Agrotóxico está presente no leite materno das piauienses, diz pesquisa

Pesquisador Inácio Pereira Lima descobriu a contaminação do leite materno pelo agrotóxico glifosato em puérperas atendidas em maternidades públicas do Piauí.

07/07/2018 08:01h - Atualizado em 07/07/2018 08:13h

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O leite materno é a mais importante – e única – fonte de nutrição de uma criança recém-nascida em seus primeiros meses de vida. Uma alimentação, em tese, extremamente saudável. Em tese porque o estilo de vida moderna e a influência de produtos, como os agrotóxicos, interferem em vários níveis a saúde da população, literalmente, desde os primeiros momentos de vida.

É o que comprova uma pesquisa feita em municípios do interior do Piauí, que identificou, em 83% do leite materno de puérperas analisado, a presença de um tipo de agrotóxico. O estudo é do pesquisador Inácio Pereira Lima que, em sua dissertação de mestrado, se debruçou sobre a contaminação do leite materno pelo agrotóxico glifosato em puérperas atendidas em maternidades públicas do Piauí. 

Agrotóxico está presente no leite materno das piauienses, diz pesquisa. (Foto: Folhapress)

O glifosato é um dos agrotóxicos mais utilizados na agricultura em todo o Brasil, realidade não diferente no Piauí e, por isso, a sua escolha. Foi atestada nas amostras de leite materno colhidas em mulheres dos municípios de Uruçuí e Oeiras, no Sul do Estado, a presença do glifosato em 83% e 45%, respectivamente, das amostras analisadas. 

“Escolhemos estas duas áreas porque elas têm particularidades bem definidas. Uruçuí se constitui como a região de maior demanda de agrotóxico, no Piauí, por ser uma área produtiva; e Oeiras, por ouro lado, não é identificada como tal. O que vemos é a alta presença desse produto no leite materno, altíssima em uma zona de território cultivado, como é o caso de Uruçuí, e também preocupante em um lugar que, em tese, sofreria menos com sua utilização”, explica Inácio Lima. 

O glifosato é utilizado, sobretudo, na agricultura para matar plantas denominadas de invasoras, além de ser usado como dessecante. A pesquisa, pelo alto custo de realização, não conseguiu traçar a quantidade deste herbicida disperso em cada amostra; mas apenas sua presença, como ressalta o pesquisador, já é agravante para a saúde humana. 

“O glifosato é liberado pela Anvisa e órgãos do setor por não indicar risco cancerígeno para o ser humano, no entanto, pesquisas recentes já demostram o contrário. Em alguns países, ele já começa a ser barrado. É preciso fazer o alerta quanto a esse uso indiscriminado”, ressalta. Inácio ainda destaca a associação do uso de agrotóxico à incidência de doenças como câncer, malformação genética e autismo. Realizada nos anos de 2016 e 2017, a pesquisa mostra um cenário alarmante em um período que o país se volta a uma nova proposta de projeto de lei que flexibiliza as regras para fiscalização e utilização de agrotóxicos no País.

Projeto de Lei quer flexibilizar lei dos agrotóxicos

A ação que jogou luz ao debate sobre a utilização dos agrotóxicos em todo o país veio da Câmara dos Deputados. Isto porque uma comissão especial da Câmara aprovou, no fim de junho, uma proposta que flexibiliza a lei dos agrotóxicos. A proposta revoga a lei de 1989 e altera as regras de produção, comercialização e distribuição de agrotóxicos. 

No entanto, o texto ainda passará pelo plenário da Câmara dos Deputados, o que certamente não ocorrerá antes das eleições em outubro. Entre os muitos pontos, o projeto de lei pretende mudar a palavra agrotóxico, que inclusive está na Constituição brasileira, para "defensivos agrícolas" e "produtos fitossanitários”. 

Agrotóxico é um termo claro e avisa aos usuários diretos - produtores e trabalhadores rurais - e aos consumidores que o produto é venenoso e apresenta perigo. Também está previsto que a área da Saúde, representada pela Anvisa, e a área de Meio Ambiente, representada pelo Ibama, ficariam de fora de qualquer avaliação e parecer sobre os agrotóxicos, deixando tudo a cargo do Ministério da Agricultura.

 É criado um registro e autorização temporários para produtos que já sejam registrados em outros três países que sejam membros da Organização para Coorperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e adotem o código da FAO. O prazo será de 1 ano de análise e, então, o registro será liberado temporariamente. 

Embates 

Do lado contrário ao projeto estão ONGs da área do meio ambiente, a Anvisa, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador (Ministério da Saúde), o Instituto Nacional do Câncer (Inca) e o Ibama. O argumento favorável à mudança parte de setores ligados ao agronegócio, que dizem ser necessária uma maior flexibilização no que tange ao setor agroindustrial.

Leia esta reportagem completa na edição deste fim de semana do Jornal O Dia.

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Por: Glenda Uchôa

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