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Defensores de direitos humanos são vítimas de intolerância e desrespeito

Ideias totalitárias, agressivas, e até mesmo fascistas, começam a florescer em situações de crise e ganham força em sociedades autoritárias.

09/04/2017 09:01

“Imagine que você chega a um hospital com seu pai doente, esperando atendimento, e chega a polícia com um bandido baleado, e ele é atendido com preferência. É um absurdo!”. A frase foi dita por um colega do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Marcelo Mascarenhas, durante uma conversa entre amigos.

Compreender e fazer outras pessoas compreenderem a necessidade da luta pelos direitos humanos é uma missão difícil em tempos tão intolerantes. Na situação relatada acima, o advogado foi didático. “Eu falei para ele: há algumas coisas que você precisa entender sobre isso. Se seu pai pode estar num hospital público esperando atendimento, é porque algumas décadas atrás, militantes dos direitos humanos lutaram pelo direito à saúde gratuita, através do SUS. Se seu pai, por ser idoso, tem que ter atendimento preferencial, é porque militantes dos direitos humanos lutaram para que houvesse um estatuto do idoso que resguardasse as pessoas da terceira idade. E se você tem a liberdade de hoje ficar falando o que pensa, inclusive bobagens, é porque militantes de direitos humanos morreram, foram torturados, para que você tivesse essa liberdade”, conta Mascarenhas.

Ideias totalitárias, agressivas, e até mesmo fascistas, começam a florescer em situações de crise e ganham força em sociedades autoritárias. (Foto: Arte O DIA)

Segundo o advogado, críticas com relação ao seu posicionamento são constantes. Ele observa que, nos últimos anos, tem sido recorrente no Brasil o discurso violento contra pessoas que defendem os direitos humanos, tanto na militância em organizações e na Justiça, como nas redes sociais. “O grande problema é que as pessoas construíram uma caricatura dos direitos humanos, um espantalho, e batem nesse espantalho. Mas não fazem a mínima ideia do que seja realmente”, comenta.

Sociedade autoritária

Para o defensor público Juliano Leonel, os brasileiros vivem numa sociedade historicamente construída de forma autoritária. “Isso dificulta as pessoas entenderem o que seria um processo penal democrático. Não por outra razão surgem essas máximas: bandido bom é bandido morto; quem cala consente; quem não deve, não teme”, explica.

Em sua atuação, o Leonel também é interpretado como um “defensor de bandidos” por parte da população. Ele é o titular da Coordenação de Atendimento ao Preso Provisório, e organizou no último final de semana, na Casa de Custódia, um mutirão para acelerar a resolutividade de tantos casos que encontramos no Piauí: pessoas que estão há anos privados da liberdade sem sequer ter tido uma conversa inicial com a Justiça. “Precisamos garantir os direitos para poder punir, e precisamos punir garantindo direitos”, afirma o defensor público.

Na análise do professor e mestre em História, Wagner Campos, ideias totalitárias, agressivas, e até mesmo fascistas, começam a florescer em situações de crise, sejam elas econômica, social ou política. “Você tem muito disso na sociedade sanitarista, no Brasil do início do século 20, em que homossexuais, alcóolatras, pessoas ‘desviadas’, que não está no padrão, eram jogados em manicômios”, comenta.

Wagner afirma que, no contexto atual, o deputado Jair Bolsonaro emerge como um líder carismático fascista e em volta dele, tal ideia vai ganhando adesão. “O pensamento fascista é o de anulação do eu e a destruição do outro. Dentro desse grupo, todo mundo é igual, todos são bons, mas quem está fora dele é o outro, é ruim, é destruído”, analisa o professor.

Por: Nayara Felizardo
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