, por meio de produtos e serviços de microfinanças e orientação empresarial, de forma sustentável, oportuna e de fácil acesso. Quando analisamos que 79% dos nossos clientes possuem renda mensal até R$ 3 mil reais, vemos claramente a importância do programa para a sociedade, pois é uma parcela da população mais carente, que necessita de atenção, orientação empresarial e educação/inclusão financeira, tudo associado ao crédito. Oferecer isso aos empreendedores é papel do Banco do Nordeste enquanto instituição financeira de desenvolvimento”, avalia Fernando Mourão.

Fernando Mourão Rocha, gerente de Microfinança Urbana do BNB no Piauí (Foto: Jailson Soares / O DIA)

O gestor também enfatiza que, por se tratar de um produto de um banco público voltado para o desenvolvimento regional, o programa Crediamigo dispõe de taxas de juros altamente competitivas, além de possibilitar a liberação dos empréstimos de forma bem mais célere. 

"A partir de uma metodologia voltada para o microcrédito, com atuação diretamente na atividade do cliente, o Crediamigo cumpre seu papel de propulsor do desenvolvimento, com crédito rápido, barato e sem burocracia”, acrescenta o gerente estadual do programa no Piauí. 

Empreendedorismo ajuda mulheres a alcançar autonomia financeira e a sair do ciclo da violência doméstica 

No estado, as mulheres são as principais clientes do Crediamigo. Segundo o BNB, 67% das pessoas que recorreram a esta modalidade de crédito em 2018 eram do sexo feminino. 

Para Lidiane Oliveira, da Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres de Teresina (SMPM), esse dado demonstra o quanto é importante que o Estado e suas instituições públicas, bem como a iniciativa privada e a sociedade de um modo geral incentivem as mulheres a buscar o empreendedorismo como forma de alcançar sua autonomia e, como consequência, aumentar seu empoderamento.

Lidiane Oliveira, da Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres de Teresina, dá entrevista à repórter Lalesca Setúbal, da O DIA TV (Foto: Arquivo O DIA)

“O empreendedorismo feminino é uma bandeira que a gente vem carregando há vários anos, fomentando essas mulheres, porque entendemos que empreender resulta em autonomia econômica, e essa autonomia, muitas vezes, leva à libertação da mulher de um ciclo de violência. E esse dado do Crediamigo precisa ser celebrado, porque demonstra que as mulheres de Teresina e do Piauí estão empreendendo, dentro das suas potencialidades”, afirma Lidiane Oliveira, que é gerente de Empoderamento Feminino e Enfrentamento à Violência contra a Mulher da SMPM.

A microempresária Edilene Cavalcante é um exemplo de mulher que decidiu empreender para conquistar a sonhada independência financeira. 

Ela participou do serviço “Amor de Tia”, que atende mães em situação de vulnerabilidade social, acolhendo seus filhos e oferecendo qualificação profissional para as mulheres, além de rodas de conversa sobre violência e empoderamento feminino. 

Mulheres atendidas pelo serviço 'Amor de Tia', da Prefeitura de Teresina, participam de curso de capacitação para se tornarem microempreendedoras e conquistarem a independência econômica (Foto: Divulgação / PMT)

Embora nunca tenha sofrido violência doméstica, Edilene sempre teve dificuldades para conseguir espaço no mercado de trabalho, e a incomodava o fato de depender economicamente do marido.

“Enquanto eu estive no programa, eu tive várias oportunidades para aprender, tive muitas orientações de como conquistar o meu espaço, como ter o meu empoderamento, como agir quando eu precisar, numa situação de violência. Por isso, minha passagem pelo serviço ‘Amor de Tia’ foi muito importante. Lá, tudo o que eu aprendi eu coloquei em prática. Agora tenho minha renda extra em casa, fazendo bolos confeitados, cupcakes, bombons de chocolate e artesanato. Tudo isso eu aprendi enquanto fui atendida por esse projeto”, afirma Edilene Cavalcante.

Ela acrescenta que o próprio marido mudou seu comportamento graças ao projeto. “A gente brigava sempre que ele bebia, porque eu não queria que nossos filhos vissem o pai alcoolizado. Depois que eu comecei a ser atendida pelo serviço ‘Amor de Tia’, meu marido viu que eu estava conquistando minha independência. Ele passou a frequentar as rodas de conversa do projeto e, desde então, mudou completamente. Agora nós vivemos bem”, afirma Edilene.

Segundo a gestora Lidiane Oliveira, desde que o serviço "Amor de Tia" foi implantado, em 2016, mais de 300 mulheres já foram atendidas, e boa parte delas decidiu seguir o caminho do empreendedorismo. 

Serviço "Amor de Tia" instiga mulheres em situação de vulnerabilidade social a se tornarem microempreendedoras (Foto: Divulgação / PMT)

Crediamigo já liberou R$ 60 bilhões para microempresários desde sua criação

Criado há mais de duas décadas, o programa Crediamigo já aplicou cerca de R$ 60 bilhões na área de atuação no BNB - Nordeste, norte de Minas Gerais e do Espírito Santo -, o que o tornou o maior programa de microcrédito urbano produtivo e orientado da América do Sul.

Conforme dados do BNB, só no ano de 2018 foram liberados R$ 9 bilhões em empréstimos para microempreendedores através do programa, montante 11,2% superior ao aplicado no ano anterior.

Em quantidade de operações também houve um resultado positivo em 2018. Foram 4,2 milhões de empréstimos liberados, número 5,4% superior ao registrado em 2017, e que equivale a uma média de 11,6 mil operações diárias. 

Só no Piauí, em 2018, foram aplicados R$ 982 milhões, por meio de 457 mil operações de crédito. Atualmente há cerca de 230 mil clientes ativos no estado, com uma carteira de empréstimo em torno de R$ 355 milhões. 

Histórico – Durante os mais de 20 anos de existência do programa Crediamigo, já foram liberados, no Piauí, mais de 4,1 milhões de empréstimos para cerca de 570 mil clientes, totalizando aproximadamente R$ 7,5 bilhões em recursos. 

Com lançamento piloto no Piauí há 15 anos, Agroamigo ajudou a reduzir êxodo rural

Além do Crediamigo, o Bando do Nordeste também possui o programa Agroamigo, voltado para atender os agricultores familiares da região.

Criado em 2004, o seu lançamento piloto ocorreu no Piauí, nos municípios de Oeiras e Floriano. Hoje, através de uma parceria entre o BNB e o Instituto Nordeste Cidadania (Inec), o programa conta com 1.100 agentes de microcrédito rural, dos quais 120 estão no Piauí. É a forma encontrada pelo banco para descentralizar a oferta do produto, possibilitando que um número maior de microempreendedores rurais sejam orientados e recebam o acompanhamento necessário para investir de forma exitosa. 

Atualmente, o Agroamigo possui 1.315.000 clientes ativos, sendo 158 mil no Piauí. 

Paulo Regis Machado de Alencar, gerente estadual do Agroamigo, avalia que o programa é um sucesso na região, tendo contribuído decisivamente para reduzir o êxodo rural.

Paulo Regis de Alencar, gerente de Microfinança Rural do BNB (Foto: Arquivo pessoal)

“O Agroamigo e o Crediamigo são os maiores programas de microcrédito da América do Sul. São um sucesso no Nordeste e no Piauí, evitando o êxodo rural, a saída dos nossos microempreendedores rurais e urbanos para o sul do país, atrás de emprego, e fazendo com que eles trabalhem aqui, onde eles nasceram e gostam de viver”, observa Paulo Regis.

O gerente de Microfinança Rural do BNB no estado esclarece que não é necessário atuar apenas em atividades agrícolas para contratar o Agroamigo, sendo o programa destinado também para prestadores de serviço que vivem na zona rural. 

“Nós trabalhamos com os produtores da ovinocaprinocultura, bovinocultura, suinocultura, criadores de galinha caipira e todas as atividades que agregam renda no meio rural. Além disso, nosso programa também contempla prestadores de serviço que moram na zona rural, como cabeleireiros, borracheiro, enfim, que não sejam atividades eminentemente agrícolas, mas que, de alguma forma, melhoram a renda da população rural”, explica Paulo Regis. 

Desde que foi criado, o programa de microcrédito rural do BNB já liberou R$ 15,3 bilhões para pequenos produtores da área de atuação do banco, sendo R$ 1,7 bilhão só para o estado do Piauí.

Em 2018, R$ 295 milhões foram concedidos, por meio de 59 mil operações, aproximadamente. E este ano, até agora, já foram realizadas mais de 14 mil operações, com a liberação de R$ 71 milhões para os agricultores familiares.

Por: Cícero Portela

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