Mais de 95 mil famílias no Piauí estão na fila para receber o Bolsa Família

Em um contexto de desemprego e instabilidade econômica, a fome volta à mesa dos piauienses e a procura por benefícios sociais se torna ainda mais latente

22/07/2017 08:27h

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O ano era 2014 e o país pode celebrar uma conquista festejada em milhares de lares brasileiros: o Brasil saiu do mapa da fome das Nações Unidas, o que significava ter menos de 5% da população sem se alimentar o suficiente. Três anos depois, a situação mudou – e para pior. 

Ao passar por uma das piores recessões da história recente do país, o fantasma da fome volta a assombrar os lares brasileiros. Em Teresina, famílias relatam dificuldade em conseguir suprir o básico. A fome avança e atinge em cheio a população de baixa renda. 

O alerta da grave situação por qual passa o país foi apresentado recentemente à ONU por um grupo de mais de 40 entidades da sociedade civil, que monitora o cumprimento de um plano de ação com objetivos de desenvolvimento sustentável acordado entre os Estados-membros da ONU, a chamada Agenda 2030. Em um contexto de desemprego e instabilidade econômica que progride no país, a procura por benefícios sociais se torna ainda mais latente. 

Mas o recrudescimento das despesas públicas também. No Brasil, 13,6 milhões de famílias dependem do Bolsa Família, programa de transferência de renda executado pelo Governo Federal. O Bolsa Família é voltado para famílias extremamente pobres (com renda per capita mensal de até R$ 85) e pobres (com renda per capita mensal entre R$ 85,01 e R$ 170). 

Ao entrar no programa, as famílias recebem o benefício mensalmente e, como contrapartida, cumprem compromissos nas áreas de saúde e educação. No Piauí, atualmente, 420.174 famílias dependem do benefício. No entanto, a fila de espera para ter acesso ao programa social é alarmante: 95.518 estão aptas a receber o benefício, mas ainda à mercê da aprovação do Governo Federal.


No Piauí, atualmente, 420.174 famílias dependem do Bolsa Família (foto: Elias Fontinele/ODIA)

O que representa viver com menos de R$ 170 mensais e não ter emprego ou auxílio de programas sociais? Esse questionamento pode ser elucidado pelas mais de 95 mil famílias piauienses que aguardam acesso ao programa de distribuição de renda do Governo Federal, o Bolsa Família. 

Para Roberto Oliveira, coordenador estadual do programa, que acompanha sua execução desde o início da efetivação no Estado, em 2003, o Bolsa Família trouxe avanços notórios para a população de baixa renda. E transformou vidas. “O estudioso Paes de Barros coloca que o Bolsa Família fez, no período de 10 anos no Piauí, o que Angola queria fazer em 50 anos. Hoje, recebemos repasses anuais que chegam a aproximadamente um bilhão de reais para esse investimento que vai direto para a mão dos mais pobres, que gera emprego, renda e tem um impacto positivo em cima dos nossos indicadores sociais”, destaca. 

Mas Roberto tem uma preocupação latente: o não acesso de novas famílias ao programa. De maio a julho deste ano, o Estado perdeu cerca de 15 mil famílias que recebiam o benefício. Infelizmente, a saída das famílias não significa, propriamente, uma melhoria de renda dos núcleos familiares. Desde agosto do ano passado, o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA) vem aprimorando os mecanismos de controle do programa. 

Foram adotadas medidas como o pente-fino nos cadastros e a adesão a seis bases de dados que possibilitam o cruzamento de informações sobre a renda das famílias inscritas. “É notório que muita gente tem melhorado de vida. No ano passado, tivemos 15 mil que saíram do cadastro por melhorar de vida, mas outras saem por averiguações. A questão que a gente está encontrando é que temos falhas de sistema e outros problemas que fazem essas famílias saírem, mas que temos outras famílias que podem ser contempladas e não estão conseguindo. Estamos percebendo um contingenciamento no programa”, explica. 

Roberto ainda reforça: “Está havendo dificuldade de concessão de benefícios para novas famílias”, finaliza. A situação preocupa e traz situação de vulnerabilidade para milhares de lares que, em um cenário cada vez mais comum, têm de lidar com desemprego, pobreza e fome. 

Pobreza extrema

Maria de Jesus, de 50 anos, fazia o reboco da casa de taipa onde vive com o marido e um filho, em uma ocupação de terra na zona Norte de Teresina. A energia para finalizar o serviço, naquele dia, veio fruto do almoço que “graças a Deus”, ela agradece, tinha sido feito naquele dia. Mas nem sempre é assim. Desempregada e com o dinheiro escasso - resultado dos bicos que já não surgem com frequência, a moradora afirma lidar com a fome e o medo de despejo. “Viemos morar aqui porque fomos expulsos da casa de aluguel onde morávamos. Não tinha condições de vir para outro lugar e morro de medo de ter que sair daqui. Está difícil arrumar serviço, a gente vai vivendo com a graça de Deus”, relata. 


Maria de Jesus não não pode comprar carnes, verduras ou frutas (Foto: Elias Fontinele/ODIA)

O esposo faz bicos de ajudante de obras e ela lava roupas em casas de família. O dinheiro que recebem é complementado pela renda do Bolsa Família, cerca de R$ 40, que ajuda a comprar os alimentos e custear as despesas do filho de 4 anos. Maria relata a alta dos preços e a dificuldade de ter acesso à uma alimentação nutritiva. “Com o que a gente ganha, nem a cesta dá para levar, porque é R$ 200. Compramos arroz, feijão, massa de milho, café preto e só”, explica. 

A senhora afirma que não tem acesso à compra de carnes, verduras ou frutas. Na casa de Maria, carne só quando amigos ou conhecidos doam. “Tem um amigo que sempre traz umas ossadas e a gente pode botar no feijão”, explica. Mas há dias que o orçamento não cobre nem mesmo o básico e a estratégia é comprar fiado. “A gente compra e vai arrumar um jeito de pagar, porque sabe que vai precisar depois”, esclarece. 

*A matéria completa foi publicada na edição do final de semana do Jornal O DIA. 

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O DIA

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