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Notícias Especiais

16 de setembro de 2019

Família acolhedora: muito além de uma adoção temporária

Família acolhedora: muito além de uma adoção temporária

Participante do programa Família Acolhedora compartilha experiências, desafios e perspectivas

Quando Lidiane Magalhães, de 44 anos, passou a frequentar a Casa do Reencontro, seguindo um programa pessoal intitulado “Amparo”, adotar uma criança ainda não estava nos planos. Segundo a missionária, que chegou ao Piauí em 2017, um dos principais fatores que a moveu foi a curiosidade. “Conheci esses programas de voluntariado em uma capacitação que fiz em Curitiba. Fiquei curiosa para conhecer mais”.

“Não estava nos planos eu participar efetivamente dos programas, e sim dar alguma ajuda e apoio". Alguns meses atrás, essa ideia acabou por se solidificar em uma necessidade de engajamento mais profundo. “Me encantei... e aqui estamos!”. Do apadrinhamento de oito crianças na Casa do Reencontro, Lidiane chegou ao acolhimento de duas delas, por meio do programa Família Acolhedora

Lidiane e o marido estão cuidando de duas meninas há mais de um ano - Foto: Sescapi

As duas meninas, de 9 e 4 anos, estão com ela desde maio deste ano. A família, formada também pelo esposo e pelas filhas de Lidiane, comemorou a Páscoa toda junta.

O Família Acolhedora é um serviço da Prefeitura de Teresina, oferecido por meio da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi), e trata-se de uma ação de acolhimento temporário que pode se tornar permanente. 

A pessoa adotada, que pode ter de 13 a 18 anos, é transferida a uma família cadastrada que, durante a estadia, é acompanhada por uma equipe técnica. Enquanto isso, os responsáveis de origem passam por uma série de ações socioassistenciais, realizada por uma equipe formada por assistentes sociais e psicólogos, com o objetivo de promover a reintegração adequada da criança acolhida, que realiza visitas ocasionais durante o atendimento. Por motivos de segurança, a família acolhedora tem seu anonimato garantido.

A acolhedora ressalta com frequência como o trabalho vem sendo uma experiência marcante e transformadora. “Tem sido um crescimento pessoal estar envolvida nesse projeto. Às vezes, a gente fica no nosso mundinho, na zona de conforto, e não vê o que tem acontecido fora. Coisas que a gente pensa que está muito longe, estão na casa da gente”. Lidiane espera que as meninas se sintam bem tratadas e diz que pretende continuar agindo por meio da adoção temporária articulada pelo Família Acolhedora. "Já tenho alguma experiência mas a gente sabe que cada caso é um caso."

Princípios do programa

O Família Acolhedora tem como princípio a importância de se oferecer uma segunda chance, de uma nova família temporária para as crianças que vivem em situações de abuso ou negligência no meio familiar de origem. Os menores são temporariamente removidos do ambiente impossibilitado e passam a ser acolhidas por outra família. Durante a estadia, tanto a criança quanto a família de origem passam por um processo de reabilitação, para que no final possam se reunir e restaurar os laços. Lidiane vem lidando com a partida das meninas, que é uma possibilidade futura. “O que conforta o meu coração é ter contribuído na vida dessas crianças. Tenho a esperança que vão estar em um lugar bom, onde possam ser felizes”.

A acolhedora espera que sua história incentive outras pessoas a se engajarem, mesmo que dentro de suas limitações. "Se você não tem a coragem ou os meios, apoie e auxilie quem tem. Financeiramente, não tenho uma super estrutura, mas o pouco que tenho a gente divide e contribui. Tem coisas que talvez eu, como acolhedora, não possa dar, mas alguém tem sobrando e pode. Também evite criticar. Tem gente que diz: ‘ah, você é doida, está correndo risco’. Não fazer esse tipo de coisa, não tentar desestimular e sim, dar apoio também é importante. Às vezes, a própria família julga a gente. Essas crianças não são coisa de outro mundo, não são marginais e temos que incentivá-las e ser e fazer a diferença”, destaca.

Como participar?

Entre os principais critérios estão: residir em Teresina, ser maior de idade (com 21 anos ou mais), ter disponibilidade afetiva para cuidar de crianças ou adolescentes, não apresentar problemas psiquiátricos, não ser dependente de substâncias psicoativas e não responder a processo judicial. Os interessados podem entrar em contato pelo 3131-4751 e agendar uma entrevista. A sede fica no térreo da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) — localizada na Rua Álvaro Mendes, 861, Centro.

“O Família Acolhedora é um programa importante na medida em que fortalece a política de proteção à criança e ao adolescente em Teresina. A criança contemplada pelo projeto não fica limitada ao atendimento institucional e se mantém vivo um convívio familiar, um vínculo solidário. É uma grande e bela missão", destaca o secretário de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas, Samuel Silveira.

A Casa do Reencontro, unidade citada no texto como ponto de partida de Lidiane, está aberta a voluntários e padrinhos e fica na Rua Prof. Odilo Ramos, 1379-1555, no bairro Morada do Sol. O local abriga crianças de 0 a 12 anos incompletos, que tiveram a integridade física e afetiva comprometidas devido à violação de direitos. Os encaminhamentos para a Casa Reencontro são realizados por meio do Conselho Tutelar.

06 de setembro de 2019

Idosos comemoram independência na forma de viver a vida

Idosos comemoram independência na forma de viver a vida

Especial Centenários: especialistas afirmam que a longevidade está associada à melhoria dos fatores socioeconômicos.

No próximo dia 14 de setembro, Maria Ferreira Borges chegará aos 90 anos. Para comemorar a data, parte da família, composta de nove filhos, 54 netos, 61 bisnetos e nove tataranetos, organiza uma grande festa. A data contará com tudo que a história nonagenária tem direito, inclusive, um ensaio fotográfico feito previamente para servir de destaque no evento. Entre poses e sorrisos, Maria conta a satisfação de chegar na casa dos 90 como sempre levou a vida: cercada de gente, ativa e feliz.


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“Sempre trabalhei muito e até hoje não fico parada sem fazer nada. Eu faço uns tapetes de tira de pano, bordo, vendo e muitos dou para as minhas filhas. Não posso é ficar parada porque se eu ficar parada, eu adoeço. Estou nesta idade, mas eu conto as vezes que estive internada: nenhuma. Sou muito feliz por chegar aos 90 anos assim, muito bem”, considera.


Maria Ferreira Borges comemorará 90 anos no próximo dia 14 - Foto: Jailson Soares/O Dia

Tão bem que ela se tornou referência para a família. O que dona Maria diz é acatado e muito bem escutado, além do jeito despojado e contagiante ser espelho até para os mais novos e agregados membros da grande família Ferreira. “Tenho anotado o número de membros da minha família porque nem todos moram aqui e é muita gente. Hoje, até os amigos dos meus netos me chamam de vó, então, eu não tenho o que reclamar, sou cercada de gente que, ao que parece, me quer muito bem”, ressalta.

A vitalidade e independência são marcas fortes da senhora, que diz não ter segredo para levar a vida. Para Maria, o cuidado com a manutenção da mente ativa e uma alimentação balanceada apontam que os 90 anos serão parte de uma história que ainda tem muito o que experienciar.

Longevidade está ligada à melhoria de fatores socioeconômicos, destaca geriatra

A adoção de uma alimentação balanceada e cuidados com a saúde são pilares essenciais para o envelhecimento da população, como destaca o médico geriatra Wesley Damásio. Mas não só isso. O especialista  também destaca que o envelhecimento da população tem a ver com as condições de vida em que os indivíduos estão inseridos. Isso quer dizer que quão melhor for o cenário de acesso a serviços básicos, por exemplo, mais as pessoas podem alcançar a longevidade.

O médico chega a comparar a expectativa de vida entre os estados mais e menos desenvolvidos no país. “Nós temos um problema social que precisa ser encarado. Por que em Santa Catarina as pessoas vivem, em média, 79 anos e, no Piauí, apenas 71, enquanto a média do Brasil é de 76 anos? É porque onde tem saneamento, acesso à saúde, serviços básicos, a população envelhece mais e melhor”, explica.


"Onde tem saneamento, acesso à saúde e serviços básicos a população envelhece mais e melhor"


Para o médico, investir em escolaridade, vacinação e saneamento básico são aspectos tão importantes quanto cobrar e insistir em uma alimentação balanceada para os idosos. 

Wesley Damásio destaca que, enquanto na Capital do Piauí seus atendimentos acontecem para um público maior que 60 anos, no interior do Estado, ele diminui a média para 50 anos. “Em cidades menores, onde a infraestrutura e a escolaridade são reduzidas, temos que informar mais e melhor para que as pessoas consigam envelhecer com qualidade”, explica.

Assim, são as escolhas individuais, mas também a oferta do cenário de desenvolvimento social e econômico que continuarão a contar para a longevidade da população. 

Mãos que plantam e colhem

Natural de Campo Maior, município ao Norte do Estado, José Serapião de Sousa Filho, 90 anos, é um dos moradores mais antigos do bairro Boa Esperança, que integra a região do Poti Velho, zona Norte de Teresina e de onde a cidade se iniciou. Ele mora no local há mais de 50 anos e viu muitas mudanças acontecerem em seu entorno. Viu também sua perspectiva de vida melhorar.

E das terras onde ergueu sua casa e criou sua família, José Serapião sempre tirou o alimento que ia para sua mesa. Nos anos 50, o local era rodeado de fazendas e ele era responsável pelas vacarias. Foi na região onde o senhor casou com Vitória Cardoso de Melo (hoje com 67) e da união, que já dura 41 anos, nasceram seis filhos. Hoje, a família está maior, com 11 netos e cinco bisnetos. Todos morando ali, uns perto dos outros.


José Serapião de Sousa Filho, hoje com 90 anos, viu sua perspectiva de vida melhorar com o tempo - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Na vila, essencialmente formada por pescadores, pequenos agricultores e comerciantes, ele plantava e criava tudo que era essencial para sobrevivência. A esposa de José Serapião, Vitória Cardoso, lembra que, assim que se mudou para o bairro, não haviam tantos moradores como hoje. 

“Criamos nossa minha família aqui, criando animais, como galinhas, porcos, perus, pato e plantando. Hoje temos feijão, quiabo, abóbora, melancia tudo no quintal, então é só chover que a gente planta. O que compramos no mercado é o que não produzimos, como o arroz, mas o que consumimos vem das nossas terras”, fala em tom de auto gratulação.

Para Serapião, ter cuidado de si e da família de uma forma tão próxima é, também, uma forma de impulsionar a vida. Aos 90 anos, o apego pela terra, pela família e pela vida só cresce.

05 de setembro de 2019

Especial Centenários: qualidade de vida a serviço de todos

Especial Centenários: qualidade de vida a serviço de todos

Idosos, e o público nas demais faixas etárias, têm à disposição, em Teresina, 79 academias ao ar livre, favorecendo a prática de exercícios físicos

Nem todo mundo tem condições financeiras de pagar as mensalidades das academias, então, para se manter ativo, é preciso buscar alternativas mais viáveis. Uma delas é a academia popular. Ao todo, são 79 espalhadas em diversos pontos da cidade, como praças e parques, e que são utilizadas por pessoas de todas as idades.

As academias ao ar livre têm como finalidade estimular a prática regular e contínua de atividades físicas, melhorando a flexibilidade e alongamento muscular. E para que o público consiga obter bons resultados, algumas contam com a orientação de profissionais de Educação Física.

Naiara Dias, coordenadora da UBS Cidade Verde, localizada no Centro de Teresina, conta que, se utilizados corretamente, os aparelhos representam um grande ganho para a saúde, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para o equilíbrio do corpo, especialmente para os idosos, que estão sujeitos a debilidades por conta da idade. 

“Nós sabemos que exercício físico traz muitos benefícios, principalmente depois de uma certa idade, quando os músculos vão ficando mais fracos, porém, se for ser feito de maneira correta, a qualidade de vida tende a melhorar”, pontua.


Os aparelhos representam um grande ganho para a saúde, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para o equilíbrio do corpo - Foto: Divulgação

Para Naiara, o levantamento da quantidade de idosos com 100 anos ou mais em Teresina é considerado positivo, pois mostra não somente que as pessoas estão vivendo mais e melhor, mas que a qualidade do serviço de saúde também tem melhorado.

“Se levarmos em consideração que existem diversos fatores que impedem a longevidade, como violência, sobrecarga de trabalho na cidade, acidentes e alimentação ruim, e que os idosos estão sujeitos a debilidades, então esses números de pessoas centenárias em Teresina são muito bons. No passado, viver muitos anos era algo que se almejava e agora que a qualidade de vida está melhorando, estamos conseguindo chegar nesta idade”, disse.

Mulheres procuram mais o serviço de saúde

Dos 231 idosos acompanhados pelas unidades básicas de saúde, sua grande maioria é de mulheres. Isso mostra que, apesar das campanhas para intensificar a importância de todos se cuidarem, os homens continuam sendo relutantes em buscar auxílio médico.

É o que enfatiza Naiara Dias, coordenadora da UBS Cidade Verde, ao pontuar que os pacientes do sexo masculino, em muitos casos, somente recorrem às unidades de saúde quando já estão com a doença instalada, enquanto as mulheres buscam ajuda médica como forma de prevenção.


"Foi-se o tempo em que os idosos eram deixados de lado e ficavam prostrados em uma cadeira. Mantê-los ativos faz com que eles vivam mais e melhor"


O princípio para manter os idosos cada vez mais ativos, e assim contribuir para a melhor qualidade de vida, está na manutenção de ações que estimulem tanto a parte física como mental. No Centro de Convivência Marli Sarney, que fica localizado próximo à UBS Cidade Verde, são realizados trabalhos essenciais para que os idosos se mantenham proativos, já que no local são ofertadas atividades lúdicas como dança, pintura, rodas de conversa, música, entre outras ações.

“Foi-se o tempo em que os idosos eram deixados de lado e ficavam prostrados em uma cadeira. Mantê-los ativos faz com que eles vivam mais e melhor, e isso só é possível quando a mente deles é exercitada. Eles têm capacidade para fazer qualquer coisa, como exercício físico, caminhada ou hidroginástica, desde que tenham acompanhamento, claro”, enfatiza.

Nas UBSs, por exemplo, constantemente são promovidas palestras voltadas para os idosos com temáticas direcionadas para a prática de atividade física, qualidade de vida e alimentação. O consumo de alimentos saudáveis também é fundamental para alcançar a longevidade e, nessa idade, essa atenção deve ser redobrada.

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Centenários mostram que o segredo da longevidade está em não ter segredo: vida ativa e alimentação saudável.

Um século de vida. O período temporal que parece longo para a vida humana vem sendo alcançado com maior frequência pela população em todo o Brasil. Em Teresina, Capital do Piauí, um levantamento feito pela Fundação Municipal de Saúde (FMS) revela que 231 idosos, cadastrados e acompanhados pelas equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), já alcançaram ou ultrapassaram a marca centenária. Inês dos Santos Nascimento, aos 101 anos, moradora da zona Norte de Teresina, é uma delas.

Do total de idosos acompanhados pelas equipes de saúde básica do município, 83 residem na zona Norte da cidade; 63 na zona Sul; 30 na região Sudeste; 27 na zona Leste e 28 na zona rural.

A Capital do Piauí, que recentemente completara 167 anos, parece uma menina aos olhos de Dona Inês, a matriarca de uma família de 18 filhos. “Quando cheguei aqui, era tudo mato, vi essa cidade crescer e cresci com ela. Não sei nem quantos netos já tenho espalhados por aí”, responde com uma voz firme antecipando uma de suas fortes características: a de mulher resiliente que se incumbiu à missão de criar toda família. Inês é chamada de “mãe” até pelos bisnetos.


Aos 101 anos, Inês dos Santos Nascimento vive rodeada dos filhos, netos e bisnetos Foto: Arquivo Pessoal

Para a família, o segredo da longevidade da centenária está na sua vida sempre ativa, na alimentação simples e na fé que nunca faltou mesmo nos dias difíceis. “Ela sempre gostou de andar muito. Lembro que íamos comprar carne em Timon (cidade vizinha a Teresina), todos andando a pé, toda semana”, destaca a neta Shirlene Sales.

Segundo pesquisa publicada este ano no Journal of Epidemiology & Community Health, alguns fatores como altura, peso e a prática de exercícios se mostram intimamente ligados à longevidade dos homens e mulheres. 

Neste quesito, foram separados pela quantidade de tempo que dedicavam à movimentação do corpo. Os resultados mostraram que os que se exercitavam por mais tempo tinham uma probabilidade 39% maior em chegar à idade de controle, que era de 90 anos.

Expectativa

Chegar ao marco de 100 anos, no Piauí, significa, literalmente, ultrapassar expectativas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dados referentes ao ano de 2017, o Estado possui a segunda pior expectativa de vida do Brasil, perdendo apenas para o Maranhão. No Brasil, segundo o IBGE, a expectativa de vida ao nascer, em 2019, é de 80 anos para mulheres e de 73 anos para homens.

A vida de dona Inês, que parou de caminhar há sete anos em virtude de uma fratura no fêmur, continua ativa em outros aspectos: nas conversas do cotidiano que troca com os familiares, na rotina religiosa que tem e na disponibilidade de contar tudo que viveu e vive, em detalhes.

“Gosto da minha família unida, de cuidar da casa e consagro minha vida ao sagrado coração de maria”, destaca.


Foto: Jailson Soares/O Dia

Boa alimentação e rede de afeto são chaves para uma vida longa

Vindo da cidade de Jaicós, região do Sul Piauí, para Teresina, ainda no ano de 1969, Raimundo Mendes de Carvalho, hoje com 103 anos, trabalhou em diversas atividades para o próprio sustento, da esposa e de seus 18 filhos. O centenário já foi mestre de obras, zelador e comerciante, sempre atuando no mercado informal. Trabalhos que exigiam muito esforço físico, mas que, dentro de suas convicções, “nunca foi problema”.

Hoje, Raimundo mora com um dos filhos, mas recebe diariamente a visita dos outros, inclusive ligações dos que moram em outros estados. Ele é o centro das atenções da família, que faz de tudo para acompanhar o bem-estar do anfitrião. Nas reuniões familiares, é fácil somar mais de 80 pessoas, afinal, além dos filhos entram na conta os 45 netos, 27 bisnetos e três tataranetos da linhagem Mendes de Carvalho.

Rita de Cassia de Carvalho, uma das filhas do idoso, conta que o motivo da longevidade do pai é a alimentação controlada e equilibrada que ele sempre teve ao longo da vida, sem produtos industrializados e “tudo direto da feira”.

“Meu pai não come alimentos industrializados, como embutidos, e isso sempre refletiu nos filhos, porque nós também não consumimos. Ele sempre comeu coisas saudáveis. No café da manhã, por exemplo, é uma fatia de mamão, depois uma caneca com caldo de carne, um copo com leite e três biscoitos. Esse caldo é feito pelo genro dele, que todos os dias nos manda. É o mais famoso na cidade, conhecido como um dos melhores de Teresina, justamente por não ter tanta gordura”, comenta.


Raimundo Mendes de Carvalho, de 103 anos, não come alimentos industrializados e nem muito gordurosos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

O almoço da família também não foge à regra. A refeição leva o gosto da comida caseira, com a presença constante de arroz, feijão, abóbora, maxixe, quiabo, ovos e carne branca. Nada de lasanhas, comidas gordurosas ou carne vermelha. Mas como bom nordestino, depois da refeição, não pode faltar a tradicional rapadura. As frutas também estão presentes ao longo do dia. Toda a dieta do idoso é feita por uma nutricionista e os filhos seguem à risca as orientações.

Por muitos anos, era o senhor Raimundo o responsável por ir à feira todos os dias comprar os alimentos que seriam consumidos no almoço. A família mora há mais de 50 anos próxima ao Mercado do Mafuá, um dos mais tradicionais da Capital, onde funciona uma feira onde praticamente todos os produtos vendidos vêm de hortas comunitárias e orgânicas.

A ida ao mercado também servia como caminhada, mas, após um acidente, as saídas se tornaram raras. Hoje, os alongamentos são feitos em casa mesmo. “Hoje eu faço pouca caminhada, só dentro de casa, mas eu gosto muito”, conta.

Há um mês, o idoso sofreu um derrame ocular e perdeu alguns movimentos e a visão ficou comprometida, além de algumas alterações nas taxas e mudanças de comportamento. “Meu pai não tomava nenhum medicamento, então, para a idade dele, a quantidade de medicamentos é até pouca, mas acho que tudo isso é graças ao cuidado que temos com ele, a preocupação e amor que desprendemos todos os dias”, conclui Rita de Cássia.

31 de agosto de 2019

Órgãos discutem protocolo de atendimento de saúde mental

Órgãos discutem protocolo de atendimento de saúde mental

Ministério Público Estadual do Piauí, em parceira com outros órgãos, está desenvolvendo ações voltadas para crianças, adultos, idosos e pessoa em situação de rua.

Debater saúde mental é responsabilidade da sociedade como um todo. Instituições públicas e privadas, assim como a família e a escola, devem se unir para combater os altos índices e buscar formas de trabalho visando a prevenção de transtornos mentais.

Segundo o promotor de Justiça, Eny Marcos, da 29ª Promotoria de Justiça de Teresina e que atua na defesa do direito à saúde na Capital, o Ministério Público Estadual do Piauí (MP-PI), em parceira com outros órgãos, está desenvolvendo ações voltadas para crianças, adultos, idosos e pessoa em situação de rua.

“Nós temos diuturnamente cobrado essa parte da gestão pública de saúde e, assim, a preocupação vai muito além do Ministério Público, e isso eu trago como uma novidade. Uma ação está sendo desenvolvida por diversas promotorias, que preocupadas com a grande incidência de casos de urgência, de crises de transtorno mentais, estabeleceu um grupo de trabalho tanto formado por promotores de Justiça como por técnicos da Secretaria Estadual de Saúde do Piauí (Sesapi) e Fundação Municipal de Saúde (FMS)”, explica o promotor.


Eny Marcos afirma que novas diretrizes serão divulgadas no início de setembro - Foto: Elias Fontinele/O Dia

O protocolo de saúde mental está sendo desenvolvido desde janeiro deste ano e os profissionais se reúnem mensalmente para planejar estratégias que melhorem o fluxo de atendimento de urgência de pessoas com transtorno mental.

“Agora no começo de setembro, a gente vai tornar público todos os fluxos, de forma bem didática, para que o cidadão, que é o principal interessado, possa ter conhecimento de quem acionar em caso de crise e os profissionais terão regras estabelecidas de como tratar esses pacientes”, informa Eny Marcos.

MP-PI e a rede de assistência 

Além do protocolo de saúde mental que está sendo desenvolvido pelo Ministério Público, o órgão está em constante fiscalização dos serviços prestados aos pacientes com transtornos mentais em Teresina. O MP-PI tem acompanhado a rede de saúde mental, que inclui Caps (Centro de Atenção Psicossocial), além das residências terapêuticas e o Hospital Areolino de Abreu.

“Temos trabalhado com parceiras e outras instituições que têm contribuído, fazendo inspeções e trazendo relatórios fundamentados de toda situação estrutural e de organização desses estabelecimentos”, conta o promotor Eny Marcos.

O promotor enfatiza que a procura por atendimento nessas unidades tem aumentado devido dois fatores: tanto pela disposição em procurar o serviço de saúde, quanto pela incidência maior de problemas de saúde mental na população. A ampliação da rede de assistência é outra causa que o promotor Eny Marcos busca solucionar para melhorar o atendimento na cidade.


Rede inclui parcerias com o Ministério Público, com os Centros de Atenção Psicossocial, além das residências terapêuticas e o Hospital Areolino de Abreu


“Essa cobrança é feita extrajudicialmente através dos nossos procedimentos administrativos com recomendações, Termos de Ajuste de Conduta ou de Ação Judicial referente ao aumento de Caps e de residências. Atualmente, nós temos uma ação tramitando no poder judiciário que determina ao poder público municipal a ampliação da rede de assistência como um todo”, expõe o promotor.

Desse modo, além de recursos estruturais, são necessários profissionais capacitados para atender a um paciente em crise, assim como realizar um tratamento que busque dar possibilidade dessa pessoa voltar às suas condições normais.

“A política de saúde mental vai muito além disso. Tanto que hoje a internação do paciente é em último caso, por isso a existência de Caps, inclusive com perfil de atendimento a pacientes usuários de substâncias entorpecentes, para que o tratamento seja feito de forma preventiva ou contínua através de profissionais de diversas técnicas. Com os Caps, além de consultas, medicamentos e atendimentos, também são disponibilizadas oficinas semanais para os pacientes, desenvolvendo, assim, uma atividade terapêutica para que ele possa ter consciência e oportunidade para reverter sua situação”, explana Eny Marcos.

De acordo com o promotor, além das atividades e cobranças, há outro fator importante na recuperação do paciente. “Diariamente, recebemos solicitações por parte das famílias para que o MP-PI intervenha na assistência. Agora, sempre quando atendemos individualmente as famílias, colocamos também o seu grande papel no engajamento, ou seja, não é só entregar o seu familiar a uma instituição para que ela tome de conta, eles também devem fazer sua parte”, conclui.

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Especialista orienta que aos primeiros sinais de ansiedade é preciso procurar ajuda, a partir de terapias e autoconhecimento.

“A ansiedade pode iniciar com sinais pequenos de preocupação com o futuro. A pessoa passa a ter palpitações, falta de ar, febre, até chegar ao nível de ficar impossibilitada de fazer atividades simples”. A descrição é da psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), Elizandra Pires, e reforça a importância de não se ignorar os sintomas da ansiedade. 

“A ansiedade é uma coisa natural do ser humano, mas, quando isso passa a atrapalhar sua vida, você tem que ficar em alerta, como por exemplo, se você fica preocupado com tudo, com medo e se isso lhe paralisa. Muitas vezes, as pessoas pensam que vai passar, ficam deixando para depois e, quando vai em busca de ajuda, já está com Transtorno Generalizado de Ansiedade”, explica. 

Elizandra destaca que o transtorno pode ser prevenido a partir de terapias e autoconhecimento, adotando um estilo de vida com mais qualidade, com práticas de lazer, esporte, educação e saúde. Ela comenta que os transtornos, como ansiedade e depressão, são desencadeados quando algumas áreas da vida passam por mudanças, afetando, assim, o psicológico do indivíduo.

“No mundo, o Brasil é o 1º país com casos de ansiedade, o 2º em estresse e o 5º em depressão. Nós somos recorde na América Latina, então o que está acontecendo? Quando a gente vai fazer essa análise é algo multifatorial, são as nossas questões socioeconômicas de moradia, de transporte, a vida nas cidades grandes, a forma como você se alimenta. É precisa ter o ócio, o momento de você não fazer nada”, indica a coordenadora do Caps AD.


Foto: Folhapress

Elizandra Pires explica ainda as principais diferenças entre a ansiedade e outros transtornos que acometem a população. Entenda:

Ansiedade X Depressão

“Quem tem transtorno de ansiedade está a um passo para a depressão, pois alguns sintomas coincidem. Só que a ansiedade é uma preocupação exagerada com o futuro, já a depressão é relacionada a perdas do passado não trabalhadas”, explica Elizandra Pires, destacando que a depressão é a doença mais incapacitante, pois deixa a pessoa menos produtiva. 

A psicóloga também cita os sintomas em comum. “Com ansiedade, a pessoa tem dificuldade de concentração, assim como na depressão. Você se sente paralisada, não consegue fazer as coisas porque tem medo, só que a depressão ela vem associada da sintomatologia da ansiedade, como a apatia, tristeza constante, choro fácil e desinteresse pelas coisas”, explica.

Girassol, por exemplo, descobriu que tinha ansiedade ainda no Ensino Médio e, sem os cuidados necessários, suas crises pioraram e passaram a ser mais intensas. Segundo ela, o início da depressão ocorreu justamente por não entender que sofria com ansiedade.

“Procurei ajuda, fui em uma terapia para entender o que estava acontecendo, mas eu negligenciei. Fui em uma sessão e não fui mais e passei a conviver com isso, mas sempre percebia algo, mas não dava importância à ansiedade. No meio do curso, comecei a perceber que tive de novo crise de ansiedade, entendi que era porque eu estava querendo voltar a morar com meus pais. E voltei”, conta.

Ansiedade x Síndrome de Burnout

Trabalhar além do limite, não ter vontade de fazer as atividades, se sentir desmotivado e desvalorizado são algumas das características da Síndrome de Burnout, que pode ser desencadeada com mais facilidade em pessoas já ansiosas, como explica a psicóloga Elizandra Pires.

“Se uma pessoa tinha meta de atender 100 clientes em um ou dois dias e começa a diminuir essa produção, então ela começa a ficar com medo. Percebe-se que era uma pessoa que tinha boa relação interpessoal e intrapessoal, mas, do nada, seu rendimento começa a cair”, cita.

Nesses casos, a especialista alerta que as empresas devem estar atentas. É preciso observar os sinais que os funcionários repassam por meio de seus coordenadores e, assim, buscar alternativas para contornar essas crises e criar mecanismos para manter seu colaborador ativo. Algumas empresas estão criando o Núcleo de Saúde do Trabalhador, onde são trabalhadas ações preventivas, como ginástica laboral, meditação, atendimento médico e psicológico.


Nesses casos, a especialista alerta que as empresas devem estar atentas. É preciso observar os sinais que os funcionários repassam por meio de seus coordenadores e, assim, buscar alternativas para contornar essas crises


“Têm várias empresas que trabalham a qualidade de vida e saúde do trabalhador. Antes de a produção cair, o funcionário dá alguns sinais, como falar que não está bem ou diminui a interação com os colegas. É assim que a ansiedade evolui, juntando à ansiedade, o estresse e outras sintomatologias. Quando a pessoa desenvolve o Burnout, já é algo extremo, que ela não consegue mais fazer nada, começa a chorar, ficar nervosa, se tremer, se achar incapaz, que não consegue mais e começa a ter sintomatologias físicas, como dor de cabeça, dor de estômago e dificuldade para dormir. A insônia é bem característica de quem tem ansiedade, depressão e Burnout”, ressalta a Elizandra.

Margarida, de 26 anos, faz parte do grupo de risco do Burnout. “A pressão do dia a dia conta muito. Tenho diagnóstico do transtorno de ansiedade e já faço acompanhamento desde a morte da minha mãe, em 2011. Na minha área de atuação você depende muito dos outros e se eles não te dão retorno, conta muito para o psicológico. É como se você estivesse deixando de fazer o seu trabalho e é complicado. Essa pressão para produzir não é legal”, pontua.

Elizandra Pires adverte ainda que qualquer pessoa precisa fazer terapia. “Todo mundo tem questões existenciais e comportamentais que precisam ser trabalhadas, afinal, ninguém vem ao mundo com manual de instrução. Os pais procuram dar o melhor, mas a gente nem sempre acerta e você vai criando questões emocionais, um padrão de comportamento que a sociedade não aceita no trabalho e a tendência é contrair problemas, então quando isso é trabalhado antes de desenvolver o transtorno, é melhor”, completa.

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Apesar dos cenários diversos, psicóloga destaca que não se deve culpabilizar as famílias, porque cada uma tem o seu papel.

As cobranças para ser um bom aluno, o melhor da escola, o mais inteligente, iniciam na infância e muitas vezes os pais não sabem o peso que essas exigências acarretarão na vida adulta de seu filho. A psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas de Teresina (Caps AD), Elizandra Pires, comenta que essas cobranças se intensificam na época do vestibular, quando se exige que o jovem decida sua carreira ainda na adolescência, e se estendem em outras áreas da vida, como pessoal, afetiva e familiar.

“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas. Apesar disso, não se deve trabalhar com a perspectiva de culpabilizar as famílias, porque cada família tem o seu papel”, pontua.


“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas". - Elizandra Pires


A autoexigência de Girassol, por exemplo, teve início ainda na infância, que sempre esteve em busca da perfeição. “Para mim, a autocobrança pesa e, querendo ou não, eu venho de uma família que se cobra muito e são muito perfeccionistas, que não se envolvem, fazem tudo certo e não se permitem errar, mesmo sabendo que a gente tem a condição de errar”, explica.

De acordo com a psicóloga, essa cobrança assusta os jovens, que tendem a não conseguir alcançar o que lhe é imposto, tornando-se adultos frustrados. “Eu acho que a nossa sociedade cobra muito para que você reproduza determinada atitude. Se você perguntar a um menino o que ele quer ser quando crescer e ele disser ‘vendedor’, pode ser que a família diga que ele não precise mais estudar. A tendência da família é dizer que está investindo na criança para que ela seja médica, advogada ou engenheira”, ilustra Elizandra Pires.


Elizandra Pires destaca que a família repassa os valores para a criança ainda em crescimento pessoal - Foto: Assis Fernandes/O Dia

A especialista frisa que a família deve ter ciência de que é o primeiro grupo de contato da criança, no qual são repassados os valores para este ser que ainda está em crescimento pessoal. “A gente tem que pensar que um ser humano saudável e feliz é aquele que faz o que gosta, gente que produz e tem sucesso em qualquer profissão, desde que seja algo que ele goste. A família pode proteger para não desenvolver esses fatores, assim como pode ser um fator de risco para desenvolver esses transtornos”, aponta.

As imposições sociais e seus reflexos

“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela? É a mesma coisa que dizer ‘você tem que ser médica’ e se a pessoa não conseguir ser médica, como vai ficar a vida desse adulto? Como que ele vai se relacionar?”. É com este exemplo que a psicóloga Elizandra Pires demonstra que as imposições feitas ainda na infância podem se refletir na vida adulta.


“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela?


Mas também, fora dessa fase também ocorrem outras imposições que impactam negativamente a vida das pessoas: as imposições sociais. Íris, de 29 anos, é um exemplo. “Eu não me acho boa suficiente para ter pessoas ao meu lado e acho que não vou ter filhos, não porque eu não queira, mais porque acho que nunca vou encontrar alguém. Isso é algo que tenho trabalhado na terapia, que eu preciso me amar para amar outra pessoa; que eu não preciso de ninguém para ser alguém. Só que a sociedade impõe isso, esse negócio das tias perguntarem ‘você já casou?’, da sociedade perguntar a uma mulher de 30 anos porque ainda está solteira, esse tipo de coisa faz você ficar mal. Vejo meus irmãos casando, meus amigos tendo filhos, então praticamente todo dia eu tenho uma ‘bad’, porque eu fico me perguntando se isso não vai chegar pra mim”, conta.

Outro fator perigoso é ser ambicioso demais, o que move o ser humano é sempre querer crescer, ter algo melhor, mas isso pode ser doentio. “A gente vive sempre em falta, quando o sonho é comprar uma casa e consegue comprar, ainda continua insatisfeito e pensa ‘agora quero comprar o carro top’ e se você não consegue, aí vêm os sintomas de ansiedade e depressão. Aí você trabalha, consegue o carro dos sonhos, mas mesmo assim quer mais”, reflete Elizandra Pires.

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No mundo, o Brasil é o 1º país com mais casos de ansiedade, o 2º em estresse e o 5º em depressão. Mas todos estes transtornos podem ser prevenidos a partir de terapias e autoconhecimento.

Com 18,6 milhões de brasileiros, ou seja, 9,3% da população vivendo com ansiedade, o Brasil lidera o ranking mundial de casos da doença. A depressão também acomete milhões de brasileiros e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o país ocupa o 5º lugar no ranking mundial de casos dessa doença. Os números reforçam a importância de se discutir os temas e aproveitando o início da campanha Setembro Amarelo, que se volta para o bem-estar e para a saúde mental da população no intuito de prevenir o suicídio, o Jornal O DIA traz esta reportagem especial, cujas publicações também vão se estender ao longo do mês, sempre marcadas pelo símbolo da campanha: o laço amarelo. 

Para representar as personagens que preferiram manter suas identidades preservadas, foram usados nomes de flores, como Íris, de 29 anos. Íris é estudante, trabalha, é prestativa, brincalhona, faz todos ao seu redor sorrir e, aparentemente, não tem nenhum problema. Mas poucos sabem o que realmente acontece em sua vida. “Não sei se é ansiedade. A terapeuta disse que é princípio de depressão. Começou com algo pessoal que aconteceu há um ano. Eu fiquei arrasada e mexeu muito com meu psicológico. Eu nunca tive autoestima elevada, sempre achei que não era uma boa funcionária, uma boa filha, uma boa amiga, que não era boa em nada”, conta.

Segundo Íris, a baixa autoestima faz com que ela não consiga realizar atividades profissionais que tem capacidade. “Principalmente quando eu sou colocada para fazer algo que não tenho costume de fazer. Sempre me dá taquicardia, suo frio, minha cabeça ficava a mil, me cobro, fico aflita, nervosa. Todo dia é um desafio para eu me superar enquanto pessoa, tentando ser melhor. Se hoje eu penso que fui péssima, amanhã, ao invés de me superar, eu fico internalizando isso, que depois de amanhã vai ser pior do que foi hoje. Como se eu não fosse boa, sabe?”, explica Íris.

Já Margarida, de 26 anos, relata que seu transtorno de ansiedade começou na época em que fazia mestrado. “Com a questão da pressão por produção para colocar no currículo, acabei desenvolvendo o transtorno, pois o programa depende da sua produção para ser bem avaliado e isso pesa muito na hora de você levar aquilo adiante. Quando o mestrado encerrou, eu tirei uma tonelada das costas e depois veio a questão do trabalho. Parece que dobraram a quantidade de coisas que eu fazia”, expõe. 

A jovem conta que, ao sair da rotina, nada mais entra no eixo durante o dia. “Para quem tem transtorno de ansiedade é como se a gente vivesse em uma linha reta, qualquer coisa que saia dessa linha te deixa doida. Situações que são atípicas são horríveis para mim. Eu tenho minhas coisas para fazer e, quando algo me tira daquele planejamento, acaba comigo, emocionalmente e psicologicamente, e se manifesta com mais força com calafrio, palpitação, tremedeira, suor, a pressão baixa, sensação que o peito está apertando. É uma sensação de apreensão com o desconhecido”, cita.


Foto: 123RF

Ansiedade: a distorção da realidade

Bromélia, de 29 anos, se recorda de ouvir as pessoas comentando sobre transtorno de ansiedade, mas nunca tinha conseguido entender bem o que era a doença. Em 2016, quando ingressou na universidade, se deparou com casos mais severos, de suicídio de alunos e, por conta do cenário, passou a participar debates sobre saúde mental. 

“Nesse período, eu procurei um psicólogo. Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade. Cheguei a frequentar algumas sessões, mas deixei de ir. Em 2017, estava passando por problemas pessoais graves e acumulou com a universidade e eu dei um surto. Me isolei de todo mundo, comecei a ter alguns sintomas preocupantes”, comenta.

Bromélia fala que o pensamento acelerado é seu principal obstáculo na luta contra a ansiedade e a faz criar cenários distorcidos. “Em determinadas situações, é como se fosse um véu, um filtro, que destorce a realidade. Pequenas coisas, que não têm significado se eu tivesse bem, criam uma proporção gigantesca. Eu começo a distorcer, acho que as pessoas estão contra mim, que eu não sou suficiente, que não dou conta daquilo, e começo a pensar muito rápido sobre isso, não consigo controlar meus pensamentos. Dependendo da situação, começo a sentir falta de ar, o coração começa a bater acelerado e tenho palpitações”, revela.


Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade" - Bromélia


A ansiedade também afeta Girassol, de 23 anos. Ela sente os sintomas desde os 16. “Eu percebi que tinha problema de ansiedade ainda no Ensino Médio, devido ao vestibular. Entrei cedo na universidade, ainda estava cursando o primeiro semestre do terceiro ano, com apenas 16 anos. Então, percebi que estava me limitando a fazer certas atividades, estava com dificuldade de escutar coisas simples, fazer uma resenha, um resumo do colégio, eu não conseguia me concentrar e fui me isolando”, diz.

Girassol revela que, quando está em crise, não consegue desenvolver atividades simples. “Tem gente que pode acreditar que estou procrastinando, mas quando você sabe executar uma atividade e a ansiedade não deixa, você perde o controle, não consegue se concentrar, iniciar ou terminar algo. Quando percebo já estou em crise”, detalha.

Taquicardia, falta de apetite, insônia

Nenúfar tem 28 anos e, ao passar por problemas em um relacionamento amoroso, começou a perceber alguns sinais de que precisava de ajuda. “A primeira vez que percebi que havia algo errado eu estava passando por um período conturbado. Estava escrevendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e estava passando por problemas no relacionamento. Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência. Tudo isso acompanhado de um sentimento ruim, uma aflição que não tinha fim, que não passava e não dá para explicar de onde vem”, descreve.


Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência.


Os sintomas do transtorno também afetam Amarílis, professora voluntária, atriz, criadora de vídeos de cordel e humor, estudante de administração, filha única adotada e amante da causa animal. “Tudo me afeta. Quando alguém me olha torto, meu mundo desaba. Coisas pequenas mesmo, que não era para a gente ligar, mas, por conta de estar abalada, acaba afetando. Uma crítica, um problema familiar, pensando mil coisas que não existem. Por exemplo, eu namoro e do nada penso que ele está me traindo. Eu monto um começo, meio e fim e tudo é algo trágico. É isso que é a ansiedade e depressão”, pontua.

Jasmim, de 23 anos, também revela que os sintomas físicos da ansiedade e depressão foram muito fortes e causaram grande impacto em sua vida. “Quando se está em crise, você pensa que não vai conseguir fazer nada, que não tem jeito, sente o coração acelerado, as mãos geladas, soam muito, sente muita dor no corpo, febre sem explicação, você só consegue chorar, por tudo. Como a crise foi muito forte, eu comecei a sentir parte do meu rosto com sensação de dormência”, lembra a jovem que também se percebeu doente na fase final de concluir seu curso superior, em meio a desafios pessoais e profissionais.

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30 de agosto de 2019

Especialistas alertam: hábito de fumar prejudica saúde bucal

Especialistas alertam: hábito de fumar prejudica saúde bucal

Diagnósticos vão de mau hálito, a caries, perdas dentárias até câncer de boca. Secretaria de Estado da Saúde implementou o Programa de Controle do Tabagismo.

Para quem faz do fumo um hábito, as chances de ficar doente são ampliadas. Isto porque, através das substâncias presentes no cigarro, o usuário absorve substâncias tóxicas à saúde, capazes de levar à morte. Na saúde bucal não é diferente. Há uma grande chance em desenvolver um mau hálito, doença periodontal, cárie, perdas dentárias e até câncer de boca por conta do uso contínuo de cigarro.


O dentista César Gustavo, do Conselho Regional de Odontologia do Piauí (CRO-PI) , diz que os agravos trazidos pelo uso do cigarro podem acontecer em qualquer faixa etária. “As substâncias do cigarro atingem os tecidos de sustentação dos dentes por conta da nocividade da nicotina. O aumento da temperatura da boca devido ao uso do cigarro também contribui para acumular placa e tártaro. Então, desde novos, pacientes jovens, mas fumantes, apresentam indícios da formação de alguma patologia, que pode ser mancha, mau hálito ou até doenças mais graves”, explica.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

Outro sinal bastante conhecido do hábito de fumar são os dentes amarelados. Isso acontece porque o cigarro apresenta componentes, como nicotina, alcatrão e amônia, que acabam ficando impregnados na superfície dentária.

Toda vez que o fumante inala a fumaça do cigarro aceso, ela passa por toda a sua boca e deixa resquícios desses componentes nos dentes. Com o passar do tempo, o acúmulo desses resíduos forma manchas — inclusive, quem fuma há muitos anos corre o risco de adquirir manchas impossíveis de remover.

“A gente sabe que o cigarro é extremamente prejudicial e as pessoas acabam negligenciando o cuidado com a boca. O mau hálito, por exemplo, vem por conta da fumaça ressecar a boca e inibir a produção de saliva. Isso acaba deixando que permaneçam substâncias que a gente consome na boca que, depois, exalarão o mau odor”, explica o dentista.

Outros tipos de diagnósticos comuns são as doenças periodontais, como a gengivite e a periodontite, inflamações decorrentes do acúmulo de bactérias. A questão é que como o cigarro tende a causar uma vasoconstrição sistêmica, a gengiva não sangra muito e a pessoa não percebe que algo está errado.

Outras possíveis ocorrências são inchaço e retração da gengiva, amolecimento dos dentes e perda óssea. Por tudo isso, não é difícil encontrar fumantes que já tenham perdido alguns dos seus dentes e tiverem que fazer implantes.

Normalmente, o tabagismo é uma porta de entrada para diversas doenças que afetam a saúde de modo geral. Existe ainda o risco do câncer de boca, que está estampado nas embalagens de cigarro como alerta para a população.

Além da boca, o uso de cigarro também atinge pulmões, garganta e nariz. Por isso, o dentista César Gustavo, lembra que a melhor prevenção para a saúde é a suspensão do uso do hábito de fumar.


Foto: O Dia

Piauí reduz em 70% o número de fumantes

O estado do Piauí reduziu em 70% o número de adultos fumantes em nove anos. Para diminuir ainda mais esse quantitativo, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi) lança a campanha “Tabaco e Saúde Pulmonar”. O objetivo é alertar a população sobre o uso do tabaco como fator de risco para várias doenças, como explica a coordenadora de Saúde do Adulto e Idoso da Sesapi, Valdite Leão.

“O fumo é um desencadeador de várias doenças, mas principalmente de câncer de pulmão, traqueia e brônquios. O tabaco fumado em qualquer uma de suas formas é responsável por 90% de doenças pulmonares. E alertar sobre esses riscos à saúde é uma das estratégias da nossa campanha”, destaca Leão.

Em 2009, a Secretaria de Estado da Saúde implementou o Programa de Controle do Tabagismo, que vem avançando significativamente. Neste ano, já são 190 municípios piauienses que oferecem o tratamento em 912 postos de saúde, o que colaborou para a queda do número de fumantes.

“Quando começamos os trabalhos em 2009, o Piauí tinha 18,9% de sua população adulta fumante e, no ano passado, esses números reduziram para 5,5%”, ressalta a coordenadora.

Além de alertar sobre os riscos para a saúde, a iniciativa quer chamar a atenção para os serviços disponibilizados, que ajudam no tratamento de quem quer parar de fumar. “Estamos fazendo capacitações nas onze regionais de saúde. Nossa meta para 2020 é que os 224 municípios piauienses possam oferecer esse serviço, para que esses números caiam ainda mais”, afirmou Valdite Costa.

Para os que desejam parar de fumar, a Secretaria de Estado da Saúde orienta que procure o posto de saúde mais próximo de sua casa, onde será atendido por uma equipe multidisciplinar e contará ainda com medicamentos gratuitos à sua disposição. Outras informações podem ser consultadas na Coordenação de Controle ao Tabagismo da Sesapi, ou por meio do Disque Saúde 136.

27 de agosto de 2019

Pacientes esperam até 15 meses para tratar câncer de próstata

Pacientes esperam até 15 meses para tratar câncer de próstata

O período infringe a Lei dos 60 Dias, que determina que o paciente tem direito de iniciar o tratamento da doença em até 60 dias depois do diagnóstico

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, a pedido da Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, revela que o intervalo médio identificado entre os primeiros sinais da doença, o diagnóstico e o começo do tratamento do câncer de próstata no Brasil, foi de 15 meses.

O período, que ultrapassa um ano, também infringe a Lei dos 60 Dias, que determina que o paciente oncológico tem direito de iniciar o tratamento da doença em até 60 dias depois de “firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica”.


“Estudos revelam que 20% dos pacientes demoram 60 dias entre a queixa e a feitura do diagnóstico clínico, outros 20% demoram entre o diagnóstico e a realização da biopsia, mais 20% entre a biopsia e o tratamento"


Todavia, na perspectiva do oncologista Fernando Maluf, este descumprimento não é intencional, mas sim resultado de uma rede que se inicia antes mesmo do diagnóstico da doença. " A lei fala que, depois do diagnóstico, tem que iniciar o tratamento em 60 dias, então, ela não é cumprida para esses 20%. Mas têm outra parte maior, entre 30 e 40%, que após os sintomas, demoram para marcação da consulta, demoram para fazer os exames. Então, na verdade, muitos serviços não cumprem a lei, não por maldade, mas por esses procedimentos. É muito mais o pré-biopsia, que o pós-biopsia”, pondera.

A pesquisa da Janssen entrevistou 200 homens acima dos 40 anos, diagnosticados com câncer de próstata há mais de dois anos, divididos em grupos de pacientes metastáticos e não metastáticos, em 13 capitais (Belém, Manaus, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília e Goiânia).


Medicamento retarda surgimento da metástase do câncer de próstata

Após ser submetido à cirurgia ou à radioterapia para tratar o câncer de próstata em estágio inicial, 20 a 30% dos pacientes voltam a ter o PSA aumentado. E quando este antígeno começa a subir muito rápido, este homem tem o risco maior de apresentar a doença metastática – que é quando o câncer se espalha para outros órgãos e as chances de cura reduzem.

Neste intervalo, entre o aumento do PSA até o diagnóstico da metástase, e dependendo do caso, é possível iniciar um tratamento inovador, que já demonstrou diminuir em 72% o risco de progressão para metástase ou morte em pacientes com câncer de próstata, além de proporcionar mais de 40 meses de sobrevida livre de metástase (mediana), o que representa um ganho de dois anos quando comparado ao uso de um remédio placebo (mediana de 16,2 meses).

A pesquisa da Janssen entrevistou 200 homens acima dos 40 anos, diagnosticados com câncer de próstata há mais de dois anos

Desenvolvido pela Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, a apalutamida é um inibidor oral de receptor de andrógeno que bloqueia a via de sinalização dos andrógenos em células do câncer de próstata. O medicamento inibe o crescimento de células cancerosas de três formas: prevenindo a ligação de andrógenos ao seu receptor nas células; bloqueando a entrada dos receptores de andrógenos nas células cancerosas; e impedindo os receptores de se ligar ao DNA da célula maligna.

Além de postergar o agravamento da doença, a apalutamida também demonstrou ter um perfil favorável de segurança e tolerabilidade. Durante a realização do estudo clínico, grande parte dos pacientes não metastáticos e assintomáticos relataram manter a mesma qualidade de vida que tinham antes do uso do medicamento. Neste estudo, os principais eventos adversos de apalutamida foram fadiga, hipertensão e rash cutâneo.

“Quando oferecemos aos pacientes um medicamento que é capaz de evitar a piora de seu quadro sem trazer efeitos colaterais muito impactantes, podemos realmente dizer que ele terá a chance não apenas de prolongar sua vida, mas principalmente de seguir desfrutando dela com qualidade”, afirma Telma Santos, diretora médica da Janssen Brasil.


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Com menos casos da doença que os Estados Unidos, brasileiros têm índice de mortalidade duas vezes maior que o país norte-americano


As razões ainda não são claras, mas os negros apresentam risco ao câncer de próstata de duas a três vezes maior que o restante da população masculina, bem como o dobro da probabilidade de morrer por conta da doença. Além disso, a ocorrência desse tipo de câncer nos homens brancos acontece em geral a partir dos 50 anos, ao passo que em negros se dá entre cinco e dez anos mais cedo. Os dados confirmados pelo oncologista Fernando Maluf, diretor médico do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein e Diretor do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, alertam ainda para outros fatores de risco, como os genéticos e ambientais.



“Se você tem um parente de primeiro grau com a doença, a probabilidade de você desenvolver [o câncer de próstata] é duas vezes maior; dois parentes de primeiro grau, quatro vezes; três parentes, seis vezes. Então, o risco vai aumentando de acordo com o número de parentes acometidos pela doença, a proximidade e a idade em que aquele parente teve câncer de próstata”, explica Maluf, acrescentando que a obesidade é outro agravante da doença. “Além da parte familiar, tem a obesidade, e não só pelo risco de ter a doença, mas o obeso tem a doença pior; a raça negra tem mais câncer de próstata e mais agressivo, e a idade, pois raramente o câncer de próstata vai acometer alguém abaixo de 40, 45 anos”, completa.



O oncologista apresenta ainda outros dados alarmantes. Enquanto nos Estados Unidos a estimativa de novos casos de câncer de próstata é de cerca de 200 mil e de cada 10 casos diagnosticados, um vem a óbito; no Brasil, espera-se a ocorrência de 70 mil novos casos de câncer de próstata por ano, no entanto, de cada 10 casos diagnosticados, dois morrem. Ou seja, a mortalidade no Brasil é o dobro que do registrado nos Estados Unidos, onde há mais casos diagnosticados da doença.

Para Fernando Maluf, a justificativa para este cenário passa pela cultura resistente do homem em buscar ajuda médica. “No Brasil, os pacientes chegam, com frequência, tardiamente ao diagnóstico. Uma pesquisa da SBU [Sociedade Brasileira de Urologia] mostra que a quantidade de pacientes com doença avançada no diagnóstico é de duas a três vezes maior que nos EUA. Se você olhar para os negros, ou para as pessoas mais pobres, esse risco aumenta de quatro a cinco vezes. Então, nosso tumor é igual ao dos americanos, o nosso problema chama-se doença social, não doença só da doença”, pondera o oncologista, citando que os homens vão oito vezes menos ao médico espontaneamente que as mulheres no Brasil e eles vivem sete anos a menos que elas no país.


Exame do toque: “desconforto é muito mais na cabeça que na parte física”

O rastreamento da saúde da próstata deve começar aos 50 anos. Todavia, se o homem tiver algum dos fatores de risco, o acompanhamento deve começar aos 40 anos. Para tanto, o urologista irá solicitar a realização do exame de toque retal e o exame de sangue para avaliar a dosagem do PSA (antígeno prostático específico).

Segundo o oncologista Fernando Maluf, os dois exames são complementares e o resultado de um não anula a necessidade de realização do outro. “O exame de toque demora uns sete segundos, praticamente indolor. O desconforto é muito mais na cabeça que na parte física. E é importante lembrar que o toque complementa o PSA. Há casos em que o PSA dá baixo, mas o toque retal dá alterado e, em geral, esses são os piores tumores, aqueles que não expressam em PSA”, alerta.

Ainda sobre a prevenção da doença, o médico indica hábitos de vida saudáveis e a ingestão de alimentos como chá verde, cúrcuma, tomate, alho, pimenta, romã, além de ômega 3 e vitamina D. Ele ressalta que o licopeno, pigmento carotenoide e fitoquímico encontrado principalmente no tomate e seus derivados, sendo o responsável pela cor vermelha intensa dele e de outras frutas, também é um importante aliado na prevenção da patologia. Ademais, deve-se evitar a ingestão de embutidos, frituras, alimentos condimentados e carnes vermelha em excesso.


Diagnóstico e formas de tratamento

Caso sejam constatadas alterações suspeitas no exame de toque e PSA, o médico, então, solicita a biopsia e, dependendo do resultado anátomo-patológico, confirma-se ou descarta-se o diagnóstico de câncer de próstata. Em caso positivo para a doença localizada, os tratamentos mais comuns são cirurgia e radioterapia.

“A cirurgia pode causar um pouco mais de chances de desenvolver incontinência urinária que a radioterapia, e a chance de impotência é parecida nas duas modalidades. Já a radioterapia pode causar um pouco mais de inflamação, é mais demorada, pois leva de sete a oito semanas para ser concluída. Os dois tratamentos têm prós e contras, mas são super corretos”, explica Fernando Maluf.

Já quando a doença se apresenta em estágio avançado, os tratamentos são: a castração, que é diminuir a produção de testosterona nos testículos, pois ela é o alimento vital das células cancerígenas; além da quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia injetável. “No entanto, é possível que, após a castração, as células cancerígenas aprendam a se alimentar de outra substância, e aí vêm outras alternativas, como drogas, tratamentos hormonais, etc.”, completa.











Homens encaram com desespero e medo o diagnóstico da doença

Em um país cuja masculinidade foi socialmente construída sob a virilidade do homem, enfrentar o diagnóstico de câncer de próstata pode trazer sérios impactos à saúde emocional e mental dos pacientes. 

Segundo a psicóloga Luiza Polessa, membro da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), ao receber o diagnóstico da doença, este homem começa a viver na iminência de vários sentimentos. “É tudo tão intenso, tão avassalador que é como se ele tivesse caindo no vácuo, com muita preocupação financeira, alteração de sono, depressão, casos de ideação suicida, bloqueio emocional e cognitivo, descrença e desesperança de cura”, descreve.

E a família também sofre neste processo. “A família também é impactada com sentimentos de pesar, angústia, medo e até ambivalência de sentimentos, porque nem sempre esse familiar é um querido, muitas vezes ele não foi um bom pai, um bom marido, um bom irmão ou um bom colega de trabalho. E ao mesmo tempo que vem o pesar, vem o distanciamento, a desqualificação”, ressalta a psicóloga.

Um reflexo desses impactos emocionais e mentais no paciente também foi descrito pela pesquisa do Instituto Ipsos, a pedido da Janssen. O levantamento aponta que aproximadamente duas vezes mais pacientes metastáticos (31%) procuraram apoio psicológico em comparação àqueles que não tinham metástase (17%).

“É necessário olhar o aspecto psicossocial da doença, uma vez que a pessoa pode, de repente, deixar de ser produtiva socialmente ou intelectualmente. Além disso, os indivíduos precisam lidar ainda com outras questões associadas ao câncer, como disfunção erétil, que descaracterizam a identidade do homem de uma maneira muito significativa”, completa Luiza Polessa.

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24 de agosto de 2019

Farinhadas se espalham pelo Piauí e mostram impacto econômico

Farinhadas se espalham pelo Piauí e mostram impacto econômico

No interior do estado, são as próprias famílias que comandam os pequenos nichos de beneficiamento do produto

No fundo do quintal da família Leal, a paisagem que se agiganta é de um sertão que já não vê chuva há alguns meses. O pasto de plantas secas faz contraste com o branco de um grande tablado repleto de goma fresca que, ao lado, compõe o cenário junto a uma pequena casa de farinha. O local é onde funciona, em uma produção contínua que se inicia, diariamente, às 3h da manhã, a tradição secular das farinhadas ou desmanches – processo que envolve desde a colheita da mandioca, à produção dos seus subprodutos, como a farinha e a goma. O município de São João da Canabrava, no Sudeste do Piauí, tem na mandioca um dos principais impulsionadores da economia local. 

Principalmente no interior do Estado, onde são as próprias famílias a comandarem os pequenos nichos de beneficiamento da mandioca, os desmanches têm início no mês de julho e se estendem até setembro - período em que as chuvas já têm passado e a colheita das raízes plantadas entre um e dois anos antes, se torna ideal.

(Foto: Glenda Uchôa/ODIA)

Na casa de farinha da qual Erivan Leal é um dos sócios, no povoado de Caco do Pote, ainda município de São João da Canabrava, o trabalho acontecerá até o fim deste mês, ele presume.

“Começamos no mês de julho e vamos até o fim de agosto. Por dia, manejamos cerca de dez cargas de mandioca, que é o chamado “arranca” trazido pra cá todo dia. Ao fim do dia, esse trabalho rende uma média de quatro a cinco sacos de farinha e também quatro a cinco sacos de goma”, relata.

Pela própria forma como as comunidades se organizam em torno do plantio e utilização, é fácil constatar que, ao longo dos anos, a força do alimento nunca mudou, mas o modo de beneficiá-lo, sim. A casa de farinha de onde é possível observar todos os processos para resultar nos produtos da mandioca é quase que inteiramente equipada por máquinas industriais. Isto porque o trabalho que, há cerca de dez anos, era quase em sua totalidade feito de forma braçal, vem sendo paulatinamente facilitado com a utilização de máquinas para o manejo do alimento. 

Apesar de serem os principais, não são só a goma e a farinha os produtos aproveitados durante os desmanches. Ela pode ser usada em sua completude, por isso, é secularmente considerada o “ouro branco” do sertão. 

Enquanto do miolo do tubérculo se aproveitam a fabricação da goma e farinha, a casca é usada para fazer ração para animais. Outro produto, a manipueira, que é o líquido extraído após o processo de prensa, pode ser usado como complemento alimentar para o gado e até no combate de pragas, a depender de como será manejado. Ou seja: nada é desperdiçado na mandioca.

Prática é milenar e faz parte da história do Brasil

A mandioca, planta de nome científico Manihot esculenta é, provavelmente, a planta cultivada mais disseminada no território brasileiro. A primeira referência à mandioca está na carta que Pero Vaz de Caminha enviou a Portugal quando do Descobrimento. 

“...Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos...”.

(Foto: Glenda Uchôa/ODIA)

O “inhame” era na realidade a mandioca, já que o inhame propriamente dito é de origem africana, tendo sido introduzido posteriormente no Brasil. 

O Brasil, aliás, é o segundo maior produtor do alimento no mundo, de acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). De tão presente no dia a dia dos brasileiros, e de tão importante, ela já foi até mote para um discurso presidencial; em 2015, quando a ex-presidenta Dilma Roussef classificou a raiz como sendo “uma das maiores conquistas deste país”, na cerimônia de abertura dos Jogos Mundiais Indígenas.

16 de agosto de 2019

Família constrói residência ecológica para preservar recursos

Família constrói residência ecológica para preservar recursos

Técnicas de reaproveitamento de água e uso de placas solares estão entre as medidas adotadas pela família Mourão

“A nossa natureza está gritando por socorro há muito tempo e as pessoas ainda não têm essa visão e isso é de se lamentar”. A reflexão é da professora aposentada Fátima Mourão, que sempre se preocupou com o meio ambiente e com o uso racional de água e energia em sua casa.

Ela, que adora plantas, construiu uma residência ecológica e, para manter a vegetação impecável, toda a família planeja desde o adubo até a água que irá irrigar a plantação. No início, a professora reutilizava a água da máquina de lavar roupa para regar as plantas, mas os artifícios evoluíram.

“Como meu filho é arquiteto, ele fez uma especialização em arquitetura sustentável e a gente deu carta branca para ele fazer da forma que ele queria, que fosse adequado e que aproveitasse o máximo do que ele aprendeu no curso. Nós aproveitamos a água da chuva, não jogamos cascas de banana fora, nem um pedaço de tronco”, conta Fátima.

Anderson Mourão, filho de Fátima, explica como é feita a irrigação da casa. “Durante a chuva, a água é canalizada diretamente para a cisterna. A água é reutilizada em um sistema de automação para irrigar toda a vegetação, no térreo, na cobertura, nos horários certos. São quatro acionamentos que duram, mais ou menos, cinco minutos, com isso reduz o consumo de água, além de ser prático, porque não precisa irrigar manualmente”, fala.


Anderson Mourão mostra as placas de energia solar que foram instaladas na casa - Foto: O Dia

Além da economia financeira, a família se beneficia com as verduras que plantam, já que não é aplicado agrotóxico nos alimentos. “Minha horta tem uma qualidade melhor na produção das verduras que a gente consome, porque não tem agrotóxico e a gente tem uma certa economia, até com a mão de obra”, explica a professora.

Energia renovável 

De acordo com o arquiteto Anderson Mourão, produzir a própria energia está se tornando cada vez mais atraente e possível para as famílias. O investimento em placas solares tem retorno rápido, além de ajudar o meio ambiente.

“A intenção, desde o início, foi reduzir ao máximo o consumo de energia, então produzir sua própria energia reduz o consumo que vem da rede pública e, consequentemente, o valor da conta de energia. A gente fez o sistema com baterias, que acumulam energia por meio de placas solares; então, quando falta energia lá fora, aqui dentro não falta, porque é independente”, esclarece o arquiteto, acrescentando que “a tarifa da energia só aumenta e o valor das placas de energia solar reduz a cada ano. Com isso, hoje é muito fácil investir em energia solar do que investir em banco ou em outra forma”, completa.

O esgoto da casa também é tratado de forma diferente. Na residência não existe fossa convencional. Anderson Mourão utiliza um sistema de bacia de evapotranspiração, conhecida também como fossa de bananeira. A construção custa, em média, R$ 360 e o retorno do investimento é positivo.

“99% do esgoto é água, então com essa técnica as bananeiras puxam toda água e evaporam para o ambiente, e 1% de sólido, as bactérias já digerem e a própria planta se alimenta, por isso ele não enche e você tem essa reutilização na própria planta, além de uma banana deliciosa. Esse é um sistema que imita os padrões da natureza”, descreve.

Vinda do interior, família mora no mesmo bairro de Teresina

Vinda do interior, família mora no mesmo bairro de Teresina

Pais, filhos, netos e cunhados não se desgrudam e relatam os prazeres e contratempos de morarem tão perto uns dos outros.

Harmonia e boa convivência. São essas palavras que definem a família Oliveira. Com origem na cidade de União, a 65 km de Teresina, os Oliveiras se instalaram há décadas na Capital. Para se sentirem seguros e confiantes, optaram por morar em locais próximos uns dos outros.

Sidney Negreiros tem três filhos e é casado com Amparo. Para o chefe da família, morar perto dos cunhados, filhos e netos é uma honra e, mesmo que às vezes haja algumas discussões, a parceria faz com que os momentos de desentendimento se tornem insignificantes. 

“A gente já se acostumou. Não nos vemos não morando aqui. Temos uma harmonia boa, mas, de vez em quando, tem uma briguinha, mas coisa pequena e que não atrapalha em nada a convivência. Morar perto é muito útil em vários aspectos; por exemplo, quando precisa de alguma coisa, a gente grita, é um tipo de auxílio que facilita a vida”, conta Sidney Negreiros.


Foto: Jailson Soares/O Dia

Outro privilegio que Sidney conta com orgulho é poder acompanhar o crescimento dos filhos e netos. “Sidney Filho mora atrás da nossa casa e nós temos uma coisa muita boa de família que muitos pais não têm, é que nos vemos nossos três filhos e os netos todos os dias. Temos ainda o almoço dominical pelo menos uma vez por mês, fora Dia dos Pais e das Mães”, revela.

E o ponto de equilíbrio da família é Amparo Negreiros. Ela quem fica com os netos e sobrinhos quando os pais precisam resolver algum problema. “Eu agradeço muito a Deus porque nós estamos aqui juntos, meus irmãos, filhos, sobrinhos e netos. Os vejo quase todos os dias, cada um tem a sua chave para se sentir à vontade na minha casa. É um orgulho ser auxílio para eles. Hoje em dia é muito difícil as famílias se reunirem e meus filhos moram aqui próximo, sem ter problemas sérios, é meu maior orgulho”, conta emocionada. 


Parte da família mora no térreo e outra no primeiro andar da casa - Foto: Jailson Soares/O Dia

Geyza Negreiros, é filha de Amparo e Sidney e não quis sair de perto dos pais nem para trabalhar. A empreendera abriu um pet shop na esquina da casa dos pais e, quando precisa de ajuda no atendimento ou até no lanchinho da tarde, ela recorre à mãe.

“Após casar, procurei me manter perto, inclusive abri um comércio perto de casa. Eu tenho que agradecer todos os dias a Deus por estar trabalhando do lado da casa da minha mãe, pois poucos têm essa oportunidade. Eu considero uma dádiva mesmo e assim eu posso vê-la e abraçá-la todos os dias. Ela também me dá apoio com as crianças, pois, quando preciso de suporte com os meninos, a gente está sempre próximo, então nos sentimos acolhidos e isso fortalece o elo familiar”, diz Geyza.

Além dos filhos próximos e das frequentes visitas, Amparo e Sidney moram em uma casa que possui dois andares, eles moram no térreo e Osmar e Bernadete Bonfim residem na parte de cima da casa. Amparo e Osmar são irmãos e cultivaram a união da família para permanecerem sempre juntos.


Geyza Negreiros, para não sair de perto dos pais, abriu um petshop na esquina da casa dos pais - Foto: Jailson Soares/O Dia

O elo entre as cunhadas Bernadete e Amparo ultrapassa o limite familiar. Além de dividirem o mesmo quintal, elas se auxiliam na hora da doença, da alimentação e dos problemas. “Eu me sinto segura por ter as pessoas de confiança perto. Às vezes, eles gritam, ‘tia Bete tem tomate? Tem isso?’ e eu respondo ‘pega aqui na escada’. É bom, pois estamos sempre presentes em tudo, nas trocas de alimentos quando precisa ou na necessidade de saúde”, explica Bernadete Bonfim.

Seu Osmar brinca ao lembrar que até as entregas de toda família são feitas na casa dele, já que todos da comunidade sabem que a família não se desgruda. “As correspondências chegam todas juntas e os carteiros jogam em só uma casa, por saber que já é da família”, pontua.

Teresina 167 anos: do quintal de casa às imponentes construções

Teresina 167 anos: do quintal de casa às imponentes construções

A família de Maria de Nazaré Alves mora na região que hoje abriga o Parque da Cidadania há mais de 30 anos

O Parque da Cidadania, localizado na Avenida Frei Serafim, é hoje um dos pontos turísticos e de lazer mais visitados de Teresina. Antes de ser inaugurado em 2016 e de se tornar um espaço destinado a manifestações culturais e atividades esportivas, o local era apenas um grande terreno abandonado. 

Natural de Campo Maior, dona Maria de Nazaré Alves mora ao lado do Parque da Cidadania há mais de 30 anos e viu o local se transformar no que é hoje. “Viemos de Altos para Teresina em 1986 porque meu marido era ferroviário. Aqui não tinham casas, só a nossa. Quando viemos para cá, já tinha meus dois filhos e criei mais três. Eu gostava de morar aqui e, mesmo sendo isolado, eu não tinha medo. Eu acompanhei todo o processo de mudança desse local. Na frente da estação, tinham casas, as pessoas tiveram que sair e foi ficando diferente e também vi a construção de grandes prédios importantes na Avenida Miguel Rosa”, comenta.

Mesmo pequena, com apenas 10 anos na época, a filha de dona Maria de Nazaré, a cerimonialista Eveline Alves lembra de muitos detalhes de sua infância, inclusive da construção da ferrovia. Ela conta que brincava em meio à obra com os irmãos e criou laços de amizade com os operários que trabalhavam no local.


Maria de Nazaré acompanhou a construção da estação ferroviária e do Parque da Cidadania - Foto: Elias Fontinele/O Dia

“Para mim é muito gratificante ver a mudança e o desenvolvimento porque, quando chegamos, o acesso era ruim, só mato, não tinha nada, nem vizinhos. Quando chegamos aqui, ainda não tinha o metrô, então tínhamos acesso para passar pelo muro. Acompanhamos a construção do metrô. Brinquei muito no meio da construção, tanto que, para fazer as escavações, tiveram que colocar dinamite e para nós era muito divertido e participamos de tudo. Por medida de segurança, tínhamos que sair de casa, mas nas horas vagas brincávamos dentro da construção. Tínhamos amizade com os operários e com todo o processo e transformação”, conta Eveline Alves.


“Para mim é muito gratificante ver a mudança e o desenvolvimento" - Eveline Alves


Experiência entre gerações

A mesma experiência que Eveline viveu na infância, seus filhos passaram na época que o Parque da Cidadania foi construído. Ela conta que as crianças também acompanharam o processo e as mudanças que foram implantadas e, para Eveline, ver essa evolução de um local, que antes era abandonado e hoje é um dos pontos mais visitados da cidade, dá uma sensação de gratidão.

“Eu vi meus filhos passando por esse processo, pois eles participaram da construção do parque. Hoje o Matheus tem 22 anos e a Isadora 19 anos, mas, na época, eles eram adolescentes. Hoje eu posso dizer que, por ter participado de todo o processo de construção do Parque, me sinto contemplada em ver as famílias desfrutando desse local. Dá uma sensação de pertencimento, pois é como se hoje nós realmente tivéssemos fincando nossa vida aqui, pois, até então, nós só morávamos, mas hoje temos nossa origem aqui justamente por termos participado”, comenta Eveline. 


Foto: Elias Fontinele/O Dia

Já as memórias de dona Maria de Nazaré vão além de estruturas físicas. Ela, além de ter alimentado os operários que trabalharam na construção do Parque da Cidadania, ainda ajudou a alfabetizar um dos operários da obra. Com a aproximação cada vez maior, dona Maria teve o prazer de, no muro da sua casa, ser construída uma porta que dá acesso ao Parque.

“Eu que cuido dos patos que vivem na lagoa do parque. Eles só vivem querendo entrar dentro de casa. Para mim, aqui tem muita atividade e eu gosto de ficar acompanhando, é como se o parque fosse o quintal da minha casa”, conclui dona Maria de Nazaré.

Poti Velho: do berço à expansão da cidade

Poti Velho: do berço à expansão da cidade

No dia do aniversário de 167 anos da capital piauiense, O DIA reúne histórias de quem fincou raízes no nosso solo.

Ao longo de 167 anos, Teresina cresceu e tem se transformado em uma cidade moderna e desenvolvida. Muito desse crescimento se deve à população, um povo acolhedor, batalhador e cheio de histórias para contar. E por estar localizada entre dois rios, Parnaíba e Poti, é de suas margens que começa a história da cidade.

O bairro Poti Velho (antigamente chamado de Vila Nova do Poti), na zona Norte de Teresina, é essencialmente formado por pescadores, pequenos agricultores e comerciantes. Até hoje, a região preserva os costumes e as tradições do povo que nasceu e construiu sua vida e famílias tirando o sustento desse solo. José Serapião de Sousa Filho, de 90 anos, é um dos moradores mais antigos da Boa Esperança, região que integra o Poti Velho. Ele mora no bairro há mais de 50 anos e viu muitas mudanças acontecerem.

Natural de Campo Maior, José Serapião chegou ao bairro ainda garoto, acompanhando trabalhadores que instalavam tubulação de água. Na época, o local era rodeado de fazendas e ele era responsável pelas vacarias. Lá, ele casou com Vitória Cardoso de Melo e da união, que já dura 41 anos, nasceram seis filhos. Hoje, a família está maior, com 11 netos e cinco bisnetos. Todos morando ali, uns perto dos outros. 

“A minha casa foi eu mesmo que construí. Era de taipa e, quando o Lula foi eleito, eu consegui fazer três empréstimos e construí de tijolo. Ao lado da minha casa, mora minha filha, e a filha que mora mais longe tem casa no final da rua. Eu gosto muito daqui. Ninguém conhece mais aqui do que eu”, comenta.


José Serapião posa com orgulho ao lado dos filhos e netos nascidos e criados na zona Norte de Teresina - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Há alguns anos, a região foi marcada pelas enchentes. Imóveis desabaram, famílias ficaram desabrigadas e muitas pessoas precisaram sair de suas casas para buscar locais mais seguros. Todavia, mesmo com essas adversidades, José Serapião não pensa em sair do lugar onde construiu sua família.

“O pessoal diz que aqui é área de risco, mas nunca foi. É um crime querer mexer com essas pessoas que moram no bairro. Eu prefiro morar aqui, mesmo com as enchentes, pois foi aqui que criei toda minha família aqui. São mais de 40 anos morando aqui. Teresina foi fundada pelo bairro Poti Velho, foi daqui que saíram os tijolos para construir as casas das cidades”, frisa.

A esposa de José Serapião, Vitória Cardoso, lembra que, assim que se mudou para o bairro, não havia tantos moradores como atualmente. Os filhos foram casando e ali mesmo construíram suas residências. Hoje, todos moram na mesma rua e alguns são vizinhos. 

“Antes só nós morávamos aqui, então era bem mais calmo, não tinha água e luz, então íamos pegar água no rio. Hoje é bom, mas antes era melhor. Somos acostumados com a comunidade, conhecemos todo mundo. Aqui é bom demais e não trocamos aqui por lugar nenhum. Criei minha família aqui, criando animais, como galinhas, porcos, perus e pato, e plantando. Hoje temos feijão, quiabo, abóbora, melancia, então é só chover que a gente planta e por isso não precisamos comprar nada disso”, fala.

13 de agosto de 2019

PM diz que roubos aos finais de semana são de ‘oportunidade’

PM diz que roubos aos finais de semana são de ‘oportunidade’

No final de semana, a partir da tarde, a região tende a se esvaziar.

Segundo o coronel Maurício Lacerda, comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar (BPM), o número de assaltos na região central de Teresina diminui aos finais de semana devido ao fluxo de pessoas que também reduz. Ele explica que a dinâmica do Centro é diferente dos outros bairros, sendo maior de segunda a sábado e durante o horário comercial. No final de semana, a partir da tarde, a região tende a se esvaziar.

“Esses assaltos são de oportunidade e não temos uma sequência alta, tanto que, em relação a essas ocorrências, nossas estatísticas são de índices baixos desde o início do ano, inclusive reduzindo roubos a transeuntes e carros, como furto de veículos e arrombamentos em casas e comércios”, comenta.

Com relação ao Centro de Teresina, o comandante pontua que o Sindicato dos Lojistas costuma notificar as ocorrências de roubos e arrombamentos, fazendo com que a Polícia Militar mude sua estratégia de atuação. Para atender à região Central de Teresina, que contempla 21 bairros, a PM conta com nove viaturas, de segunda a sábado, e sete viaturas aos domingos.

Somente para o centro comercial são utilizados policiamento motorizado (03), ostensivo (duplas) e veicular (03) diariamente. Além disso, o serviço de segurança é integrado entre a Polícia Militar e a Guarda Municipal de Teresina.

“Dentro do que podemos, na capacidade do Batalhão, conseguimos dar uma dinâmica de segurança para a região. Os crimes vão acontecer porque infelizmente isso não é somente problema de polícia, têm problemas de políticas públicas. Infelizmente, o Centro de Teresina concentra muitos moradores de rua e usuários de drogas e, às vezes, até pessoas que moram na própria região e comentem assaltos para alimentar os vícios da droga”, relata.


Aplicativo mapeia áreas de risco

O aplicativo ‘PMPI Mobile’ tornou-se um aliado da Polícia Militar para conseguir identificar que áreas estão registrando mais ocorrências. Quando uma pessoa que é assaltada registra um Boletim de Ocorrência pelo aplicativo, é possível a PM reconhecer quais áreas estão mais vulneráveis e, assim, reforçar o policiamento. 

“O Mobile que foi instalado recentemente na Polícia Militar dá em tempo real as zonas quentes, que é uma mancha criminal atualizada em tempo real. E como fazemos um trabalho de forma estratégica, vamos mudando o policiamento de acordo com o aumento do índice de violência”, explica o coronel Maurício Lacerda.

O 1º BPM é composto por quatro companhias: Codam (Companhia Independente de Policiamento Cosme e Damião), que atua no Centro; além das companhias que atuam nos bairros São Pedro, Porenquanto e a Força Tática, que atua na região da Prainha.

“Com a dinâmica de policiamento, conseguimos atuar nos 21 bairros de forma otimizada. Também costumamos fazer 10 operações médias por mês e uma operação grande”, fala.

A região do Polo de Saúde de Teresina costuma ter movimentação aos finais de semana devido aos profissionais que trabalham em regime de plantão. Para garantir a segurança desses trabalhadores, o policiamento nessa área é diferenciado, e conta com uma viatura. Além disso, a PM e os grupos das clínicas firmaram uma parceira de forma a reforçar o policiamento nas áreas próximas ao Hospital Getúlio Vargas, 25º BC e na antiga Casa Mater.


População deve tomar alguns cuidados

O coronel Maurício Lacerda, comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar, dá algumas orientações para ajudar a população a prevenir situações de assalto ou furto. A primeira delas é antes de sair de casa. 

“Quando for sair de casa, a pessoa deve olhar pelas câmeras de segurança se têm pessoas na área externa. Se não tiver câmeras, sair de forma tranquila e observar se não tem pessoas estranhas nas proximidades. Somente após isso retirar o veículo”, cita.

Para as mulheres, a recomendação é evitar colocar a bolsa em cima do banco do passageiro. Ao sair do carro, conferir se a porta está realmente trancada. Quem estiver a pé deve procurar locais que tenha bastante movimentação e evitar locais desertos e escuros, além de evitar expor joias e dinheiro em locais públicos. 

“Se a pessoa se sentir ameaçada ou tiver alguma suspeita, deve entrar em um estabelecimento comercial e acionar o 190. Essas são formas de podermos evitar algumas situações, mas infelizmente não temos como garantir que a população não passará por casos assim”, finaliza o comandante do 1º BPM, Coronel Maurício Lacerda.


Espera para tirar segunda via de documento pode chegar a 7 horas

Espera para tirar segunda via de documento pode chegar a 7 horas

Passado o susto de ser vítima de um assalto, é hora de correr atrás para tirar a segunda via dos documentos pessoais subtraídos.

E nesse momento, a população se depara com mais obstáculos: o tempo de espera pelo atendimento. 

Maria Oliveira foi até o Espaço da Cidadania para solicitar a expedição da segunda via do seu RG após ser vítima de um assalto. “Eu fui fazer o B.O. no 1º DP, que fica por trás da Delegacia Geral e do Instituto de Identificação. A intenção era já sair de lá direto pro Instituto pra poder tirar a segunda via do RG. Só que a própria escrivã da delegacia me disse que se eu quisesse ser atendida lá, que eu precisaria madrugar, dormir lá”, relata.

Segundo Maria, no Instituto de Identificação localizado em frente à Praça Saraiva, uma fila já se formava na calçada. A jovem decidiu, então, ir ao posto de atendimento do Espaço da Cidadania no Shopping Rio Poty. Ela relata que chegou ao local às 8h30 e somente às 9h conseguiu uma senha para atendimento. No horário, já havia mais de 100 pessoas esperando na fila. “A senha que me deram era R133. Estava na R24 quando cheguei”, conta.

Segundo Maria Oliveira, foram sete horas de espera. A jovem só conseguiu ser atendida às 16h, enquanto outras pessoas que também esperavam na fila temiam não serem atendidas no mesmo dia. “O setor de emissão de RG é o que mais demora e justamente o que tem mais gente pra ser atendido. Não sei se falta é pessoal, se a demanda que já está além do que o Espaço suporta, mas é um transtorno absurdo a pessoa perder um dia inteiro pra conseguir emitir um documento”, afirma.

Além da demora no atendimento, os populares também reclamam do prazo estipulado para o recebimento do documento. Para eles, a espera de cinco dias úteis para receber o RG gera um transtorno, pois, como no caso de Maria que teve todos os documentos roubados, a emissão de outros documentos e cartões pessoais só é feita mediante apresentação da Carteira de Identidade. “Sem ele, eu não consigo resolver nada, inclusive não dá pra tirar as outras vias dos documentos que me roubaram, como a carteira de estudante e o título de eleitor”, finaliza.

Outro lado

Em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública, através do Instituto de Identificação, informou que o atendimento segue dentro da normalidade. O Instituto de Identificação reforçou ainda que na Capital existem cinco pontos para expedição de RG localizados no Shopping Poty, Centro, Ladeira do Uruguai, Parque Piauí e Dirceu.


10 de agosto de 2019

População teme andar pelas ruas do Centro de Teresina

População teme andar pelas ruas do Centro de Teresina

Ciclista e motociclistas armados têm feito cada vez mais vítimas na capital

O Centro de Teresina é uma das áreas mais movimentadas da cidade em dias úteis, mas, nos finais de semana, as ruas ficam desertas e isso favorece a ocorrência de assaltos. Quem trabalha ou transita por essa região aos sábados e domingos certamente já presenciou ou até foi vítima dessas práticas criminosas. 

No dia 20 de julho, Maria Oliveira foi assaltada a poucos metros da entrada do seu trabalho, o quarto crime que ela sofreu em apenas um ano. Dessa última vez, o criminoso levou seus documentos pessoais e alguns outros objetos. 

“Na bolsa não tinha dinheiro e o que era de maior valor ficou comigo, já que meu celular estava escondido. Quando ele se afastou, eu corri porque fiquei com medo dele abrir a bolsa e ver que não tinha nada e voltar para me fazer alguma coisa. Ele se aproximou de bicicleta e ameaçou atirar se eu corresse. Eu levantei as mãos para ele pegar o que quisesse, ele puxou minha bolsa e seguiu em direção ao Centro”, lembra. 

O assalto foi bastante similar ao que ela sofreu em março deste ano, quase no mesmo local, apenas um quarteirão antes. Maria Oliveira relata que um homem em uma motocicleta se aproximou e, com a cabeça, apontou para o cós da calça e, mostrando a arma, pediu o celular. Ao conseguir o objeto, o assaltante fugiu. 

(Foto: Jailson Soares/ODIA)

“É uma coisa que eu meio que já me acostumei, a lidar com prejuízo depois de assalto, pois essa não é a primeira vez que eu sou vítima de criminosos na região. Esse meu assalto de março foi três dias depois de uma colega do trabalho ser assaltada na frente da empresa, da mesma forma, então a suspeita é de que seja o mesmo criminoso”, conta a jovem. 

A vítima citada por Maria é a jornalista Virgiane Passos. Numa sexta-feira, por volta da 13h, ela estava chegando ao trabalho e estacionou seu veículo a cerca de 150 metros do local que trabalha. Ela conta que avistou duas pessoas subindo rapidamente em uma motocicleta e seguindo em sua direção. 

“Não tinha ninguém na rua, mas a recepção do meu trabalho estava perto. Não tinha muito o que fazer, continuei andando e eles me aborda. O garupa desceu, puxou minha bolsa, quebrou meu colar e disse que se eu reagisse me matava. Mas, diante do medo, eu não consegui checar se eles estavam armados ou não. Eles levaram minha bolsa com tudo, celular, dinheiro, documentos, objetos pessoais, chave do carro”, relata. 

Essa também não foi a primeira vez que Virgiane foi assaltada. A jornalista comenta que foi vítima de criminosos em uma parada de ônibus, onde levaram seu celular e, seis meses atrás, havia sofrido uma tentativa de assalto, no qual os bandidos tentaram levar seu veículo. 

“Dessa vez, levaram pertences muito importantes e de valor para mim, sem falar que, por ser na rua em que eu trabalho, a poucos metros da entrada, dá uma sensação de impotência, de raiva e de medo. Um lugar perto de uma grande avenida da cidade, próximo à sede do Ministério Público, do 25 BC, e você não tem a menor segurança. No dia, fiquei com medo deles voltarem para pegar o carro. Mas graças a Deus consegui recuperar, ainda na mesma tarde, os documentos e a chave do carro; o celular não. Só que aquela 'liberdade/tranquilidade' que eu tinha de ir trabalhar, eles levaram”, lamenta. 

Quatro meses após o susto, Virgiane ainda carrega o trauma de se deslocar até o trabalho e o medo de ser novamente surpreendida por criminosos. “É meu percurso diário e o que eu posso fazer? Nada. Nos dias que fico mais nervosa, mais apreensiva, acabo gastando com Uber por medo de acontecer de novo. A sensação é que somos alvos fáceis e, sem policiamento, sem oferecer o mínimo de segurança, tudo pode acontecer de novo e de novo. A região registra várias ocorrências. Inclusive, dois dias depois que fui assaltada, outras duas pessoas também foram no mesmo trecho”, pontua.


“O Estado é quem tem que dar segurança e não eu que devo parar de usar minhas coisas”, desabafa vítima

Mais do que traumas, os assaltos sofridos pelas vítimas geram prejuízos e coleções de boletins de ocorrência. Virgiane Passos precisou ir ao 1º Distrito Policial, localizado próximo à Praça Saraiva, para fazer o B.O. Ela precisava do registro para solicitar a segunda via dos documentos que haviam sido levados.

“Registrei o B.O. porque sabia que precisava para tirar a segunda via dos documentos e também porque tinha um pouco de esperança de reaver o celular, já que era um Iphone, que tem sistema de rastreamento e que 'teoricamente' é mais fácil de localizar”, conta.

Maria Oliveira também precisou registrar B.O. dos documentos que foram levados durante o assalto. A jovem pontua que teve um grande prejuízo financeiro no último ano por conta da quantidade de celulares que foram roubados e chama atenção do poder público para reforçar a segurança.

“Esse já é meu quarto celular em um ano. Além do celular que é levado, fica o susto, o desespero que é levar suas coisas, que você trabalha com muito esforço para conseguir e é levado na força e na violência, ameaçando tua vida. Eu compro um celular me questionando quanto tempo ele irá durar. Dizem que não podemos andar com celular bom para não chamar atenção, mas eu não vou deixar de ter minhas coisas porque tem gente roubando. Trabalho para comprar o que tenho vontade e coisas boas, o Estado é quem tem que dar segurança e não eu que devo parar de usar minhas coisas”, reforça.

Contraponto

A equipe de reportagem do Jornal O DIA solicitou dados sobre a quantidade de Boletins de Ocorrência registrados no 1º Distrito Policial junto à Secretaria de Segurança Pública, mas o órgão informou precisar de um prazo de 20 dias para coletar as informações.

03 de agosto de 2019

Com lojas fechando e sem clientes, vendas caem até 40% no Centro

Com lojas fechando e sem clientes, vendas caem até 40% no Centro

Os comerciantes lamentam os prejuízos e analisam o cenário econômico, sobretudo na região, com pessimismo.

Quem circula pelo Centro de Teresina já deve ter reparado que muitas lojas fecharam. Com isso, o fluxo de pessoas que circulam pela região também diminuiu, assim como as vendas em outros estabelecimentos. 

Segundo Karine de Sousa Nascimento, que tem uma loja próximo à Praça João Luís Ferreira, as vendas chegaram a cair até 40% desde que o Centro passou a perder força de mercado. Ela, que também reside na região central da cidade, enfatiza que esse esvaziamento tem resultados bastante negativos, tanto para os comerciantes como para a população.

“O Centro era bom quando tinha todo mundo misturado, lojistas e camelôs. Depois que houve essa separação e os levaram para o Shopping da Cidade, muitas pessoas evitam vir para locais como perto da Praça João Luís, pois querem resolver suas coisas o mais próximo do Shopping, que hoje concentra um pouco de tudo, e isso faz com que elas não fiquem circulando”, comenta.

Com lojas fechando e clientes escassos, vendas caem até 40% no Centro. (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Ainda de acordo com ela, a partir do meio dia, as ruas do Centro passam a ficar praticamente desertas, colocando consumidores e comerciantes em risco, vez que aumentam os assaltos na região. Karine também relata que o policiamento está deficitário, o que favorece as práticas criminosas. 

O estabelecimento onde Karine trabalha está entre duas lojas que fecharam há três e oito meses, respectivamente. Ela atribui a não ocupação dos espaços por novos empreendimentos devido ao alto valor do aluguel, entre R$ 5 mil e R$ 8 mil. Com valores elevados e sem lucro, os comerciantes estão buscando alternativas para se manter e migrando para outras áreas da cidade. 

“Os comerciantes estão indo para os bairros, alugando pontos em regiões mais populosas, já que o Centro está cada dia mais vazio. A consequência disso é que, daqui alguns anos, não existirá mais Centro comercial. Os comerciantes estão sendo obrigados a sair porque não estão vendendo e se não vende, não tem como pagar o aluguel do ponto e os funcionários”, fala.

A estudante Cássia Ildiane revela que costuma ir pouco ao Centro de Teresina e admite que, quando precisa resolver algo, busca outras opções, como os shoppings, que, além de oferecem quase todos os serviços, ainda são mais seguros e climatizados. 

“Eu venho muito pouco ao Centro e como tenho percebido que está cada vez mais vazio, até evito circular por algumas ruas mais desertas. Minha mãe até reclama para eu não trazer bolsa porque pode ser perigoso, já que não vemos policiamento. Eu já presenciei um assalto em frente a um banco no Centro, em um local cheio de gente, então não tem como não ficar receosa de vir ao Centro e correr o risco de ser uma vítima”, confessa.


Fila de espera por biopsia é enorme, revela Luiz Ayrton Santos

Fila de espera por biopsia é enorme, revela Luiz Ayrton Santos

O Hospital São Marcos, que compõe a rede de referência no Estado, está lotado e com uma longa fila de espera.

No Piauí, há três centros de referência para o tratamento de câncer de mama: o Hospital São Marcos, o Hospital Universitário da Ufpi e o Hospital Lineu Araújo. De acordo com Luiz Ayrton Santos, presidente da Fundação Maria Carvalho Santos, o Hospital São Marcos, que compõe a rede de referência no Estado, está lotado e com uma longa fila de espera.

“Atualmente, temos um problema sério, pois não temos onde fazer uma biópsia pelo SUS. O HU, o Lineu Araújo e Hospital São Marcos, que seriam os hospitais de referência, se você investigar como fazer uma biópsia, você vai ver que todos têm dificuldade e a fila de espera é enorme. O São Marcos está lotado, então quem é SUS vai entrar na fila de um hospital que só tem uma máquina e que está trabalhando toda hora, sem parar. Será se estamos tratando corretamente? Não sabemos. O Hospital é um dos dois centros que trabalha com radioterapia no Estado, junto com uma clínica particular, sendo que esta só atende plano de saúde”, revela.

Contraponto

O Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-Ufpi), filiado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), informa que é habilitado para atendimento oncológico, incluindo diversos tipos de tumores malignos, entre os quais, câncer de mama. O Hospital informa também que cumpre as metas quantitativas e qualitativas relacionadas à referida habilitação, contratualizadas com o gestor local do SUS e reafirma seu compromisso como hospital-escola e como prestador de assistência de qualidade aos pacientes do SUS.

Já a coordenadora de epidemiologia da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi), Amélia Costa, destaca que Teresina tornou-se uma Capital referência na área da Saúde, atendendo pacientes de outros municípios, inclusive de outros Estados, como Maranhão e Ceará. 

Teresina tornou-se uma Capital referência na área da Saúde. (Foto: Arquivo O Dia)

Com relação à rede de referência, a coordenadora de epidemiologia explica que, apesar de o Hospital Lineu Araújo realizar os diagnósticos de exames e imagem, o tratamento contra o câncer de mama é iniciado, em geral, no Hospital São Marcos.

Amélia pontua que o tempo para realização dos exames depende do que é solicitado, mas, em geral, chega a 30 dias, devido à necessidade de agendamento e marcações. “Ainda não foi visto, pelo Ministério da Saúde, a questão das prioridades, pois é seguido um protocolo de acordo com idade, que inclui nas prioridades de agendamentos todos os tipos de consulta”, frisa.

Amélia ressalta outro dado importante: o câncer de mama está atingindo cada vez mais mulheres mais jovens. “Antigamente, tínhamos mulheres com câncer de mama a partir dos 40 anos, hoje temos mulheres com câncer com 18 anos. Segunda a visão do Inca e do Ministério da Saúde, o câncer está relacionado à qualidade de vida, como uma alimentação que não é saudável, hormônios, como anticoncepcional, sexo muito cedo, bebida, sedentarismo, cigarro e drogas, onde tudo isso tem contribuído”, fala.

Para a coordenadora, a quantidade de pessoas sendo atendidas no Estado é o que causa superlotação e gera longas filas. “As dificuldades são inúmeras, acredito eu, pelo número de pessoas que são oriundas de outros centros e que vêm para o Estado. Temos que atender pessoas de todas as idades, raças, então qualquer pessoa pode ser atendida e o volume de outros Estados é muito. Todo mundo entra no sistema e, consequentemente, existe uma superlotação, sobrecarregando o nosso Polo. O Piauí tem um nível de resolutividade e qualidade, comparado a outros estados, muito bom, somos referência, por isso, as pessoas vêm fazer seus tratamentos aqui”, acrescenta.

Lei deveria garantir início do tratamento 60 dias após o diagnóstico

Lei deveria garantir início do tratamento 60 dias após o diagnóstico

O paciente que não tiver garantido o início do seu tratamento oncológico deverá procurar a Secretaria de Saúde do seu município.

De acordo com a Lei 12.732/12, a Lei dos 60 Dias, existe um prazo máximo para o início do tratamento de câncer pelo Sistema Único de Saúde. O paciente diagnosticado com a doença tem direito a se submeter ao primeiro tratamento no prazo de até 60 dias, contados a partir do dia em que for assinado o diagnóstico em laudo patológico, ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário único.

O paciente que não tiver garantido o início do seu tratamento oncológico deverá procurar a Secretaria de Saúde do seu município, pois os fluxos e regulação aos serviços são organizados localmente. O descumprimento da lei sujeitará os gestores, direta e indiretamente responsáveis, a penalidades administrativas. Caso o paciente não tenha sua situação resolvida, é possível recorrer à Justiça.

Mastologista Luiz Ayrton fala dos desafios de cumprimento da legislação no Piauí. (Foto: Arquivo O Dia)

Para isso, o paciente deve procurar alguns órgãos legitimados para promoverem a ação, como a Defensoria Pública, o Ministério Público, a OAB (assistência judiciária gratuita) e as Faculdades de Direito conveniadas com a OAB e/ou com órgãos do Poder Judiciário (Justiça Estadual/Federal), ou o Sistema dos Juizados Especiais. Há também a possibilidade de contratar um advogado particular.

O mastologista Luiz Ayrton Santos, presidente da Fundação Maria Carvalho Santos, destaca que a Lei dos 60 Dias é fruto do movimento Outubro Rosa e, quando foi criada, determinava que os gestores deveriam dar ao paciente a oportunidade de diagnóstico no período de até dois meses.

“É uma lei que deveria estar funcionando, mas não funciona por conta de uma série de fatores relacionados à assistência. Ano passado, iniciamos o Projeto Mama Cajuína e tinham 43 pessoas na fila de espera e, em apenas dois dias, resolvemos isso. A paciente demora a ter seu diagnóstico; com isso, o tumor fica mais avançado, o tratamento mais caro, a amputação da mama é maior e a cura é menor e esses são problemas que impactam no controle da doença, na sobrevida”, fala.

Fundação

A Fundação Maria Carvalho Santos é uma instituição altruísta e que faz um trabalho filantrópico no Piauí, que tem como objetivo levar à mulher com câncer informações necessárias para que ela conheça seus direitos e consiga realizar seu tratamento.

“Queremos que ela seja bem tratada, que esteja atualizada sobre as drogas novas e, com isso, ela tem a oportunidade também desse diagnóstico, como com o Projeto Mama Cajuína, onde 22 mil mulheres puderam fazer o diagnóstico precoce e isso impacta sobre o controle da doença, pois sabemos que, se descoberto cedo, as chances de cura são maiores. Ajudamos também no que está relacionado à biópsia, suprindo as necessidades que o Estado não vem cumprindo”, completa Luiz Ayrton Santos.


Paciente relata diagnóstico e tratamento pela rede particular

Paciente relata diagnóstico e tratamento pela rede particular

Alcione Nunes Dias, de 44 anos, foi diagnosticada com câncer de mama em 2017 e faz tratamento pela rede particular de saúde.

A supervisora administrativa Alcione Nunes Dias, de 44 anos, sabe bem da importância do tempo para se conseguir a cura do câncer de mama. Diagnosticada com a doença em 2017, ela conseguiu realizar todos os procedimentos de exames, diagnóstico e cirurgia em apenas dois meses na rede particular de saúde - o que, para ela, foi crucial na sua recuperação.

“Em março de 2017, eu senti a mama esquerda inchada e dolorida. Como sempre tive cistos mamários, achava que não era nada, e como estavam evoluídos eu conseguia ver o relevo deles quando tirava a roupa, mas nada que me fizesse buscar ajuda médica. Por ironia do destino, eu trabalho em uma clínica de imagem e, um dia, um dos médicos me ouviu reclamando das dores e pediu que eu o procurasse no final do dia para uma avaliação. Ele suspeitou de algo e recomendou que eu buscasse o mastologista. Na imagem, não dava para dizer se era um cisto ou nódulo, mas o corpo encontrado tinha 0.9 mm, menos de 1 cm, algo muito pequeno”, lembra.

Alcione foi diagnosticada em 2017. (Foto: Arquivo Pessoal)

No dia 16 de maio de 2017, Alcione procurou ajuda médica; seu diagnóstico foi dado um mês depois, no dia 16 de junho e, 27 dias após, ela realizou a cirurgia de retirada do nódulo, que já estava medindo 1,5 cm. Na biópsia, foi confirmado se tratar de uma célula cancerígena de Grau 2.

“O câncer é uma doença muito covarde, pois ele surge devagar e não quer ser reconhecido de jeito nenhum. Antes da cirurgia, fiz vários exames para verificar se tinham nódulos em outras partes do corpo e tudo foi muito rápido. Mas essa rapidez só foi possível por conta do plano de saúde, porque se fosse depender do SUS, eu não teria conseguido, como vemos muitos casos todos os dias”, avalia a supervisora administrativa. 

“Ela está quase desistindo”, diz amiga de paciente da rede pública

Em meio ao seu tratamento, a supervisora administrativa Alcione Nunes conheceu uma mulher que tinha acabado de receber o diagnóstico do câncer de mama. Mas diferente de Alcione, ela faria o tratamento pelo SUS. “Ela está desmotivada, revoltada e se sente angustiada porque sabe que se os processos fossem mais rápidos, teria sido diferente. Ela está quase desistindo”, revela Alcione sobre o atual quadro da amiga.

Quando elas se conheceram, em 2017, a colega, de apenas 27 anos, tinha descoberto um tumor de 7 cm na mama. Seu tratamento foi iniciado pelo SUS, mas, devido à demora em conseguir realizar consultas e exames no tempo certo, ela desenvolveu metástase em outros órgãos do corpo.

“Liberaram as quimioterapias, ela fez todas e, quando terminou, o médico pediu o pré-operatório, mas ela não conseguiu nem o parecer do cardiologista, pois fazer os exames é a coisa mais difícil. Quando ela conseguiu fazer os exames, três meses depois, já estava com metástase no crânio, no fígado, no rim. Hoje, ela faz quimioterapia toda semana e está quase partindo. Esse exemplo para mim é o pior de todos. Se ela tivesse um plano de saúde e o tratamento tivesse sido rápido, ela estaria bem”, lamenta Alcione.

A supervisora administrativa destaca que a pobreza influencia diretamente para que as mulheres mais carentes tenham menor sobrevida, especialmente aquelas que dependem exclusivamente do SUS e reforça que os órgãos de Saúde devem investir em mais políticas públicas.

“Hoje a pobreza mata mais do que o câncer. As políticas públicas precisam mudar, principalmente no que se diz respeito à saúde do SUS, pois a quantidade de mulheres com câncer de mama é muito grande. Antigamente, as mulheres eram acometidas com câncer de mama depois dos 50 anos, hoje, temos mulheres com 19 anos recebendo diagnóstico positivo”, desabafa.

SUS: Mulheres em metástase têm 7 meses a menos de sobrevida

SUS: Mulheres em metástase têm 7 meses a menos de sobrevida

O comparativo foi feito em relação a mulheres diagnosticadas com câncer de mama, mas realizando o tratamento pela rede particular.

Receber o diagnóstico precoce, independente da doença, é fundamental para um bom tratamento. E, quando falamos em câncer de mama, ter esse resultado em mãos o mais rápido possível garante uma maior sobrevida. Contudo, uma pesquisa realizada em Goiânia (GO) revela que a sobrevida de mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágio metastático e tratadas no Sistema Único de Saúde (SUS) é relativamente baixa se comparada às mulheres tratadas na rede privada.

Segundo o estudo, as mulheres atendidas pelo sistema privado apresentaram um ganho de 7,5 meses de sobrevida em relação às usuárias do sistema público. Em centros especializados no Brasil e em países desenvolvidos, como a França, a sobrevida das mulheres, em cinco anos, é de aproximadamente 30%. O dado chama atenção para a importância do diagnóstico precoce da doença e de acesso aos tratamentos mais avançados. 

O dado até pode ser de outro Estado, mas esta é uma realidade presente em todas as unidades federativas do Brasil, inclusive no Piauí. O médico Leonardo Soares, membro da Sociedade Brasileira de Mastologia e coordenador do estudo, conta que, durante a pesquisa, observou poucas mudanças e evoluções no que diz respeito ao diagnóstico e tratamento ao longo dos anos, e reforça a diminuição da sobrevida de mulheres tratadas exclusivamente pela rede pública.

“Observei que há uma diferença na sobrevida global de mulheres que foram tratadas pelo SUS e de quem se tratou preferencialmente por sistema privado. Outra coisa que chama atenção é que quase 80% dessas mulheres foram diagnosticadas com metástases em outros órgãos. Na mama, os tumores eram grandes e avançados, ou seja, essas mulheres provavelmente tiveram alguma dificuldade de acesso ao diagnóstico, seja de marcar consulta, fazer mamografia ou até de chegar a um centro de referência. O estágio desses tumores ao diagnóstico é muito ruim, quase em nível de África”, compara.

Leonardo destaca ainda que foram checadas variáveis que pudessem influenciar na sobrevida dessa mulher, como idade e tamanho do tumor, mas verificou-se que esses fatores não tinham tanta influência. “Nós sabemos que, para pacientes com câncer de mama no começo, o tamanho do tumor é importante, pois quanto maior, pior é o quadro. Mas para aquela mulher que já tem um tumor no fígado ou em outra parte do corpo, o tamanho influencia? Não, pois, depois que o câncer espalha, o objetivo do tratamento passa a ser tratar o corpo todo e a mama já perde importância, pois o tumor na mama em si não leva a óbito, o que leva é a metástase”, explica Leonardo Ribeiro.


27 de julho de 2019

Do outro lado do oceano: Piauienses relatam desafios de morar fora

Do outro lado do oceano: Piauienses relatam desafios de morar fora

Nesta reportagem, o Jornal O DIA conta histórias e diferentes motivações que fizeram piauienses atravessarem oceanos rumo a novas perspectivas de vida.

A busca por qualificação nos estudos, oportunidade de trabalho e convívio social com maior nível de segurança estão entre os desejos mais comuns encontrados nas histórias das pessoas que decidem deixar o Brasil. Mas como toda mudança, trocar de país exige adaptação.

Mudança da língua, da cultura e o convívio com a saudade de quem deixa familiares e amigos para trás são os desafios que também ganham destaques quando, longe da terra de onde nasceram, os então imigrantes conseguem colocar em perspectiva o que ganham e o que perdem com a escolha. 

Nesta reportagem, o Jornal O DIA conta histórias e diferentes motivações que fizeram piauienses atravessarem oceanos rumo a novas perspectivas de vida.

Portugal: adaptação ao idioma e segurança

Se a preocupação da adaptação a um novo idioma está entre os desafios de quem escolhe um novo país, para quem decide tornar Portugal casa, o impacto não é tão imediato assim. Apesar de diferentes, o português do Brasil e o português de Portugal são similares e facilitam a comunicação de quem transita entre os dois países. 

Stênio França vê na adaptação ao idioma um dos destaques positivos para quem fixa moradia no país. (Foto: Arquivo Pessoal)

Prestes a completar um ano morando em terras portuguesas, Stênio França vê na adaptação ao idioma um dos destaques positivos para quem fixa moradia no país. Mas não só esse. “Existem muitas coisas boas, mas também ruins de morar fora. O mais importante de tudo, eu acho que é a segurança. Outra coisa é que o seu poder de compra é muito diferente do Brasil. Aqui, você consegue ter as coisas sem sentir que tem batalhar muito. A saúde também é boa e tem o fator linguístico que ajuda bastante”, destaca. 

"Aqui, você consegue ter as coisas sem sentir que tem batalhar muito", diz o jornalista Stênio França.

As considerações positivas, no entanto, não anulam o desafio de se adaptar à nova cultura e à necessidade de criar novos ciclos sociais e de trabalho com a mudança de país. Stênio, que chegou a morar três meses na Califórnia, nos Estados Unidos, antes de encontrar o marido que também se mudou de Teresina para a cidade de Porto, em Portugal, deixou para trás a atuação em jornalismo para buscar novas opções de renda no novo endereço.

 Stênio e Luciano pretendem conseguir visto de moradores. (Foto: Arquivo Pessoal)

Atualmente, os dois já trabalham na cidade portuguesa e o marido de Stênio dá seguimento a uma especialização – curso, este, que possibilitou a estadia dos dois no novo país. “Eu sempre quis viver essa experiência e tive algumas oportunidades antes para migrar, mas iam aparecendo coisas no Brasil que me fazia adiar. Até que chegou a hora certa e então comecei a me planejar. Primeiro, muita organização de planejamento e financeira. Consegui uma bolsa na Califórnia, passei três meses lá, e o Luciano se inscreveu em cursos, bolsas de pós-graduação e conseguiu uma especialização em Portugal e foi tudo se encaixando, no final de 2017 para 2018, depois de um ano e meio de planejamento, conseguimos organizar tudo para mudar”, explica. 

organização envolveu a economia de uma quantia considerável em dinheiro, retirada de visto de estudante e organização de estadia e ocupação nos futuros países. Uma extensa lista de burocracias que todos imigrantes têm de cumprir para morar de forma legalizada em países estrangeiros.

 Stênio e Luciano, agora, pretendem conseguir visto de moradores para ter acesso à aquisição de bens e serviços no país português. “Os prós são muitos, mas contras tem a saudade. O Brasil é muito bom, as pessoas de lá são diferentes e eu sinto muita saudade da comida, família, amigos, porque quando você muda, você literalmente nasce de novo. É um processo que precisa ter muito equilíbrio emocional e, aos poucos, você vai encontrando o equilíbrio”, finaliza. 

"É um processo que precisa ter muito equilíbrio emocional e, aos poucos, você vai encontrando o equilíbrio”, conta Stênio França.

Estados Unidos: pesquisa e ciência ampliam as oportunidades

Na infância, Yatta Linhares Boakari teve a experiência de morar nos Estados Unidos com sua família em virtude da conclusão de estudos de pós-doutorado do pai. O que não dava para imaginar é que, anos depois, esse também seria seu motivo para que ela voltasse a se fixar no país. Após recém concluir o doutorado, em Lexington no estado do Kentucky, ela e o marido fixam moradia agora no estado do Alabama. 

Yatta Linhares Boakari deu continuidade aos estudos no EUA pelo programa Ciências Sem Fronteiras. (Foto: Arquivo Pessoal)

Morando na América do Norte desde 2015, a pesquisadora se engrandece em experiências através das oportunidades de estudo. “Fiz mestrado em veterinária em Botucatu no interior de São Paulo, consegui uma bolsa para ficar três meses pesquisando nos Estados Unidos, em Kentucky, e eu gostei muito. Vi que era uma oportunidade boa e perguntei se podia voltar pro doutorado. Não me imaginava ficando em Teresina, acho que mudar para o exterior foi meio que um sonho antigo e as coisas foram dando certo”, considera. 

"Não me imaginava ficando em Teresina, acho que mudar para o exterior foi meio que um sonho antigo e as coisas foram dando certo”, revela Yatta Boakari.

À época, o que ajudou Yatta a sair do Brasil e dar continuidade aos estudos no exterior foi o programa Ciências sem Fronteiras, que também facilitou a regularização tanto dela quanto do marido que a acompanhou na empreitada no novo país. Agora, ela passa para um novo desafio: o de fazer residência, ainda na área de veterinária, em uma nova cidade.

“Acabei o doutorado dia 14 de junho e pensei: bom, não estou pronta para voltar para o Brasil. Então meu co-orientador orientou que eu fizesse residência e eu achei que seria uma boa opção. Na residência, você se inscreve em várias universidades e faz entrevistas. Escolhi fazer residência no Alabama, onde já começo a estudar agora”, destaca. 

Para a mudança, a pesquisadora sempre escolhe se fixar em casas já mobiliadas. Foi em assim em Kentucky e, agora, quando ela, o marido, a cachorra e um lagarto iniciam uma nova jornada no estado do Alabama, também.

Yatta e o marido agora residem no estado do Alabama. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os cinco anos que Yatta acumula de experiência vivendo longe do seu país de origem a dão uma dimensão precisa de todos os pontos positivos e negativos que estão em questão ao escolher viver longe da sua terra natal. A adaptação a uma nova cultura, como ela considera, ainda é algo que pesa diariamente, mas os ganhos da mudança são ainda maiores.

Londres: vida agitada e oportunidade de conhecer o mundo

Mesmo morando em Teresina, Lívia Moura sempre teve o sonho de conhecer vários países do mundo. Esse sonho se transformou em realidade de forma mais facilitada quando, há cinco anos, ela deixou o Brasil. Morando na Inglaterra após casamento com o marido que já morava na cidade da rainha, entre as boas novidades trazidas pela mudança, ela destaca que está o fato de ter acesso a outros locais do mundo de forma mais barata e ágil. 

 Lívia Moura sempre teve o sonho de conhecer vários países do mundo. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu nunca tinha cogitado realmente morar em outro país, nunca tinha sido um sonho morar, tinha vontade de viajar, conhecer outros lugares, mas não morar. Essa ideia só veio quando comecei a namorar a pessoa que é meu atual marido e, como estava no relacionamento à distância, tivemos que pensar na maneira que faríamos: ou ele se mudaria para o Brasil ou eu viria pra Londres. A gente teve que colocar na balança a questão de adaptação e, no final, decidimos que era mais fácil vir pra Londres, porque falo inglês, ele não fala português; eu tinha diploma, ele não, então foi isso que pesou na balança e eu decidi vir morar aqui”, explica. 

Mas a efetivação da mudança envolveu muito esforço concentrado. É que o processo de tirar o visto para o país, mesmo com o casamento realizado, não é um processo simples. Ela e o marido contrataram um advogado, que morava em Londres, para cuidar dos requisitos. Até a mudança para Londres e a organização da papelada, foi preciso um processo de cerca de um ano. 

“Como meu visto era pra família tinha muita coisa que tinha que provar. O Adam tinha que provar que estava trabalhando, há quanto tempo morava em Londres, mostrar nossos extratos bancários, tínhamos um folder que era umas 50 páginas de papelada”, relembra. Lívia considera que a cidade oferta muita oportunidade de trabalho, no entanto, não necessariamente na área de atuação que a pessoa já tenha. Ela, que trabalhava com comunicação no Piauí, se viu assumindo, por dois anos, a gerência de um restaurante na cidade.

Lívia mudou-se para Londres onde mora o marido. (Foto: Arquivo Pessoal)

Lívia destaca que o trabalho no restaurante, apesar de bem remunerado, necessitava de uma carga horária muito exigente. Por isso, aos poucos, ela conta que buscou prospectar a área de comunicação. “Se você era advogado e quer advogar, por exemplo, não é tão fácil porque aqui eles consideram a experiência local e assim vale para as outras profissões. Ou é indicado que você comece por trabalhos voluntários ou algum estágio. Foi isso que fiz. Comecei um trabalho voluntário para ter oportunidade de trabalhar com comunicação”, afirma.

Além das oportunidades e da possibilidade de conhecer o mundo pela facilidade em acessar bens e serviços, Lívia destaca que nos contras pesam o custo de vida, que é muito alto na cidade inglesa e, claro, a saudade de quem ficou no Piauí. “Moro em Londres já faz cinco anos e sinto falta de muita coisa: família, amigos, de uma intimidade que só aí a gente tem de ir na casa do vizinho e perguntar o que tá fazendo. Aqui, as coisas são cronometradas, você tem que planejar com muita antecedência; se você trabalha em restaurante, tem que pedir folga para ver alguém. Sinto falta de ter mais intimidade com as pessoas e também do clima, aqui tá sempre chovendo, nublado”, elabora. 

"Sinto falta de ter mais intimidade com as pessoas e também do clima, aqui tá sempre chovendo, nublado", ressalta Lívia Moura.

No entanto, para serenar a saudade, a piauiense encontrou um abrigo: uma loja que vende produtos brasileiros. É comendo cuscuz, tendo acesso a frutas e comidas feitas como no Brasil, que o aperto da distância diminui. Para ela, ainda é uma opção voltar a morar no Piauí, mas a perspectiva se dará a longo prazo. Agora, trabalhando com comunicação e buscando organizar melhor o tempo e a saúde, o objetivo é estar focada na próxima vinda.

20 de julho de 2019

Amizade, um elo além do tempo

Amizade, um elo além do tempo

Franklin e Thais se conheceram em 2008. Em 2016, começaram a namorar. A amizade que virou romance vai subir ao altar em 2020.

Apesar de o Dia do Amigo, que é comemorado em 20 de julho, não ser considerado um feriado, a data é celebrada por muitos, justamente por marcar um sentimento tão especial. Mais do que celebrar a amizade, essa data conta histórias e mostra que existem diferentes formas de companheirismo.

A cumplicidade vai além do tempo e a parceria é para o resto da vida. De colegas de esporte para o altar. A vida do servidor público Franklin Wernz e da profissional de Educação Física Thais Lima iria mudar e eles nem imaginavam isso. A história deles começou em 2008, quando os dois praticavam natação. Apesar de dividirem as piscinas, eles mal se falavam, mas, por morarem no mesmo bairro, era comum que se encontrassem no dia a dia.

“Thais ficou um ano na natação e eu continuei, e, quando nos encontrávamos na rua, nos cumprimentávamos, mas nada demais. Nós depois sempre participamos de grupos de jovens da igreja do bairro e, em 2016, nos reencontramos, mas, na época, estávamos comprometidos.


Foto:Arquivo Pessoal

Quando a Thais terminou o namoro, nós nos aproximamos e eu costumava aconselhá-la. Pouco depois, meu namoro também terminou e aí foi a vez dela de me dizer palavras de apoio.Como nós estávamos passando por uma situação muito parecida de término de namoro, a gente tinha empatia um pelo outro e isso terminou nos aproximando ainda mais”, conta.

Durante um encontro realizado pelo grupo de jovens da igreja, Franklin e Thais voltaram a se encontrar e, quatro meses depois, ele se declarou para ela. Ele conta que se surpreendeu com a atitude de Thais quando ela revelou que o sentimento era recíproco.

Mas, como os términos dos namoros eram recentes, decidiram aguardar um tempo e, depois de dois meses, Franklin pediu Thais em namoro.

“Começamos a nos gostar porque estávamos mais próximos, confiávamos um no outro e porque estávamos passando pelas mesmas dores, então víamos um conforto. Estamos juntos há dois anos e cinco meses; há um mês, ficamos noivos e o casamento está marcado para junho do 2020. Somos prova de que uma amizade poder virar amor, até porque não amamos uma pessoa que não gostamos e não é amigo”, finaliza Franklin Wernz.

13 de julho de 2019

Reforço das políticas públicas é necessário, defende procurador

Reforço das políticas públicas é necessário, defende procurador

Para Edno Moura, é preciso fomentar nos agentes envolvidos a necessidade de elaborar, aperfeiçoar, monitorar e avaliar as práticas estatais de combate ao trabalho infantil

São muitos os atores que pesam no combate ao trabalho infantil. Neste contexto, alimentar a consciência crítica e o conhecimento de que a prática põe milhares de crianças em situações de risco e vulnerabilidade são essenciais e, mais ainda, cobrar políticas públicas eficientes para combater o problema. Não basta dizer ‘não’ quando o assunto é trabalho infantil, é preciso estratégias de combate. 

Para isso, cobrar ações que eliminem a situação de vulnerabilidade das famílias de crianças e adolescentes que, por várias questões, colocam os filhos para trabalharem de maneira precoce, é fundamental. 

 Edno Moura, procurador do Ministério Público do Trabalho do Piauí (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“Uma das coisas que mais me preocupa é o empoderamento criado quando um chefe de Estado defende a prática. Ele acaba empoderando pessoas que já tinham essa visão e se sentem estimuladas em fazer essa defesa. O estado brasileiro, por força da Constituição, tem que ter políticas públicas para enfrentar o trabalho infantil, mas se um presidente faz apologia, a gente tem uma indicação muito clara que não teremos a afirmação de políticas públicas voltadas ao combate ao trabalho infantil. Isso é extremamente preocupante”, alerta Edno Moura, procurador do Ministério Público do Trabalho do Piauí. 

Na sociedade, segundo o procurador, é preciso fomentar nos agentes envolvidos a necessidade de elaborar, aperfeiçoar, monitorar e avaliar as práticas estatais de combate ao trabalho infantil, seja na área da saúde, esporte, cultura e lazer. Através das políticas públicas, mesmo em situações de pobreza, as crianças poderão desfrutar da sua infância, usufruindo de todos os direitos estabelecidos na Constituição.


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Djan Moreira viveu uma faceta da realidade da qual tanto luta contra

Nos últimos dias, espalharam-se pelas redes sociais depoimentos de pessoas que trabalharam quando crianças e consideram a experiência engrandecedora para a sua formação enquanto adulto. Os depoimentos refletiam uma defesa convicta do trabalho infantil, no entanto, em sua maioria, diziam respeito a atividades complementares feitas em negócios familiares ou pequenas tentativas empreendedoras. Realidade muito distante da que acontece no espectro que abarca o trabalho infantil no Brasil. 

Djan Moreira, assessor de movimento social da Secretaria de Saúde e ex-conselheiro tutelar de Teresina, reforça que falar de trabalho infantil, na atual realidade do país, é constatar a situação de meninas e meninos que são explorados sexualmente, dos que vendem sua força de trabalho na lavoura, em atividades degradantes ou mesmo os que são cooptados pelo tráfico de drogas. “Quando uma pessoa fala que é a favor de trabalho infantil, ele não diz respeito só à criança que está na lavoura, no semáforo ou a que está limpando o carro, estamos falando também das meninas e meninos explorados sexualmente em prostíbulos e daqueles que fazem ‘o aviãozinho do tráfico’. Aqueles que já são vítimas da ausência do Estado é o que, hoje, estão no trabalho infantil”, afirma.

Djan Moreira (Foto: Jailson Soares/ODIA)

Djan fala com a consciência de quem também viveu uma faceta da realidade da qual tanto luta contra. Na infância, criado apenas pela mãe, ele trabalhava na Central de Abastecimento, a antiga Ceasa, para complementar a renda de casa. 

“Com oito anos, o meu brinquedo era a enxada com a qual eu fazia pequenos bicos capinando na Ceasa, ou as sacolas que ajudava a carregar e descarregar. Nenhuma criança merece passar por isso e temos uma Constituição que garante o direito à educação, esporte, lazer, nesta fase fundamental da vida”, considera. Para o ex-conselheiro tutelar, o respeito aos direitos humanos fundamentais das crianças e dos adolescentes e o combate ao trabalho infantil é um desafio de todos, principalmente do Estado Brasileiro. 

Conselheira tutelar, Claudia Pires cobra ferramentas públicas para garantir dignidade à família (Foto: Jailson Soares/ODIA)

Neste sábado (13), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 29 anos, em seu artigo 4º, o texto ressalta que: "é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária." É nessa perspectiva que Djan espera ver as sociedades civis e organizadas, a luta para a garantia da infância. “Não podemos jogar o ECA na latrina. É preciso garantir que as crianças desse país, mesmo as mais pobres, tenham seus direitos garantidos”, finaliza. 

Família deve ser incluída no processo

Atualmente conselheira tutelar da região Sudeste de Teresina, Cláudia Pires, lembra que as principais denúncias que chegam ao órgão, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, são de situações de negligência familiar. Ela usa este recorte para lembrar que o trabalho infantil, na grande maioria das vezes, surge desse contexto de descaracterização familiar. 

“A gente quer que os direitos das crianças sejam garantidos, direito à educação, ao lazer; por isso, os conselhos atuam nas situações mais vulneráveis. Nós constatamos que a situação do trabalho infantil vem da desestruturação familiar, muitas vezes de um núcleo familiar formado por pessoas que se unem depois de outras relações. Então, quando vamos fazer a destituição do poder familiar, nós vemos que a realidade é muito dura, são pessoas extremamente pobres e os meninos estão trabalhando fora de casa para manter o mínimo. A fome dói e a fome não espera”, destaca. 

Acompanhando toda esta realidade de perto, a conselheira cobra que as ferramentas de políticas públicas possam não só retirar essas crianças das situações de exploração, mas também garantir dignidade à família. “Se combate o trabalho infantil ao dar estrutura familiar às pessoas pobres. Temos que dar dignidade de vida, de trabalho para a mãe e o pai, porque o ser humano faminto não espera. Os desafios são muitos e, infelizmente, o Estado não tem conseguido chegar até onde precisa”, finaliza. 

Trabalho infantil no mundo 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), entre as atividades que mais oferecem risco à saúde, ao desenvolvimento e à moral das crianças e adolescentes estão: o trabalho nas ruas, em carvoarias e lixões, na agricultura, com exposição a agrotóxicos, e o trabalho doméstico. De acordo com o relatório Medir o Progresso da Luta contra o Trabalho Infantil da organização, atualmente, há 168 milhões de meninos e meninas, de 5 a 17 anos, que exercem algum tipo de trabalho infantil. Isso equivale a 11% de todas as pessoas dessa faixa etária no planeta.


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Nos últimos cinco anos, o Ministério Público do Trabalho no Piauí registrou 1.279 procedimentos e investigações envolvendo exploração do trabalho da criança e do adolescente no estado

Nos sinais, as crianças parecem desaparecer em meio ao arranjo da cidade. São notadas quando, perto do vidro dos carros, pedem alguns trocados ou oferecem algum produto em troca das mesmas pequenas quantias. O dinheiro que ganham, no entanto, não é capaz de tirá-las do ciclo de exploração que já fez com que, nos últimos cinco anos, o Ministério Público do Trabalho no Piauí (MTP-PI) registrasse 1.279 procedimentos e investigações envolvendo exploração do trabalho da criança e do adolescente no Estado. 

Parte dos mais recentes números, que dão apenas um panorama do problema, mostra os Tipos de exploração flagrados no Estado envolvem desde trabalho doméstico à exploração sexual de crianças e adolescentes tipos de exploração que podem colocar em risco o desenvolvimento da criança: 55 foram flagradas em trabalho em ruas e logradouros públicos, 54 em práticas de exploração sexual comercial, 52 realizando trabalho na catação do lixo e 41 no trabalho infantil doméstico. 

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Edno Moura, procurador do Ministério Público do Trabalho no Piauí, alerta para os prejuízos da prática que é corriqueira no Estado. “O trabalho infantil prejudica o desenvolvimento da nação, porque perdemos muito material intelectual. Na fase que éramos para ter essas pessoas se desenvolvendo físico e psicologicamente, elas estão em trabalhos que a colocam em situação de vulnerabilidade e risco”, destaca. 

Para o procurador, o trabalho infantil sempre foi um problema do estado brasileiro, mas neste cenário econômico adverso, a prática tem aumentado. Apesar da presença, ela continua proibida por dispositivos constitucionais. 

Procurador Edno Moura (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) proíbem o trabalho infantil. O texto é claro na Constituição: menores de 16 anos são proibidos de trabalhar, exceto como aprendizes, e somente a partir dos 14 anos. 

“A maioria das famílias que está aprisionada ao trabalho infantil justifica todo o ciclo de pobreza, porque vão transferindo o trabalho para os filhos, os filhos para os seus filhos, e não conseguem romper o ciclo de pobreza. Algumas pessoas dizem que trabalharam na infância e conseguiram se desenvolver, mas esquecem que a grande maioria não consegue. Para quem defende a prática, porque uma família com recursos financeiros não coloca o filho para vender algo no sinal? Porque sabe que é ruim. O trabalho infantil só serve para manter a situação de exploração”, alerta o procurador. 

Em 2017, o IBGE divulgou os dados do trabalho infantil no Brasil, com base em nova metodologia utilizada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que aponta 1,8 milhões de meninos e meninas de 5 a 17 anos trabalhando.


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07 de julho de 2019

Compostagem: transforme restos de alimentos em adubo para plantas

Compostagem: transforme restos de alimentos em adubo para plantas

A reutilização de alimentos, escolha de transporte não poluente e coleta seletiva de lixo estão entre as decisões de teresinenses para contribuir com um mundo mais saudável.

Cascas de plantas, legumes e ovos, quando separadas e misturadas da maneira correta, são capazes de produzir um potente adubo para as plantas, flores e hortaliças que vê crescer em seu quintal. 

Confira o passo a passo para reaproveitar o lixo orgânico produzido na sua casa para fazer adubo por meio da compostagem.

1.Compre uma caixa organizadora plástica baixa (25 a 30 litros);

2.Faça pequenos furos com um prego ou canivete no fundo (15 furos), na tampa (15 furos) e nas laterais (2 a 4 furos de cada lado);

3.Acumule na geladeira dois potes de sorvete (4 litros) de orgânicos picados. Use apenas restos vegetais crus. Não coloque nada de origem animal nem alimentos que tenham sido fritos, cozidos, assados ou temperados; folhas de suas plantas são bem-vindas, bem como a borra do café por cima;

4.Para montar a caixa coloque uma camada de terra seca (daquela de um vaso em que a planta já não está tão saudável), uma camada de mesmo volume de restos vegetais picados e uma camada de terra preta (também conhecida como húmus ou terra adubada, que servirá como fonte de microrganismos);

5.Faça de duas a três camadas com essa disposição;

6.Em cima, espalhe borra de café, que evitará insetos e formigas;

7.Feche a caixa e volte a abrir para revirar o composto, a cada 2 ou 3 dias; se tiver minhocas, pode revirar com menos frequência;

8.Em cerca de 60 dias o composto fica pronto.

Quando estiver pronto, utilize a compostagem em seus vasos e jardim. Você pode reutilizar o recipiente para preparar um novo adubo.