Casos de grande repercussão abalaram a sociedade piauiense em 2013

Emídio Reis, José Viriato Correia Lima e Fernanda Lages são os nomes dos protagonistas dos casos.

29/12/2013 08:38h

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No ano de 2013, três casos policiais em especial mexeram com a polícia, a justiça e a população piauiense. Emídio Reis, José Viriato Correia Lima e Fernanda Lages são os nomes dos protagonistas dos casos, o primeiro sendo vítima de uma ação bárbara, o segundo como mandante de crimes igualmente cruéis e a terceira como protagonista de um dos maiores mistérios envolvendo morte e investigação policial no estado do Piauí.

Correia Lima e caso Safanelli: o julgamento 24 anos depois

Depois de mais de 24 anos do crime cometido, o ex-coronel José Viriato Correia Lima finalmente foi a julgamento em 30 de setembro de 2013, suspeito do assassinato do Policial Civil Leandro Safanelli, em Parnaíba, município do litoral do estado do Piauí, no ano de 1989. Ele foi julgado culpado e condenado a cumprir pena em regime fechado por 23 anos, sete meses e 15 dias.

Preso há cerca de 14 anos após condenação por outros crimes, a exemplo do assassinato de José Ferreira Castelo Branco Filho, o engenheiro mais conhecido como “Castelinho”, em Teresina, no ano de 1999, Correia Lima aguardava julgamento pela morte de Safanelli.

Durante todo esse tempo, a defesa do ex-coronel tentou diversas manobras e pretendia, principalmente, que seu cliente cumprisse pena em regime semiaberto ou respondesse pelo crime em liberdade, mas não obteve sucesso. Na leitura da sentença, a juíza Maria do Perpétuo Socorro, titular da 1º Vara do Tribunal do Júri, afirmou que seria uma afronta à ordem pública e um desrespeito à sociedade que Correia Lima respondesse em liberdade.

O dia do julgamento também foi marcado por momentos críticos, como a ameaça do advogado de defesa de Correia Lima, Wendell Oliveira, de abandonar o caso, instantes antes do início do julgamento.

Uma das testemunhas do caso, o policial Francisco das Chagas, foi detido após constatação de falso testemunho durante seu depoimento. Ele chegou a errar a própria idade e disse que não sabia o que estava fazendo ali, mas depoimentos anteriores confirmaram que Francisco sabia detalhes sobre a morte de Safanelli.

Ao fim, o ex-coronel foi julgado como culpado de forma unânime pelo tribunal do júri e sentenciado por homicídio triplamente qualificado, contendo motivo torpe e emprego de meios cruéis, sem oferecer possibilidade de defesa à vítima.

Sobre a personalidade de Correia Lima, a juíza alegou que ele é perverso, tem índole voltada para o crime e é capaz de desumanizar a vítima.

O assassinato

O crime chocou o Piauí e foi marcado pela crueldade com que foi cometido. Reunidas, as diversas informações acerca do crime recriam uma cena de frieza na execução de Leandro Safanelli. Ele foi perseguido pelos conhecidos “pistoleiros” que trabalhavam para o ex-coronel pela Avenida São Sebastião, em Parnaíba. Quando chegaram próximo ao policial, os homens dispararam contra ele, que seguia em uma motocicleta.

Leandro caiu no chão e, mesmo pedindo para que não fosse morto, teve três pistolas completamente descarregadas em seu corpo. A motivação do crime seria a reprovação do ex-coronel quanto ao relacionamento amoroso entre sua filha e Leandro Safanelli.

Emídio Reis: oposição política e execução planejada

O vereador Emídio Reis (PPS) era considerado um dos principais opositores da gestão do prefeito Zé de Neci (PT) e de seu vice José Francimar Pereira (PP), no município de São Julião, 390Km ao sul de Teresina, quando desapareceu no dia 31 de janeiro de 2013 e foi encontrado morto cinco dias depois, com duas marcas de tiros e enterrado em uma cova rasa em uma propriedade rural.

Diversas hipóteses foram levantadas durante os três meses de investigação que se seguiram e, no dia 18 de abril de 2013, a Polícia Civil do Piauí confirmou as principais suspeitas: o mentor intelectual do crime era o vice prefeito do município, contra o qual Emídio havia protocolado denúncias junto ao Ministério Público Federal e ao Tribunal de contas do Estado que poderiam custar os mandatos de Zé de Neci e José Francimar.

O vice-prefeito foi preso ainda no dia 18 de abril, acusado de ter pago R$ 15 mil para um agenciador e três executores, Joaquim Pereira Neto, Válter Ricardo da Silva, Antônio Sebastião de Sá e José Gildásio da Silva Brito, respectivamente, presos dias depois, para matarem Emídio Reis. Embora diretamente beneficiado com a morte do vereador, não foram encontrados indícios de participação do prefeito no planejamento do assassinato.

Durante vários dias os três executores seguiram o vereador para conhecerem sua rotina. O crime, caracterizado como homicídio qualificado, aconteceu no dia 31 de janeiro, quando Emídio retornava do município de Picos para São Julião. No meio do caminho a vítima parou para oferecer carona a Válter, um dos executores, pois os dois já se conheciam.

Alguns quilômetros depois, o passageiro pediu para descer e a emboscada foi revelada. Os dois outros assassinos desceram de um outro veículo, renderam a vítima e seguiram por mais 120Km em seu carro. Chegando a uma propriedade rural afastada, Emídio desceu do veículo e foi atingido por dois tiros, um na nuca e outro na perna. Cerca de 10m adiante, os executores cavaram com as próprias mãos uma cova rasa onde o vereador foi enterrado.

Apesar dos tiros, Emídio não morreu naquele instante e, por isso, foi enterrado vivo, sendo constatada posteriormente, após verificação de presença de terra em sua traqueia, que a vítima teve morte por asfixia.

Concluídas as investigações, os cinco envolvidos no assassinato foram presos e indiciados pelo crime. Em 23 de agosto de 2013 aconteceu a primeira audiência de instrução que conduzirá ao julgamento dos cinco participantes. Os homens permanecem presos enquanto aguardam decisão judicial.

Caso Fernanda Lages: mais um ano de polêmicas e inconclusões

Passados dois anos e finalizados dois inquéritos policiais, ainda gera revolta a simples menção ao nome da estudante Fernanda Lages, de 19 anos, encontrada morta no dia 25 de agosto de 2011 nas obras do prédio do Ministério Público Federal, na zona Leste de Teresina. O mistério que cerca o caso está no fato de que nenhuma instituição policial ou judiciária conseguiu afirmar com 100% de certeza o que causou a morte da jovem

Em 2013, uma das grandes surpresas em relação ao desenrolar dos fatos foi o pedido de afastamento feito pelos promotores de justiça Ubiraci Rocha e Eliardo Cabral, que desde o início das investigações acompanham o caso e defendem a tese de homicídio para a causa da morte de Fernanda.  

Segundo os promotores, a requisição para a saída do caso se deu em reação ao processo administrativo instaurado pela Procuradoria Geral de Justiça contra os dois, sob a alegação de que após finalizado o inquérito da Polícia Federal quanto à morte da estudante, os promotores deveriam ter apresentado parecer em até 15 dias.

Contudo, 10 meses depois, Eliardo e Ubiraci ainda analisavam o material, que contém mais de 6 mil páginas. O pedido de afastamento aconteceu em julho deste ano, após notificação da Procuradoria. O relatório foi concluído em setembro de 2012. Apesar da abertura do processo e do pedido de afastamento, os promotores foram mantidos no caso.

Mais uma das surpresas foi a requisição de quatro novas diligências feitas pelos promotores. Além destas, duas outras já haviam sido feitas antes do pedido de saída protocolado pelos dois. As diligências dizem respeito ao pedido de autópsia psicológica da estudante, iniciada em 23 de outubro deste ano, e a identificação do homem que, segundo eles, estavam em companhia de Nayra Veloso, amiga da estudante, e da própria Fernanda, horas antes de sua morte, diante do prédio onde seu corpo foi encontrado. Esta ainda não finalizada.

Quanto às quatro novas solicitações feitas pelos promotores, três delas são consideradas sigilosas e não foram divulgadas, sob pena de comprometer novas ações investigativas. A quarta diz respeito à identificação dos perfis genéticos masculinos encontrados na mureta de onde Fernanda poderia ter sido jogada ou teria se atirado. Esse pedido, até agora, não foi atendido.

Devido às solicitações, uma nova reconstituição foi feita no dia 11 de novembro de 2013 e contou com novos elementos com relação à reconstituição feita anteriormente pela Polícia Civil. Um deles é um carro S-10 que teria circulado diante do prédio e, principalmente, a presença do homem ainda não identificado.

De acordo com os promotores, a revelação da identidade deste homem é a grande chave para a solução do caso. Nayra Veloso, segundo eles, estaria sendo intimidada e, por isso, se recusa a dizer quem é essa pessoa.

Enquanto os relatórios da Polícia Civil e da Polícia Federal apontam suicídio ou queda acidental de Fernanda do alto do prédio, a família afirma repetidamente que a estudante jamais tiraria a própria vida.  Ainda com tantos pontos polêmicos e confusos em aberto, é natural esperar que em 2014, o terceiro ano após a morte de Fernanda Lages, muitas novas informações e especulações acerca do caso ainda apareçam.

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Por: Maria Romero

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