'Cine Aventura' esconde casa do sexo no Centro de Teresina

O local não tem registro comercial e condições de higiene adequadas

20/01/2013 09:14h

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Com quem e como você se relaciona é um assunto totalmente pessoal e de livre arbítrio. Entretanto, quando se coloca em risco outra pessoa ou oferta-se um serviço cuja segurança é duvidosa passa a ser uma questão de interesse social.

Após receber e apurar informações da existência de um estabelecimento onde são exibidos filmes pornográficos no centro de Teresina, a reportagem de O DIA descobriu que o local também funciona como um ponto de encontro com fins sexuais, principalmente, destinado ao público gay.

Foto: Elias Fontinele/ODIA

Contudo, o que chama atenção não é o público frequentador, mas as condições sanitárias e de segurança às quais seus clientes estão sujeitos. Os visitantes realizam sexo em cabines individuais ou coletivas. Neste segundo caso, as relações acontecem numa sala escura em que não é possível identificar o(s) parceiro(s), e, por vezes, o uso de preservativos fica em segundo plano.

Clientes relataram ao O DIA que, apesar de avisos que proíbem a entrada de menores, o acesso destes às dependências do local não é dificultada, tendo em vista que muitas vezes a apresentação de documento de identificação é dispensada na porta de entrada, onde também não acontece nenhum tipo de revista.

A casa de fachada onde tudo acontece está localizada em frente a uma escola particular e ao lado de uma clínica. Alunos e vizinhos sabem o que funciona no local, mas nunca fizeram nenhuma queixa oficial sobre o estabelecimento, que apesar de anunciado como um cinema, não possui registro comercial junto à Prefeitura Municipal de Teresina e, portanto, explora comercialmente um serviço clandestino.

Por mais que preze pela discrição, a publicidade do Cine Aventura divulga a sua existência em anúncios pintados em muros da capital que, inclusive, motivaram a visita do personagem que relata sua experiência, descrita a seguir.

Foto: Assis Fernandes/ODIA

Curiosidade e medo: sensações que se misturam

O anúncio pintado no muro de um terreno na Avenida Raul Lopes, bairro Noivos, zona Leste de Teresina, dá conta de um cinema atípico, ele anuncia a existência de novas salas, novos filmes, cabines individuais, dark room (quarto escuro) e até espaço VIP.

A publicidade de um local denominado Cine Aventura chamou a atenção de Sérgio (nome fictício), jovem universitário que já ouvira sobre a existência de salas de cinemas, localizadas na região central da capital piauiense, destinados à exibição de filmes pornográficos.

Apesar do receio e do parcial desconhecimento sobre o que, de fato, encontraria por lá, o jovem decidiu conhecer o local. Sérgio então percebe que o endereço o levou a uma residência situada ao lado de uma clínica, no Centro de Teresina, em frente a um colégio particular. A fachada é pintada quase totalmente de preto e adornada por um pequeno jardim. No entanto, não há nenhum letreiro, placa ou um simples papel fixado na parede que evidenciasse que ali funciona o tal cinema. De um lado, uma clínica, e do outro,uma casa aparentemente inabitada.

O local aparentava ser uma residência, o que gerou a dúvida em Sérgio: "será mesmo aqui? Numa casa?", questionou-se mentalmente. Mas logo se deu conta de que um cinema com as descrições que viu no anúncio prezaria, sobretudo, pela discrição. Sérgio então se voltou à observação e percebeu que o espaço de uma porta de entrada foi fechado e isolado, e o único acesso para o interior da residência é um beco lateral.

Avisos fixados nas paredes do corredor anunciam que é proibida a entrada de menores de 18 anos, assim como o acesso de pessoas usando fardamento escolar, o que leva a pensar que o local também pode ser frequentado por jovens estudantes. Sérgio atravessa o beco e chega à porta de madeira.

Uma grande placa avisa que o local está aberto e, na entrada, mais uma vez o aviso: menores de idade não podem entrar. Sérgio tem mais de 18 anos e, com seus documentos na carteira, essa não é uma preocupação. Mas para sua surpresa, o senhor que estava dentro de uma cabine, logo na entrada, não pede nenhum documento de identificação. A inexistência de um segurança ou um porteiro encarregado desta função também chama a atenção.

Nenhuma palavra, nenhum cumprimento. Sequer é possível ver o rosto do caixa por conta do vidro escuro e também da pouca luz no ambiente. Antes de seguir em frente, Sérgio observa todos os papeis fixados na parte defora da cabine. Logo ali, descobre que o local funciona todos os dias, abrindo ao meio dia e fechando à meia noite de segunda à sexta e aos domingos; já aos sábados, o horário de funcionamento se estende até 2h da madrugada.

O jovem observa a escuridão do local e, naquele instante, é tomado pelo nervosismo, mas a curiosidade o leva adiante. Paga os R$ 5,00 da entrada, informado num aviso, e passa pela catraca.

Para quem acabara de entrar, a escuridão é ainda maior. As fontes de luz são apenas das televisões e da pouca iluminação natural que atravessa o vidro da porta de entrada. Sérgio para no hall e olha para os lados, tentando identificar em meio aos vultos o primeiro lugar a ser explorado.

Ao lado da cabine, três homens estavame ncostados na parede, calados, assistindo a uma TV que exibia a programação aberta. "Estranho, não é um filme pornô", pensa, percebendo que o aparelho está no volume mínimo.

Ele então se dá conta de que um enorme silêncio paira sobre o local. Não se ouve nenhum filme, nenhuma conversa alta, apenas cochichos e sussurros. Na parede, outro aviso deixa claro que o local preza pela máxima discrição e pede aos clientes que não façam badernas e algazarras. Silêncio então compreendido.

Uma primeira porta ao lado desse hall dá para um corredor escuro e uma luz indica a existência de uma área externa. Atentamente, Sérgio caminhaobservando todos os detalhespossíveis. Na primeira porta do corredor, um banheiro aparentemente limpo, uma porta trancada e mais um cômodo, cuja porta foi substituída por uma cortina - a propósito, a peça está presente em quase todas as entradas de cômodos de uso coletivo.

Ali, o jovem percebe que se trata de um quarto totalmente escuro, sem nenhum ponto de luz, e presume que seja o anunciado darkroom. Prefere não entrar e segue pelo corredor, onde se depara com uma espécie de cozinha, sem móveis. Passa por outros dois homens silenciosos, atravessa e sai pela cortina para a área externa. Chegar ao "quintal" do cinema e ver a luz do sol foi um momento de alívio, tendo em vista seu nervosismo com aquela situação inédita. Respira fundo e observa ao redor, dando- se conta de que é mais um espaço de convivência, com um bar sem atendentes e duas pequenas mesas e cadeiras de cimento, pintadas de corde- rosa e fixadas ao chão.

Sérgio queria pedir uma cerveja, mas desiste de esperar que alguém apareça. Sentar-se e pensar um pouco em toda a situação é a opção mais viável para o rapaz. Sérgio não sabe quanto tempo, exatamente, passou sentado na área externa, mas foi suficiente para ter alguns diálogos e atentar a conversas de outros grupos que chegavam ao ambiente.

Nas paredes, cartazes do Ministério da Saúde sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de incentivo ao uso de preservativo. Um deles especificamente direcionado para o público homossexual, em que figuram dois homens paquerando numa balada.

Oportunidade de encontro ou um simples passatempo?

O tal cartaz foi o assunto usado por outro jovem, que aparece ao lado de Sérgio para iniciar uma conversa. "Não sei o que você está procurando, ou se você sabe o que acontece aqui, mas é mais ou menos isso aí", conta o rapaz, apontando para o papel fixado na parede próxima ao bar.

"Eu já imaginava", responde Sérgio, de forma simpática e mantendo os olhos em direção ao cartaz. Moreno, vestindo uma bermuda jeans, camiseta e chinelo de dedo, o rapaz se mantém ao lado de Sérgio e indaga sobre sua roupa e suas atividades. Estranha o fato de estar usando camisa social, calça bem alinhada e, mais ainda, sua postura séria. "Não me diz que você é da polícia?", questiona.

Sérgio apenas sorriu e balançou a cabeça em negativa, mas estranhou a pergunta, uma vez que outras pessoas que estavam ali também se vestiam como ele. "É que nunca te vi por aqui", explicou o outro jovem. A partir daí, o rapaz começou a explicar que o público do local é majoritariamente composto por homens gays, de todas as idades, que vão ao local para se relacionar sexualmente uns com os outros ou apenas para assistir os filmes.

Sérgio estranha a forma didática usada pelo rapaz para explicar o funcionamento docinema e, em sua cabeça, surge a dúvida se ele era um freqüentador ou um funcionário. Rapidamente descobriu que o jovem era um visitante muito assíduo, fato evidenciado pelo seu conselho: "se você quiser aproveitar mesmo, tem que chegar cedo e esperar até anoitecer".

A conversa não se estendeu muito, já que o rapaz percebeu que os propósitos de Sérgio ali não condiziam muito com os seus. Logo deu uma desculpa para voltar ao interior da casa e saiu pela cortina. A todo instante, vários homens surgem na área externa, olham rapidamente e retornam. Apesar de breve, o olhar de cada um parece mapear cada centímetro do seu corpo. Vez ou outra, um homem para na cortina e fixa seus olhos sobre ele. O jovem prefere ignorar os olhares, apesar de sentir-se fuzilado.

O constrangimento cessa quando um grupo de três amigos chega ao ambiente. Atenta-se à aparência dos rapazes, bonitos e bem vestidos. Os cabelos molhados e o perfume indicam que se arrumaram há pouco. Após sentarem-se à mesa ao seu lado, constata que um deles está ali pela primeira vez, levado pelos outros dois para conhecer o local. Dão dicas, falam que à tarde não é tão movimentado quando no início e o decorrer da noite e que o levarão para conhecer outros lugares também.

No entanto, para a surpresa de Sérgio, em nenhum momento ouve os rapazes falarem sobre sexo. Cada um com uma cerveja em punho, eles tecem conversas sobre internet, amigos que começaram ou terminaram relacionamentos, festas que estão por vir e fatos corriqueiros que aconteceram com eles ou com pessoas do mesmo círculo.

Lanche e cerveja para quem tem fome e sede

O tempo passa e Sérgio ainda não conheceu muito da casa. Decide ir atrás de uma bebida e ver o que está acontecendo pelos cômodos. Percorre novamente o corredor e vê o hall de entrada com mais pessoas desta vez, ainda assistindo a programação da TV aberta.

Observa e descobre que as bebidas são vendidas ali mesmo na entrada através de outra abertura na cabine. Os itens vendidos no local estão listados num papel fixado na parede e não são muito variados: cervejas, salgados, refrigerantes, água. Pede uma cerveja ao "garçom" - é a mesma pessoa que recebe o dinheiro do cliente ao entrar -, paga e recebe novamente sem ver seu rosto.

Até então, mesmo dentro do cinema, ainda não viu nenhum filme. Começa a caminhar para o outro lado da casa e vê outro corredor com quatro cabines de madeira à esquerda, com portas abertas e toda mesma estrutura física, contendo um banco estofado retangular e uma TV média. Estão desocupadas.

Na primeira, Sérgio identifica uma embalagem de preservativo no chão, aberta. O conteúdo já havia sido utilizado e estava no lixeiro do pequeno espaço. Na parede, manchas do que pareciam esperma o impelem para fora. Não porque dois homens fizeram sexo ali, mas porque os rastros desse ato estão tão claros e evidentes, inclusive o cheiro.

O que acontece ali já não é mais dúvida. Sérgio se priva de conhecer as outras três cabines, todas são iguais. A diferença entre elas está no filme exibido, sendo que apenas uma mostra um pornô heterossexual. Decide conhecer o que está no lado direito do largo corredor. Três quartos transformados em salas, com poucas cadeiras e TVs médias, todas exibindo filmes de pornô homossexual.

Em cada uma, apenas dois ou três homens sentados, já que a maioria fica pelos corredores ou transitado por todos os espaços. Nestas salas, Sérgio para na porta e observa. Ninguém mantém relações sexuais, no máximo alguns tocam o próprio corpo.

Os olhares intrigantes convidam para algo mais, provavelmente fora daquele ambiente. No entanto, ele é surpreendido por um homem já com seus quarenta e poucos anos, forte, vestindo uma regata e bermuda e com uma cerveja na mão, que puxa assunto aparentemente sem nenhuma pretensão.

"Você é daqui mesmo de Teresina?", questiona o senhor. Sérgio diz que sim, porém informa que está ali pela primeira vez. Pergunta se ele costuma ir sempre e é respondido com muita tranquilidade. "Costumo sim, mas quase nunca 'faço' com ninguém. É um lugar que me sinto à vontade, tomo minha cerveja e converso com amigos que encontro por aqui e até faço novas amizades. Se aparecer alguém interessante, deixo claro minhas intenções", responde o homem, que não insiste no diálogo, aconselha a Sérgio que relaxe e segue para outra sala.

O rapaz permanece no cômodo por mais alguns instantes e segue pelo corredor em busca de espaços diferentes. No final do corredor, uma grande cortinaque dá acesso a uma sala maior. Em uma das paredes, a projeção de um filme que vai do rodapé ao forro. Sérgio olha primeiro para as cenas exibidas na parede e pondera mentalmente: "cinema sem projeção não é cinema". Todavia, apenas quatro lugares estão ocupados, um ao lado da outro, e senta-se numa quinta cadeira.

Passados dois ou três minutos, um homem de cerca de 50 anos sentado ao lado de Sérgio oferece um gole de cerveja. O rapaz educadamente recusa, e o senhor insiste, num tom provocativo, quase sussurrando ao oferecer a bebida. "Não, obrigado, estou bem", recusa novamente. O senhor então se volta para os outros três sentados à sua esquerda e começam a comentar silenciosamente sobre o filme.

Sem volume para não incomodar

Assistindo aquelas imagens ocupando toda a parede, Sérgio se dá conta mais uma vez do silêncio perturbador que paira sobre todo o cinema, inclusive ali, em frente à projeção. Parece uma regra inquebrável, nenhum ruído, nenhum grito ou gargalhada. Todos na área interna, seja caminhando de um lado para outro ou parados, permanecem silenciosos.

As exceções acontecem em momentos de flerte ou convites. Nesse momento, Sérgio passapor uma dessas exceções. Sentado na cadeira mais próxima da cortina de entrada, um homem de meia idade se aproxima e cutuca sua perna repetidas vezes. Ignorado pelo rapaz, ele insiste de todas as formas. Vendo que Sérgio não dá nenhum sinal de receptividade, o homem se afasta, retornando segundos depois.

Agora, começa a sussurrar pedidos lascivos e deixa claro o que quer. Chega, inclusive, a convidar o rapaz para ir a uma das cabines, onde lhe pudesse oferecer um sexo oral. Esse é o momento em que o nervosismo de Sérgio chega ao ápice.

Por mais que sua curiosidade de conhecer o lugar e a vontade de saber o que e como as coisas acontecem no tal cinema lhe motivassem ir até ali, permitir-se uma experiência como essa está totalmente fora de cogitação. Tensão e medo se misturam, e o máximo que consegue fazer é levantar o rosto e dizer ao rapaz em voz muito baixa e gesticulando bastante o maxilar: "não".

Sérgio se levanta atordoado, atravessa o corredor, compra mais uma cerveja e resolve ir novamente para a área externa, local onde chegou mais próximo de conseguir ficar à vontade. Antes dele, deveria passar pelo outro corredor, mais estreito e agora bem mais escuro.

A noite já havia caído e, no ambiente, não há mais nenhum ponto de luz. O rapaz é mais uma vez surpreendido, desta vez por mãos que tentam passear pelo seu corpo. Não é possível ver os rostos ou de onde vêm as mãos, só lhe resta apressar o passo e se livrar dos tatos mais inconvenientes. Sentou-se mais uma vez na área externa, não mais iluminada pelo sol, apenas por uma luz negra.

Enquanto está sentado, entre um gole e outro de cerveja, Sérgio refaz na cabeça as situações pela quais acabara de passar. Tenta se colocar no lugar de todos que estão ali, dos jovens que conversavam sobre assuntos corriqueiros, dos homens encostados nas paredes, dos agitados, do senhor de idade que lhe ofereceu bebida, o senhor simpático que não se mostrou interessado em nada mais que um diálogo, dos pedidos ousados que ouviu e das mãos libidinosas das quais teve de se livrar há pouco.

Nenhum julgamento quanto às posturas. Sérgio sabe que não somente em Teresina, mas espalhados por todo o mundo, incontáveis cinemas - bem como saunas e casas de swing -como o Cine Aventura reúnem diversas pessoas, homens, mulheres, homossexuais e heterossexuais. Quem está ali é dono do próprio corpo, a maioria provavelmente sabe o que lhe faz bem - ou não - e dos riscos aos quais estão expostos ao manter relações sexuais em tais condições.

Sérgio olha em volta e não se arrepende de ter ido ao tal cinema do anúncio pintado no muro. Não passou por situações agradáveis, mas descobriu a existência de um grupo de pessoas que buscam a satisfação sexual por vias nada convencionais. Levanta-se com a lata de cerveja vazia e obedece a um dos cartazes que dizem para jogar o lixo nas lixeiras.

Apressa-se em sair pelo corredor escuro, o hall, e atravessa a catraca. Na parede ao lado dela, mais um aviso: "saída definitiva. Se quiser entrar de novo, terá de pagar o valor de outra entrada". Seguiu em frente. É um gasto que Sérgio não pretende ter novamente, mas valeu a experiência.



Ambiente coloca em risco a saúde dos clientes; vizinhos reclamam

A experiência vivida por Sérgio, nome fictício do entrevistado ouvido pela nossa reportagem, descreve um local propício para a prática de relações sexuais desprotegidas, que oferecem riscos à saúde dos frequentadores do Cine Aventura. Tais vulnerabilidades estão refletidas na quantidade de atendimentos realizados pelo Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Teresina, que sãoresponsáveis pelas ações de diagnóstico e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

Segundo Kledson Batista, coordenador do programa DST/Aids da Fundação Municipal de Saúde (FMS) da capital piauiense, o número de jovens homossexuais diagnosticados com o vírus HIV vem crescendo mês a mês. "Muitos jovens, na faixa etária entre 13 e 19 anos, que frequentam estabelecimentos da mesma natureza do Cineminha, procuram o CTA depois de manterem essas relações e estão se confirmando com a presença do vírus HIV", revela.

Kledson Batista, da coordenação do programa DST/Aids da FMS (Foto: Lina Magalhães)

Contudo, os riscos não se restringem apenas à contração de DSTs, mas também às doenças transmitidas através do beijo, como a herpes, bem como à exposição às drogas e às consequências destas na vida do usuário, sejam elas legais ou ilegais.

"Alguns desses estabelecimentos têm as chamadas Dark Room, que significa sala escura. São locais em que eles entram, se tocam, mantêm relações sexuais entre eles, sem saber quem é o parceiro, sem se ligar no uso de preservativo, e sem falar que essa prática quase sempre ocorre simultaneamente com a ingestão de bebidas alcoólicas e uso de outras drogas", pontua o coordenador da FMS.

Kledson Batista afirma que conhece o Cine Aventura, situado no Centro de Teresina, e, inclusive, a FMS realiza ações no local. "Nossa intervenção é na redução de danos, não temos a função de punir ninguém, estamos lá para orientar", ressalta. O coordenador explica que o programa, intitulado Amar Sem Preconceito, conta com três técnicos que saem na noite teresinense, visitando bares e boates voltados para o público homossexual, distribuindo gratuitamente preservativos e gel lubrificante. A ação acontece todas as quartas-feiras e um sábado sim e outro não.

Escolas, clínicas e idosos na vizinhança

"É como abelha no cortiço, a gente só vê entrando e saindo", é assim que o idoso Durval Barros descreve a movimentação no Cineminha. O senhor, que mora nas proximidades do estabelecimento, diz que o local existe há mais ou menos um ano e à noite a quantidade de motos dificulta o tráfego nas calçadas. Apesar dos pequenos transtornos, Durval afirma que nunca pensou em denunciar o local. Já Jorge de Oliveira, que também é vizinho do Cineminha, defende o fechamento do local, apesar de se preocupar com as pessoas que ali trabalham. "É uma falta de respeito, a polícia devia fechar. Mas vai gerar desemprego", diz.

Por outro lado, o porteiro do colégio particular, que está situado em frente ao Cine Aventura, ressalta que a movimentação no local, vez por outra, promove desavençasentre os frequentadores e os estudantes. "Os meninos [alunos] sabem o que funciona ali e quando veem algum [cliente] entrando ou saindo começam a mexer, tirando brincadeira, porque você sabe como é adolescente, quer só um pezinho para tirar onda e eles [frequentadores] não gostam", pontua.

Foto: Lina Magalhães/ODIA

O que era residência funciona como comércio

A equipe de reportagem do Jornal O DIA verificou junto à Prefeitura Municipal de Teresina a documentação do imóvel onde funciona o Cine Aventura. A ficha cadastral informa que a destinação do local é residencial e não comercial tal como está funcionando atualmente.

Já a Agência de Vigilância Sanitária do município confirmou ao O DIA que desconhece a existência do estabelecimento e que assim nunca realizou nenhuma vistoria para saber se o local é apropriado para exercer a finalidade a qual se propõe.

O DIA procurou o proprietário do imóvel e fez contato através de seu telefone residencial, localizado no interior do Estado. O titular do imóvel informou que a administração do mesmo fica a cargo de sua filha, também procurada pela reportagem. Esta, por sua vez, afirmou que desconhece as atividades realizadas no local, que está alugado. "Não tenho conhecimento dessa informação e também nunca tivemos problemas com o inquilino", disse.

Preconceito e fantasias aguçam o interesse dos frequentadores

Uma lacuna deixada em aberto após a extinção do Cine Rex, um dos principais palcos do desenvolvimento da cena cultural em Teresina, que permaneceu em funcionamento por 65 anos, mas que no declínio de sua popularidade passou a exibir apenas filmes pornográficos. Essa pode ser uma das justificativas para a propagação de estabelecimentos similares em Teresina, que surgiram depois do Rex e não se restringem apenas ao Cineminha.

Contudo, para a Psicologia, a explicação, principalmente com relação ao público assíduo destes locais, envolve outros motes que vão desde o preconceito com relação aos homossexuais até os desejos mais íntimos de cada pessoa.

"Essa conduta pode ser de autoafirmação, pela condição homossexual, onde, muitas vezes, a família não sabe. Então freqüentar lugares como este é uma maneira de se estar exercitando essa sexualidade, sem que outras pessoas tomem conhecimento, seja porque trabalham, ou porque existe muito preconceito e até mesmo pelas próprias fantasias", pondera a psicóloga Layse Policarpo.

A psicóloga Layse Policarpo (Foto: Elias Fontinele/ODIA)


Segundo ela, o universo sexual é permeado por inúmeras questões, então não existe o certo ou o errado, o que fazer e o que não fazer. "Nossa sociedade é muito variada com relação ao concordar, ao aceitar ou não a opção homossexual. Tem pessoas que dizem que entendem, mas não querem perto delas, outras taxam de doença, manifestação diabólica, e por conta disso eles [os homossexuais] preferem se esconder do que enfrentar", completa.

Para minimizar os efeitos preconceituosos quanto à opção sexual das pessoas, Layse Policarpo reforça que a orientação precisa vir desde a infância. "A gente acha que criança não tem sexualidade e não entende, mas nosso corpo tem zonas erógenas, então tocar numa criança vai trazer para ela também sensação de prazer, só que ela não entender tanto quanto um adulto, por isso deve-se orientar desde pequeno como respeitar seu corpo, como se preservar, e a medida que essa criança vai se tornando adolescente, tomar conhecimento sobre as doenças, questões sociais, autocuidado, autoestima para que ela não venha se depreciar como pessoa", orienta a psicóloga.

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Por: Vigiane Passos e Yako Guerra - Jornal O DIA

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