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“Não quero que me vejam com pena”, desabafa mãe de criança autista

Teresa Ramos pede que a sociedade enxergue seu filho e ela com respeito e relata seu amadurecimento enquanto mãe ao longo da jornada Glenda Uchôa

11/05/2019 10:16h - Atualizado em 16/05/2019 10:48h

Faz dez anos que Teresa Ramos deu à luz a Gustavo, único filho de um relacionamento que não teve continuidade a partir do momento que ela relatou para o companheiro que estava grávida. A mudança que aconteceu naquele momento foi apenas um sinal para as outras que continuariam a reverberar na sua vida. Dois anos após o nascimento do filho, Teresa descobriria que Gustavo estava enquadrado dentro do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição que ela jamais tinha ouvido falar. Mas muita coisa continuou a mudar. Hoje, Teresa é uma voz potente dentro do que acredita ser necessário para o seu filho e para a sociedade em que ele está inserido. Neste Dia das Mães, mais uma vez, ela promete comemorar isso com orgulho.

“Não quero que me vejam com pena, quero que a sociedade nos veja, meu filho e eu, como seres que precisam ser respeitados. Nós, mães de autistas, todos os dias, conseguimos conquistar nosso espaço, conquistas que, na verdade, são direitos, mas que tivemos que adquiri-los. É preciso ter respeito pela pessoa com deficiência e é preciso ter respeito por essa mãe que sofre”, afirma.

O nível de autismo de Gustavo faz dele uma criança ainda muito dependente dos cuidados da mãe. É Tereza quem consegue entender a linguagem ainda pouco desenvolvida do filho e que o acompanha nas atividades, e também é ela a primeira a comemorar seus avanços. “Hoje, ele consegue dar duas voltas no cadarço do tênis. As outras pessoas podem ver isso como besteira, não é? Mas para mim é uma felicidade enorme, só eu sei como ele lutou para conseguir”, destaca.


Gustavo demonstra o amor que sente por sua mãe, Teresa Ramos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

São essas lutas que fazem da maternidade uma grande missão na vida de Teresa. Missão esta que nem sempre foi entendida de forma tão serena. Ela conta que, antes de saber do exato diagnóstico, imaginava que seu filho poderia ser surdo. “Eu chamava, ele não olhava, não atendia, foi quando fui atrás para saber o que acontecia”, lembra. A resposta da condição do filho ser autista causou um grande susto nela. “Quando meu filho tem um problema que eu posso ajudar, que eu sei o que é, se torna mais fácil, mas quando meu filho tem uma deficiência que eu nunca tinha ouvido falar? Eu fiquei em pânico. Pensei ‘como vou ajudar meu filho? Por onde começo?’”, questionou.

Mas ela começou pela reação. Buscou centros de atendimento para si e para o filho e fez da informação um trampolim para investir no desenvolvimento de Gustavo e no seu fortalecimento enquanto mãe. “Depois que eu me acalmei, eu vi que não podia ser tão egoísta. O momento não é meu, o momento é do meu filho. E nós conseguimos. Hoje meu filho já vai fazer quatro anos que faz atendimento aqui na AMA (Associação de Amigos dos Autistas do Piauí)”, afirma.

Amparada por profissionais e pelas histórias de outras centenas de mães, a rede que se forma para possibilitar uma maior qualidade de vida para os autistas em Teresina se engrandece. Mães e filhos ganham seu lugar e o reconhecimento dos seus muitos direitos, fatores que, quando bem estabelecidos, fazem das dificuldades um pouco menores. “Em nenhum momento me arrependo por ter sido mãe. Eu não considero que meu filho autista me dá trabalho, eu sei que ele foi dado por Deus e eu tenho muita felicidade em saber que eu terei uma pessoa sempre do meu lado, assim como ele também me terá”, finaliza.


Eu não considero que meu filho autista me dá trabalho, eu sei que ele foi dado por Deus e eu tenho muita felicidade em saber que eu terei uma pessoa sempre do meu lado, assim como ele também me terá”


Abandono ainda é triste realidade na vida das mães

Não são isolados os relatos de abandono familiar ao ser comprovado o diagnóstico de autismo de uma criança. Geralmente, os pais somem, deixando a cargo apenas das mães a responsabilidade de cuidar do filho ou filha com TEA. Mas casos de abandono de pais e mães também acontecem, fazendo, geralmente da avó, a cuidadora responsável. Esses cenários são comprovados com uma frequência maior do que a que gostaria Rosália Sousa, presidente da Associação de Amigos dos Autistas do Piauí (AMA-PI), entidade voltada à inclusão de pessoas autistas. Para ela, a informação tem ajudado com que, apesar de ainda existentes, os casos de abandono sejam menores.

“No geral, quando essas mães chegam, elas estão extremamente estressadas, angustiadas, em situação de choque pelo diagnóstico. Os companheiros, muitas vezes, abandonam essa mulher e seu filho. Quando a AMA as recebe, a gente faz um diagnóstico geral da situação dela, vê se ela precisa de acompanhamento psicológico, mostra pra essa mãe que ela não está sozinha, que pode contar com nosso trabalho”, destaca Rosália. 


Rosália destaca o importante suporte prestado pela AMA em prol das famílias - Foto: Elias Fontinele/O Dia

A presidente da Associação ressalta que a família de crianças autistas precisa de acolhimento, e a mãe, em especial, muito mais. “Às vezes, ela se sente até culpada por não ter conseguido gerar um filho dentro do padrão esperado”, explica.

Por isso, são em centros como a AMA que as histórias conseguem tomar novos contornos. A maternidade para mulheres com filhos autistas é cheia de desafios que podem ser mais facilmente contornados com o apoio afetivo e profissional.

“Essa mãe, depois de alguns dias aqui, já percebe a diferença, que ela não é a única mãe que está naquela condição. Então, não trazemos aquela situação como se fosse uma carga pesada, mostramos que aquilo, pra ela, pode ser enfrentado, que muitas outras mães têm verdadeiros problemas, mas o autismo não precisa ser um deles”, explica.

É neste sentido que a disseminação de informações sobre o espectro contribui para que cada vez mais famílias procurem por ajuda e possam ampliar não apenas os resultados de desenvolvimento na vida das crianças, mas da família e sociedade em geral.

Por: Glenda Uchôa - Jornal O Dia

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