Criança diabética morre em hospital de Teresina após receber soro glicosado

A família da vítima denuncia ainda que o atendimento foi feito à luz de velas

29/05/2013 08:15h - Atualizado em 29/05/2013 17:23h

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A menina Luana Mesquita, 8 anos, morreu no último dia 17 no Hospital do Satélite, zona Leste de Teresina, após receber, sendo diabética, soro glicosado na veia. A família da menina diz que não sabia que Luana era diabética e culpa a direção do hospital pelo falecimento. 

A garota deu entrada no hospital às 15h12, com um quadro de desidratação e vômitos, e faleceu por volta das 20 horas.

A mãe da criança, Socorro Soares, explica que a menina nunca apresentou sintomas da doença e aponta erros no atendimento à filha.

“Eu não tinha conhecimento. A gente achou que foi alguma coisa que ela comeu que fez mal. Colocaram soro com glicose aplicado por uma médica e os exames só começaram a ser feitos depois de 5 horas da entrada no hospital”, afirmou Socorro.

Segundo ela, o exame de glicemia só foi feito depois que Luana já havia recebido o soro glicosado.

De acordo com Socorro, durante o atendimento, o hospital estava sem energia e o procedimento foi realizado á luz de velas. Ela conta que um algodão chegou a pegar fogo perto de Luana. “Estava calor, foi tudo feito às escuras”, destacou. 

A mãe de Luana lamenta a perda da única filha e pede que o suposto erro não se repita.

Discussão na Câmara

A situação levou a Câmara dos Vereadores de Teresina a realizar sessão extraordinária. O vereador Dudu (PT) denuncia a falta de acompanhamento da equipe do Programa Saúde da Família (PSF) e também defende um projeto de lei que prevê a obrigatoriedade do exame que possa diagnosticar a doença antes de qualquer procedimento.

"Se a menina tivesse sido atendida pelo PSF, talvez não tivesse morrido. Se a equipe soubesse que ela era diabética, não teria aplicado soro glicosado e teria dotado qualquer outro procedimento", afirmou o vereador.

O outro lado

De acordo com a Fundação Hospitalar de Teresina (FHT), a menina Luana deu entrada no hospital no último dia 17 deste mês com um quadro grave de vômito e desidratação. O presidente da Fundação, Aderivaldo Andrade, diz que, como a família não informou nada sobre a menina ser diabética ou não, o médico não tinha como saber a princípio.

Segundo ele, o tratamento médico se iniciou com a coleta do sangue da menina e foi feito um exame de glicemia no dedo da criança para saber se ela era diabética ou não e em seguida foi aplicado o soro fisiológico, que é o aconselhável para casos de desidratação. Como não surtiu efeito, o pediatra decidiu aplicar soro glicosado.

Somente após essas aplicações, diz Aderivaldo, constatou-se que a glicemia de Luana estava acima do normal, mas os médicos ficaram em dúvida se a menina era mesmo diabética ou  se o aumento da taxa era decorrente das aplicações de soro glicosado. Porém, foi suspensa a injeção de glicose.

De acordo com o presidente, após o falecimento, o diretor clínico do hospital, Raimundo Milton, abordou a família e chegou a pedir uma autópsia para averiguar a causa da morte, o que foi negado pela família.

Aderivaldo disse ainda que a causa da morte de Luana teria sido cetoacidose diabética, ou seja, uma complicação aguda da doença. O prontuário ainda está sendo aguardado. “A família não fez nenhuma queixa depois da morte. Eu não sei dizer se é rotina o PSF fazer todo tipo de exame em todo paciente, mas não houve falha. O tratamento inicial foi bem feito”, assegurou o presidente.

Em nota, a FHT diz que foi iniciado ontem processo investigatório para apurar se houve falhas por parte dos médicos e do hospital.

Socorro Soares explica que não denunciou o hospital antes porque não tinha condições emocionais para isso. A família busca contato com o Conselho Tutelar, e já procurou o 11º Distrito Policial. “Ainda não tinham mostrado o prontuário pra gente. Foi preciso a gente ir procurar um delegado”, reclamou a mãe da menina

A presidente da Associação dos Diabéticos de Teresina, Jeane Melo, diz que é preciso se criar um protocolo de urgência e emergência nos hospitais de modo que seja reduzida a demora no atendimento a pacientes diabéticos. Segundo ela, o que mata meso é o tempo que se leva para que o paciente tenha o tratamento adequado. "O soro tem pouca quantidade de glicose. A demora do diagnóstico é que mata". diz ela.

Jeane fala ainda no número crescente de diabéticos no mundo, principalmente crianças. "Os sintomas são sempre os mesmos: perda de peso, intensa vontade de urinar, fraqueza". Para a presidente da associação, não se pode subestimar a doença. "O exame de glicemia capilar é barato e deveria ser disponibilizado em qualquer posto de saúde. Diabetes não pode ser confundida com virose", afirma. 

Confira a nota da Fundação Hospitalar de Teresina na íntegra

A Fundação Hospitalar de Teresina, por meio do seu presidente Aderivaldo Andrade, vem prestar esclarecimentos a respeito do falecimento da paciente Luana Mesquita, de 8 anos, no dia 17 de maio de 2013, por volta das 20h, nas dependências do Hospital do Satélite.

Inicialmente, lamentamos o falecimento da criança e somos solidários na dor com seus familiares.

A paciente foi admitida às 15h12 minutos, levada pela avó, com relato de vômitos. O pediatra que deu atendimento inicial caracterizou o diagnóstico como desidratação, tendo iniciado a reidratação com soro glico-fisiológico (contém água, glicose e sal), este é o soro padrão, segundo o pediatra, utilizado nos casos de desidratação. Foi utilizado ainda medicamento para vômito.

Após o fim da primeira etapa do soro foi iniciada uma segunda etapa do mesmo soro. Como a paciente não apresentava melhora, os dois pediatras de plantão levaram a criança para a sala de reanimação para tentar salvá-la.

Durante o período de 18h30min e 20h foram realizados vários esforços pelos pediatras e clínicos para melhor reanimar a criança, entretanto, não obtiveram sucesso, e a paciente foi a óbito. A partir desse momento, o diretor clínico do Hospital do Satélite, informado sobre a rapidez trágica do quadro apresentado pela paciente, tentou obter, junto à família, informações sobre doenças prévias que pudessem ter ajudado a agravar o quadro, informando aos familiares que um exame de glicemia tinha revelado níveis elevados de glicose no sangue. Diante da negativa de doenças, o diretor clínico sugeriu a realização de autópsia com a finalidade de obter mais informações, mas a família não concordou com o procedimento.

Desde ontem, 28, foi iniciado processo investigatório a fim de esclarecer possíveis responsabilidades dos médicos e do hospital que possam de alguma forma ter contribuído para esse desenlace trágico.

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Por: Maria Clara Estrêla

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