"œMandu Ladino é a antecipação do Cangaço em mais de 200 anos", diz pesquisador

Mandu Ladino foi um indígena, que viveu no Piauí, entre os séculos XVII e XVIII, o guerreio lutou contra a colonização branca e portuguesa no Estado.

19/04/2021 08:15h - Atualizado em 19/04/2021 08:47h

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O índio Mandu Ladino é uma figura de extrema importância na história do Piauí. Ele foi um guerreiro do século XVII que liderou uma luta contra os portugueses que chegavam para colonizar o Estado. A história de Mandu já foi contada em dois livros: “Mandu Ladino: Romance”, escrito pelo médico Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco (2006), e o segundo é uma história em quadrinhos idealizada pelos professores Cineas Santos e Wilson Seraine, onde o volume 3 é intitulado “Mandu Ladino em quadrinhos” (2019), escrito pelo médico cardiologista Leandro Fernandes e ilustrado por Narciso, que busca resgatar a história do herói indígena.


 Mandu Ladino em quadrinhos. Foto: Leandro Fernandes

“O trabalho sobre Mandu Ladino em quadrinhos foi uma tentativa de trazer, de modo simples, os aspectos mais importantes da saga do nosso índio mais famoso, e que representa para o índio o que Zumbi representa para o negro. Mandu é uma antecipação do Cangaço de Lampião em mais de 200 anos”, afirma o médico cardiologista e pesquisador do cangaço, Leandro Fernandes.


Pesquisador e médico cardiologista Leandro Fernandes e o ilustrador Narciso. Foto: Arquivo Pessoal

Para escrever a obra, que inclusive ganhou o prêmio “Maria Clara Machado”da União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, em 2020, o pesquisador conta que teve como inspiração o livro de Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, que conheceu há cerca de 20 anos. “O livro, embora romanceado, tem toda uma base histórica como pano de fundo. É um trabalho maravilhoso e despertou meu interesse sobre esse personagem”, explica.

Livro faz resgate histórico através de romance

“Mandu Ladino, cujo sobrenome significa esperto, foi criado numa aldeia missionária de padres capuchinhos, provavelmente na Paraíba ou Pernambuco. Naquela época, os colonizadores causavam terror às tribos. Os homens eram mortos, as mulheres aprisionadas para serem escravas, inclusive sexuais, e as crianças eram retiradas das aldeias e levadas para as missões católicas”, diz um trecho do livro Mandu Ladino, de Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco. 

O interesse do médico pela história do índio surgiu ainda na sua infância, quando, na escola, lhe apresentaram o guerreiro como um assassino de brancos. Anos depois, Anfrísio Neto resolveu investigar informações sobre a história real do índio guerreiro. Foram sete anos de pesquisas entre 1999 e 2006.


Médico e pesquisador Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco. Foto: Arquio Pessoal

“Mandu Ladino: Romance” é uma obra que mescla romance e resgate histórico, sendo que a publicação da 2ª edição do livro ocorreu em 2006. Na obra, o índio foi apresentado através de duas óticas: o homem branco olhando para o índio que o atacava, destruía as fazendas, os gados e colonos que chegam – que é a visão do índio assassino; e o outro lado da moeda é a visão do índio sobre o branco que chegava no Piauí e tomava a sua terra e ele se sentia na obrigação de defender seu povo, sua família e seu habitat.

“Os brancos não descobriram a América, pois já havia gente morando aqui, então o que houve foi uma invasão pelos europeus, eles fizeram uma carnificina, um assassinato em massa fosse com as armas ou com as doenças, pois os povos da América não tinham defesa para doenças europeias, então o sarampo, catapora, disenteria e a sífilis dizimaram os povos”, relata Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco.

O guerreiro indígena

Mandu Ladino era da aldeia dos Índios Abelhas - chamados assim porque conviviam harmonicamente com as abelhas teúbas, na bacia do Rio Longá. A aldeia de Mandu era composta por 46 índios e foi devastada pelo fazendeiro Bernardo Aguiar, português vindo de Lisboa para fazer fortuna no Brasil. Mandu e sua irmã mais velha, Aluhy, que eram filhos do cacique, foram os únicos sobreviventes do massacre.

“Aluhy não se conformou e, em poucos dias, fugiu da fazenda e voltou à aldeia, onde se deparou com a horrível cena dos cadáveres de todos os seus entes queridos. Enterrou-os um a um em uma mesma cova, foi recapturada e não mais ofereceu resistência. Seu mundo tinha desabado. Acabou afeiçoando-se ao filho mais novo do fazendeiro, Miguel, que também se afeiçoou a ela e, com ela, casou-se e teve uma filha”, conta Laurentino Reis, escritor e poeta.


Capa do livro Mandu Ladino em quadrinhos. Foto: Arquivo Pessoal

Já Mandu Ladino foi entregue a um padre de nome Lucé, que tinha uma missão na aldeia Boqueirão do Cariri, na Paraíba, e encontrava- se no Alto Longá na época. O padre lhe ensinou português, espanhol, a reza e os costumes dos brancos. Com a mudança de padre, Mandu e outros índios começaram a ser maltratados, houve uma revolta contra o sacerdote e Mandu Ladino e vários índios cariris fugiram da missão.

Ao chegar no Piauí, Mandu Ladino foi escravo da fazenda Alegrete e logo percebeu que a quantidade de bois estava aumentando e muitas aldeias estavam sendo destruídas. Foi quando começou a se comunicar com outros indígenas e travar uma luta contra os brancos fazendeiros. “A lenda de Mandu e a ação dos aranis se espalharam. Mandu, em vão, tentou convencer os aranis a abandonar a aldeia. Logo, os brancos vieram com sede de vingança. Em inferioridade numérica e militar, Mandu demonstrou o porquê da sua alcunha.Ora orientava os índios a matarem os cavalos enquanto os brancos dormiam; ora mandava as índias tirarem caixas de marimbondos para lançá-las sobre os brancos; ora armava ciladas em desfiladeiros sem saída”, descreve Laurentino Reis.

Mandu foi morto às margens do Rio Igaraçu, provavelmente em 1717, em Parnaíba, após grandes Batalhas contra o Governo do Maranhão e os portugueses.

Filme obre Mandu Ladino

O filme sobre o guerreiro Mandu Ladino, que deve ser produzido pelo ator e diretor Paulo Betti, pretende revelar um personagem piauiense que, entre os séculos XVII e XVIII, lutou contra a colonização branca que o transformou num índio manso, foi escravo de fazendeiros, tornou-se líder e morreu como guerreiro. Paulo Betti conheceu a história de Mandu Ladino após uma visita ao Piauí, na época, o Governador do Estado, Wellington Dias (PT), o presenteou com o livro piauiense “Mandu Ladino: Romance”. Desde então, o diretor se interessou em contar a história do indígena nas telas do cinema, mas até o momento, não conseguiu recursos para a produção do filme.


Mandu Ladino em quadrinhos. Foto: Arquivo Pessoal

Paulo Betti e a diretora Mariana Betti chegaram a visitar locações em Sete Cidades, Delta do Parnaíba e as Fazendas de Campo Maior na companhia do escritor Anfrísio Neto. “Em 2009, estive com Paulo Betti no Rio de Janeiro para uma entrevista e, em uma segunda visita, eu o acompanhei nos lugares onde o índio Mandu viveu, do Rio Poti até Parnaíba. Mas sobretudo nas margens do Rio Longá”, conta Anfrísio Neto.

Por fim, o escritor diz que, há um ano, Paulo Betti entrou em contato e afirmou que não desistiu de retratar a história de Mandu e que tem tentando arrecadar recursos para produção cinematográfica. 

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