Cuidados com a saúde mental devem se manter em meio à pandemia

O Setembro Amarelo, mês marcado por iniciativas de prevenção ao suicídio e outros temas relacionados à saúde mental, chama atenção para o tema, especialmente neste momento delicado que vivemos atualmente

18/09/2020 12:08h - Atualizado em 18/09/2020 12:13h

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Sem dúvida, 2020 foi um ano de grande impacto na vida de todos. A pandemia causada pelo novo coronavírus afetou a rotina e mudou completamente o modo de viver das pessoas. Isso afetou não somente o trabalho ou estudo, mas no pessoal e psicológico de cada um. O Setembro Amarelo, mês marcado por iniciativas de prevenção ao suicídio e outros temas relacionados à saúde mental, chama atenção para o tema, especialmente neste momento delicado que vivemos atualmente. 

psiquiatra Ygor Czovny comenta que o Setembro Amarelo é uma referência muito importante para se discutir sobre saúde mental, que inclusive está sendo cada dia mais divulgada, não somente na mídia, mas nas artes, como séries de TV, filmes, novelas. Temas como depressão, suicídio e ansiedade estão sendo mais frequente discutir e isso tem permitido que mais pessoas tenham conhecimentos sobre esses transtornos e como preveni-los. 

“O Piauí está em 4º lugar no ranking brasileiro de suicídio entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. É uma questão de saúde pública e que atinge todas as classes. Ninguém está imune porque todos têm uma mente e, consequentemente, está sujeito a ter algo, por isso os cuidados com a saúde mental e ao bem-estar”, comenta.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Sobre a pandemia da coronavírus e os transtornos que ela pode desencadear, o psiquiatra comenta a saúde mental, em meio à tudo que está acontecendo, torna-se ainda mais vulnerável, sobretudo para quem sofre com algum transtorno. Ygor Czovny destaca que uma das principais causas da vulnerabilidade a tentativas de suicídio ou formação de um processo de depressão é a restrição, ou seja, estar em isolamento social.

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“Estar restrito a se movimentar ou realizar nossas coisas, à nível coletivo e que está sendo experimentado por nós com a pandemia, é um grande risco para que pessoas que tinham depressão acentuem seus casos. Pessoa que estavam praticamente na reta final do tratamento, avançando na terapia, com a parte medicamentosa já sendo reduzida e, de repente, desandou tudo”, cita.

O especialista pontua ainda que pessoas que não manifestavam nenhum sintoma agora começaram a se sentir incapacitadas e inseguras. Ele atribui isso ao medo de não saber se alguém irá adoecer; quanto tempo a pandemia irá durar, entre outras perguntas. Isso faz com que abra espaço para a ansiedade e as suas consequências, com insônia, compulsão, atritos e brigas familiares. Por isso, ele reforça que a presença e companhia de familiar, amigos e grupos é fundamental neste momento.

“O diálogo é importante para perceber se alguém está bem,  e, através desse momento, é possível perceber se estamos indo bem ou não. A saúde física precisa sempre se relacionar com a saúde emocional. Se a pessoa se sente mal; deixa de gostar de coisas que antes gostava muito; se atrapalha nas funcionalidades, então deve-se buscar ajuda profissional, como um psiquiatra, psicólogo, terapia, e os grupos sociais, como igrejas e de encontro, que tem colaborado bastante neste momento”, reforça.

Como lidar com o trabalho e os medos durante a pandemia

Ygor Czovny comenta a sociedade foi criada para funcionar de modo presencial, e, há algumas décadas, temos trabalhado para que nosso cérebro passe a funcionar no formato mais informativo e digital. Contudo, a maior dificuldade das pessoas que têm trabalhado home office durante a pandemia é a organização.

“Por achar que há mais tempo para realizar as tarefas, isso abre espaço para a procrastinação, pois não consegue ter uma dimensão total do tempo. Tudo está sendo resolvido no mesmo espaço, seja trabalho, lazer, descanso, e isso para a mente é confuso, complicado para nos organizarmos de maneira mais natural. Por isso, é preciso criar uma rotina, fazer listas de tarefas, perceber quais são as prioridades, finalizar uma atividade antes de iniciar outra, não fazer multitarefas”, explica.

O psiquiatra pontua ainda que a sensação de culpa por não estar conseguindo fazer as atividades é o que abre espaço para os transtornos, como ansiedade, insônia, TOC. o profissional ressalta também que, ao fazermos muitas tarefas ao mesmo tempo, não conseguimos ficar atentos em tudo que foi realizado.

“Com isso, não conseguimos lembrar do que foi feito. dessa forma, a pessoa tende a se cansar mais e essa exaustão afeta, inclusive no rendimento profissional. Com a culpa, o processo é muito mais desgastante, fazendo com que a pessoa erre muito mais”, disse.

Mesmo com as surpresas, adapte seus planos

Com a pandemia, muitas pessoas precisaram adiar e até cancelar seus projetos. Para algumas pessoas, essa mudança de planos trouxe prejuízos, tanto materiais como psicológicos. Mas, o psiquiatra Ygor Czovny ressalta que é possível se reorganizar para que esses planos não sejam completamente perdidos.

“Precisamos repriorizar nossos sonhos e o que temos vontade. O que mais traz sofrimento para o ser humano é não aceitar a condição que está sendo vivida. A partir do momento que aceitamos que este é um momento turbulento e mais difícil, mas nos permitimos aceitar esta condição, o sofrimento dificilmente consegue se inserir, porque a pessoa consegue perceber suas possibilidades. O fato de não realizar aquele sonho que se tinha na virada do ano, não significa que outros sonhos ou outras possibilidades não estejam acontecendo em paralelo. Sempre têm outras possibilidades acontecendo, mas a gente se enrijece tanto e fica tão inflexível com aquela ideia ou formato que estabelecemos, que não conseguimos enxergar outras coisas”, explica.

O especialista destaca que, apesar das surpresas, a pandemia permitiu que as pessoas dessem mais valor para outras questões que antes não davam, percebendo que a vida também pode seguir de outras forma. “Todo mundo perdeu um pouco na pandemia, mas todo mundo também ganhou algo. Agora, percebemos outro modo de funcionamento. Mas, como fazer com que isso não cause um transtorno? Aceitando a condição que vivemos e pensando que o fato de não termos conseguido realizar determinada coisa não significa que todas as portas estão fechadas”, disse.

“Precisamos ser mais generosos com nós mesmos, sem julgar o caminho que escolhemos. Precisamos ter gratidão e orgulho pelo que fizemos até aqui, entendendo que isso vai auxiliar no que estamos vivendo hoje. Somos um ser sempre em construção, mas caímos na culpa e na insegurança de achar que não escolhemos o caminho certo, às vezes nos comparando com a vida de outras pessoas e é isso que faz com que caiamos em adoecimento”, finaliza o psiquiatra Ygor Czovny.

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Por: Isabela Lopes

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