Falta de oportunidade é a principal causa para trabalho informal nos sinais

A falta de qualificação, pouca escolaridade e situações de vulnerabilidade são alguns dos aspectos que levam trabalhadores a ocupação informal nos sinais da cidade.

23/03/2019 08:18h

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Nas vias de acessos dentro da cidade, quando o sinal fecha, o trânsito só para, para os que ocupam algum veículo automotor. Esse é o momento dos transeuntes se movimentarem e, também, tempo em que trabalhadores das mais variadas mercadorias aproveitam para circular na tentativa de fechar alguma venda. A presença do trabalho informal nos sinais cresce em Teresina e trabalhadores apontam como principal motivo para a escolha da ocupação, a falta de oportunidades no mercado formal.

A justificativa é comprovada pelos números. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada no mês passado, apontam que o Piauí é o estado com o segundo pior indicador de formalização de emprego com carteira assinada no Brasil.


Foto: Jailson Soares/O Dia

A pesquisa mostra que no 4º quadrimestre de 2018, apenas 52,2% dos trabalhadores tinham seu emprego formalizado, quando a média no Brasil era de 74%. Nesse quesito, o Piauí está à frente apenas do estado do Maranhão, que registrou apenas 50,6% de trabalhadores com carteira assinada. 

Nos sinais da cidade, a falta de qualificação, pouca escolaridade e situações de vulnerabilidade são alguns dos aspectos que levam trabalhadores a ocupação informal nos sinais, submetidos aos aspectos climáticos e fluxo de clientes.

Nesta reportagem, O Dia conta a história de pessoas que tiveram que recorrer a este tipo de trabalho para continuar tendo uma fonte de renda. 

Há dez anos na informalidade

Rafael do Nascimento perdeu o emprego de carteira assinada, em uma fábrica de tijolos e telhas, aos 21 anos. À época, ele só tinha alcançado o grau de escolaridade que ainda mantém hoje: a conclusão do ensino fundamental. Para achar outra ocupação percebeu ser muito difícil encontrar vaga no mercado formal de emprego e na ânsia da necessidade, viu no trabalho nos sinais da cidade uma oportunidade de renda.

“Todo mundo precisa trabalhar. Peguei o dinheiro que ganhei da rescisão e comprei de flanela e vim vender no sinal, com o tempo, fui aumentando a mercadoria. Faz dez anos que eu já estou aqui”, conta o trabalhador, hoje, com 31 anos.


Foto: Jailson Soares/O Dia

O local de trabalho é um grande entroncamento na zona Sul da Cidade, onde ele pode ofertar os produtos, que com o tempo aumentaram de quantidade e variedade, aos ocupantes dos veículos que formam um fluxo constante na região.

Do trabalho, Rafael afirma que não tem nada a reclamar. Só faz ressalvas as intempéries que é submetido constantemente.  “Setembro, outubro, novembro, o sol falta é não deixar a gente trabalhar. Quando chove, também não. Então o tempo às vezes atrapalha a gente”, ressalta.

Para se proteger do sol quase sempre constante, o vendedor recorre a sobreposição de peças no rosto, tronco e pernas. O visual chama atenção e, assim, colabora com as vendas. “Hoje, não penso mais fazer em outra coisa, porque não tenho experiência e nem escola. Aqui, consigo tirar mais de um salário. É um trabalho que exige esforço, mas vale a pena”, destaca.


“Todo mundo precisa trabalhar. Peguei o dinheiro que ganhei da rescisão e comprei de flanela e vim vender no sinal


Rafael cumpre uma jornada de cerca de 10 horas de trabalho de 9 horas da manhã às 19 horas, com pausa para o almoço. De segunda a sábado, religiosamente, o trabalhador cumpre a função da oferta de água, jaca (quando no tempo da fruta), castanha e flanelas, no sinal que convencionou a chamar de seu.

Artista de rua vê trabalho valorizado

Quando garoto, Gessinaldo Júnior se encantou pelo universo do circo. Viu na atuação dos malabaristas um desafio que tomou para si: iria aprender a técnica e ficar tão bom quanto os artistas que via se apresentar nos circos da sua cidade. Alguns meses de treinamento na escolinha de circo do município onde viveu durante toda a infância, Barão de Grajaú – Maranhão, foram suficientes para que ele dominasse a arte dos malabares e fizesse, anos depois, da diversão uma fonte de renda.

Atualmente morando em Teresina, casado e pai de quatro filhos, o artista de rua ocupa um dos sinais no cruzamento das Avenidas Miguel Rosa e Nações Unidas, Centro da cidade, onde diz sentir seu trabalho valorizado e dali garantir a renda para sustentar toda a família.


Foto: Jailson Soares/O Dia

“Eu só sei fazer isso da vida, porque comecei como diversão, mas depois vi que poderia ser um trabalho. E é muito bom trabalhar com o que você gosta. Não tenho o que reclamar, pra mim, nunca houve crise”, afirma.

Durante o minuto em que o sinal permanece fechado, Gessinaldo apresenta pequenos truques com argolas, bolinhas e, durante a noite, técnicas pirotécnicas. O trabalhador destaque é necessário uma atenção perene. Enquanto pratica os truques para a apresentação sair bem feita e quando desfila entre os carros para não ser atingido por nenhum veículo.

“As pessoas vão conhecendo nosso trabalho e valorizam, eu gosto demais do que faço, tem dia que é cansativo, mas na maioria das vezes estou aqui me divertindo. É só ter cuidado que dá tudo certo”, comenta entusiasmado.


“Eu só sei fazer isso da vida, porque comecei como diversão, mas depois vi que poderia ser um trabalho. E é muito bom trabalhar com o que você gosta".


Seguindo o relato de outros trabalhadores informais, Gessinaldo não conseguiu concluir todo o ensino secundário e se dedica ao trabalho de rua, mas também atua em apresentações em aniversários, festas particulares e  circenses. Aos 32 anos, ele não afirma que não se vê fazendo outra coisa. “Foi isso que eu aprendi e é isso que eu espero continuar fazendo na vida”, finaliza. 

Vendas no sinal como primeiro emprego

Matheus, 20 anos, se dedica há três anos entre trabalho e estudo, em uma rotina que tenta, com esforço, solidificar novas perspectivas de futuro. O primeiro trabalho, no entanto, só conseguiu que fosse de forma informal, na venda de frutas em um dos sinais do Centro de Teresina. Junto com o irmão e outros colegas, ganha na venda por porcentagem de sacolinhas de jaca, goiaba e manga.

“Eu achei aqui uma boa opção porque, de alguma forma, consigo todo dia tirar um dinheirinho. Tava precisando trabalhar e meu irmão me chamou pra cá”, relata.


Foto: Jailson Soares/O Dia

Matheus faz parte de um espectro gigantesco no Brasil. A taxa de desemprego entre a população de 18 a 24 anos foi superior ao dobro da taxa geral em 2018, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Enquanto a desocupação entre os jovens ficou em 25,2% no 4º trimestre do ano passado, o percentual total foi de 11,6%.

Ainda segundo o estudo, 3,946 milhões de jovens estão sem emprego no país. Ao todo, são 12,195 milhões de desempregados. A maior desocupação é verificada na população ainda mais jovem, de 14 a 17 anos. 

Por esse cenário, muitas dessas pessoas acabam recorrendo a trabalhos informais e por temporada, como é o caso de Matheus. “Fico no sinal de oito da manhã até às cinco da tarde e à noite vou pra escola”, explica, acrescentando que está no primeiro ano do ensino médio.


“Eu achei aqui uma boa opção porque, de alguma forma, consigo todo dia tirar um dinheirinho".


O jovem sonha em mudar de atuação e quer trabalhar na área de informática quando conseguir a graduação. No sinal, a casa sacolinha de frutas vendida o jovem recebe R$ 1, 25, valor pago como porcentagem já que as frutas não são mercadorias suas. “É difícil vender porque as pessoas acham as coisas caras e nem sempre conseguimos vender tudo, mas o que importa é tentar”, assume.

Morador de Timon, Matheus vem todos os dias à Teresina de bicicleta para realizar o trabalho.

Buscando outros sonhos

O trabalho no sinal também serve como intervalo para a busca de outros sonhos. É isso que tem feito o paulistano Danili Grilo, 30 anos, que está em Teresina há quase um ano. Acostumado com o trabalho com itens alimentícios em cozinhas da capital paulistana, ele não conseguiu se inserir no mercado formal em Teresina e viu na proximidade da venda de alimentos no sinal, uma chance.

“Como trabalhei muitos anos como auxiliar de cozinha em São Paulo, eu pretendo me formar nessa área e atuar nela, mas como não consegui nada por enquanto vim para o sinal”, relata.


Foto: Jailson Soares/O Dia

No Sinal, Danilo trabalha com roupas quase formais: camisa de mangas compridas de tecido, pano passado, sapatos e cabelos presos com ajuda de um boné. A apresentação mais formal também é uma forma de valorizar o trabalho.

“Tem alguns restaurantes na Avenida Nossa Senhora de Fátima que estão com meu currículo, espero que me chamem e quero estar preparado para esse dia”, explica.

Com a renda que ganha no sinal, Danilo faz poupança para iniciar um curso de gastronomia, área por qual nutre afinidade.

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Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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