Escalada de violência vai de pequenos furtos a latrocínio

Jovem analisa o emaranhado de escolhas perigosas que o levaram a estar cumprindo uma medida socioeducativa no CEM.

13/04/2019 08:15h

Compartilhar no

“Chegaram a me dar conselhos, mas eu não ouvia conselhos”. Luís* (nome fictício para preservar a identidade do jovem), de 19 anos, retoma muitas vezes o fato de que estava fechado a qualquer orientação e também “cego por dinheiro”, quando relembra os atos que cometeu dos 14 aos 16 anos e que culminaram em sua chegada ao Centro Educacional Masculino (CEM). Hoje, aos 17 anos, faz uma análise como se fosse um narrador que, de longe, vê o emaranhado de escolhas perigosas que o levaram a estar cumprindo uma medida socioeducativa no Centro. “Agora, eu sei que tenho que pagar pelo que cometi”, sentencia-se.


Foto: Jailson Soares/O Dia

O jovem deixou a escola na quinta série, quando se viu atraído pelo convite de amigos que já praticavam roubos na região do Mocambinho, zona Norte de Teresina. Criado pela mãe e pelo padrasto, Luís conta que os familiares criticavam a sua conduta e pediam que parasse de andar com “más influências”.

“Quando nossa mãe falava pra não fazer, nós não demos atenção e hoje estamos pagando por essas consequências. Se não é por amor, é pela dor. Estamos pela dor da distância, longe da família, a dor da saudade, estamos aqui hoje sentindo a pior dor, que não é a da cicatriz, é a do coração”, descreve com uma voz pausada.


“Quando nossa mãe falava pra não fazer, nós não demos atenção e hoje estamos pagando por essas consequências.


O jovem passou duas vezes pelo sistema por cometer assaltos. Ao ganhar a liberdade assistida, continuou a praticar delitos. Na terceira vez, o crime ganhou uma maior proporção e ele cometeu latrocínio – quando um assalto culmina em homicídio. Nessa época, conta que a família já não acreditava ou insistia para que ele mudasse de conduta, também perdeu a namorada e um filho. Por fim, perdeu a liberdade e está há um ano e oito meses internado no CEM.

“Aqui é um lugar que a pessoa aprende a ter paciência, é de reflexão, porque a gente reflete e aprende muitas coisas. Hoje em dia, eu tomei minha decisão aqui dentro, hoje eu estou aqui dentro como uma nova criatura, porque conheci um Deus e vou voltar diferente”, avalia.

Quando nada mais importa

Escutando toda a trajetória de Luís, o jovem André* (nome fictício), sentado na cadeira ao lado, parece se reconhecer algumas vezes com o que vê acontecer na vida do colega de internação. Quando fala de si, começa também pelos conselhos que não escutou da mãe e do pai. Mas diferente de Luís, André acrescentou uma escolha ainda mais degradante na trajetória que o levou até a internação: o vício em drogas.

Desde muito novo, o jovem realizava pequenos furtos para poder angariar o dinheiro para continuar comprando drogas, mas isso, uma hora, não foi suficiente. Aos 14 anos, André realizou o primeiro assalto. 


Desde muito novo, André realizava pequenos furtos para comprar drogas - Foto: Jailson Soares/O Dia

“Comecei a me aprofundar mais na droga. Era maconha, cocaína e eu sempre fazendo pequenos furtos pra sustentar meu vício. Até que, depois de um tempo, parei de roubar. Um tio meu ofereceu um emprego e comecei a trabalhar, mas todo dinheiro que eu ganhava, eu gastava com droga. Fiquei sem estudar, repetia de ano, a situação que eu levava pra casa começou a causar muitos problemas. Até que chegou uma hora que eu já não estava mais importando comigo e nem com ninguém”, relata.

Anestesiado por todo o cenário, em um novo assalto, André cometeu um latrocínio. Pela primeira vez, entrou para o sistema socioeducativo, onde está há “um ano, um mês e cinco dias”, como descreve pontualmente.


“Comecei a me aprofundar mais na droga. Era maconha, cocaína e eu sempre fazendo pequenos furtos pra sustentar meu vício. Um tio meu ofereceu um emprego e comecei a trabalhar, mas todo dinheiro que eu ganhava, eu gastava com droga.


“No começo, eu dizia que estava arrependido, mas não estava. A mudança não vem do dia pra noite. Mas aí, com o tempo, eu percebi que fiz algo sério, que eu mereci tá aqui, aí realmente fui vendo que isso aqui me dói, o que eu fiz não é certo. Eu não posso mais ser assim”, destaca.

Ambos os garotos são tidos pela equipe multidisciplinar do Centro, atualmente, como internos de bom comportamento, mas a gravidade do ato que cometeram faz com que o cumprimento da medida se alongue. 

Compartilhar no
Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!


Deixe seu comentário